Rogério Neves, médico fisiologista da seleçao

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Há muito tempo que Rogério Neves ouve a famosa frase entre os dirigentes de futebol de que jogador parado no departamento médico é prejuízo para o clube.

E, sabendo disso, o médico pós-graduado em medicina esportiva e fisiologia do exercício pela Escola Paulista de Medicina, médico fisiologista da seleção brasileira e da Portuguesa, além de diretor clínico da SportsLab (Clínica e Laboratório de Medicina Esportiva), destina boa parte do seu dia a reabilitar os atletas o mais rápido possível.

“Precisamos atingir sempre um nível de performance com saúde. Mas sabemos que o foco mesmo é correr atrás de métodos que acelerem o processo de recuperação”, diz.

Rogério Neves começou a carreira na Portuguesa, em 1999, e por lá ficou durante três anos. Depois de uma curta passagem pela seleção da Jamaica, foi convidado pelo empresário José Carlos Brunoro para participar do início do projeto do Pão de Açúcar (atualmente Audax).

O que era uma aposta acabou tornando-se um trabalho que durou cinco anos – 2002 a 2007. Nesse ínterim, esteve nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, com a seleção brasileira feminina de futebol. Ainda passou por Flamengo, com o qual foi campeão estadual, Fluminense e Santos antes de retornar ao Canindé em 2009.

No ano passado, foi chamado para atuar na seleção brasileira masculina sub-20, pela qual se sagrou campeão mundial da categoria. O título o ajudou a ser promovido para a equipe principal, com a qual também foi a uma edição de Jogos Olímpicos – Londres, no último mês de agosto.

Assim que retornou ao país, Rogério Neves conversou com exclusividade com a Universidade do Futebol durante o 8º Congresso Internacional GSSI (Gatorade Sports Science Institute).

Ele falou sobre sua profissão, metodologias de treinamentos, diferenças em atuar em clubes e seleção, com homens e mulheres, e até como o teste do CK (creatinofosfoquinase) tem gerado controvérsias.

“A ciência tem de ser bem colocada dentro do futebol. E nós, fisiologistas, ainda sofremos muito com o desconhecimento dos profissionais que atuam no esporte. Cabe a gente tentar ser um pouco inteligente para saber colocar isso e reverter o pensamento dessas pessoas”, aponta.

Confira a entrevista na íntegra:

Universidade do FutebolEm linhas gerais, qual a metodologia utilizada por vocês na seleção brasileira? Há o uso da tecnologia de GPS para controle e monitoramento dos treinos físicos?

Rogério Neves – Na seleção é um trabalho um pouco mais curto. Com exceção dos períodos em que você tem competições mais longas, nas quais você consegue implementar uma rotina parecida com a praticada em clubes, você utiliza algumas ferramentas que são voltadas para a preparação física, toda a tecnologia.

Para essas competições que envolve seleções, utilizo, em alguns momentos o GPS para observarmos, em algumas situações, o deslocamento do atleta, por exemplo, mas eu utilizo muito essa parte do monitoramento.

Monitorar o atleta na parte do desgaste, entender como que cada jogador reage a todos os treinos e jogos. E o que fazer, quais as estratégias para recuperar esses atletas. Então, venho utilizando alguns softwares que nos dão dados objetivos sobre a situação de recuperação e de stress desses jogadores. Isso nos orienta de uma forma bastante objetiva para a gente conduzir as nossas ações para sempre prevenir lesão e tentando trazer o atleta no melhor nível de performance possível.

Tem um software que usamos, o Omegawave, a Europa e os Estados Unidos já usam e nós somos os primeiros a utilizar por aqui. Ele nos dá esse nível de stress, de recuperação dos atletas e até sugere alguns parâmetros para que o atleta esteja fazendo atividade dentro de uma condição favorável. Assim, nós começamos a entender como cada um se comporta e focamos na necessidade de que cada atleta necessita.

Rogério Neves utiliza softwares internacionais para medir o nível de stress e a recuperação dos atletas

 

Universidade do FutebolA monitoração dos trabalhos no futebol deve considerar o tipo de exercício intermitente, no qual períodos curtos de alta intensidade são entremeados com períodos mais longos de recuperação ativa ou passiva. Como você faz o trabalho de carga e o direcionamento do treino?

Rogério Neves – Hoje o calendário é bastante intenso, você tem muitas datas de jogos e cria-se um espaço curto de preparação. A gente tem um curto período de recuperação em função desses intervalos de um jogo para o outro.

Hoje em dia, a gente começa a ver uma integração muito grande entre a parte física e técnica, justamente por você não ter esse tempo para preparar o jogador. Então, você trabalha muito na especificidade e na situação de jogo. Por exemplo, no aquecimento que antecede o trabalho do treinador já se desenvolve a parte da preparação física. Mas acho que tem dado certo porque começa a concentrar bem a necessidade, os próprios jogos de campos reduzidos, os coletivos, acabam dando uma condição para o atleta.

E nós temos de correr atrás dessa recuperação, que é o grande desafio para quem trabalha nessa área de medicina do esporte e de fisiologia. Tentar recuperar o atleta o mais rápido possível para o próximo evento. Porque se esse atleta não estiver bem recuperado, ele não vai desempenhar o papel e a potencialidade que ele tenha dentro de uma partida.

Universidade do FutebolVocê falou sobre os jogos reduzidos. Em alguns estudos científicos foi constatado que os pequenos jogos podem ser usados de uma forma efetiva de treinamento de resistência para jogadores de futebol. Esse tipo de atividade em campo reduzido é implementada pela comissão técnica na seleção brasileira?

Rogério Neves – Sim, acaba tendo bastante eventos neste tipos de jogos, justamente por você já estar dentro de uma especificidade. Porque todo esse trabalho é feito com bola. Então, a partir do momento que você monitora esses atletas, você observa que eles realmente trabalham em uma intensidade alta, dentro de um limiar anaeróbio, trabalhando também um pouco mais a potência aeróbia.

Ele trabalha justamente na especificidade que o futebol exige. Somando a isso, o treinamento de força, os arranques, a força explosiva. Fornecemos uma qualidade global ao jogador. Mas acho que é fundamental a gente conseguir dar um lastro aeróbio logo no início da temporada, uma base aeróbia legal.

Porque sabemos que todas essas outras atividades, um atleta tendo uma boa base aeróbia, ele vai assimilar muito mais todo o trabalho que está por vir.

Universidade do FutebolComo o departamento de fisiologia da seleção brasileira trabalha quando recebe algum atleta convocado que está com algum déficit físico, seja de quaisquer valências?

Rogério Neves – A gente tem hoje equipamentos que medem este desequílibrio, que é a avaliação isocinética. Quando o atleta não traz isso do clube, fica difícil para a gente. Inclusive, essa é uma das nossas solicitações para a seleção, de ter um aparelho deste em nossa estrutura de preparação. Porque, além de nós detectarmos o possível desequilíbrio, podemos usar o próprio aparelho para acelerar o reequilíbrio e ganho de força. E isso nós fazemos com dados
.

Você mensura o quanto que tem, tem muita ou pouca força, se existe um déficit muito grande, enfim. Isso acaba nos dando uma base muito legal. Principalmente por ser um tempo curto, no qual temos de preparar o atleta para uma situação decisiva. E, muitas vezes, o futebol é ingrato, porque você faz um trabalho muito legal, muito equilibrado, e o resultado não acontece. Foi o que aconteceu agora nas Olimpíadas.

Fizemos um trabalho fantástico, não só de grupo, mas que a gente pôde fazer todo esse monitoramento, de avaliação, o grupo querendo, tudo a favor. Mas aí o destino não aconteceu.

Rogério Neves faz exames no atacante Alexandre Pato ao lado do preparador físico Carlinhos Neves (acima) e em atuação com o médico José Luiz Runco (abaixo)

 

Universidade do FutebolE como utilizar esses dados para montar melhores treinos? O que fazer com esses dados na prática?

Rogério Neves – Toda vez que você colhe dados, não só de performance, mas dados que envolve o potencial atlético, as variáveis como resistência, velocidade, força, agilidade, impulsão, você tem parâmetros de como esse organismo reage a tudo isso. E isso é passado, dentro dessa modernidade no futebol, para o preparador físico, que deve te ouvir.

Você vai municiar ele de dados e acaba trabalhando, de certa forma, a individualidade. Se você tem dados desse atleta; não adianta você avaliar se não for colocar em prática. Melhor não fazer. Você está colhendo um dado, para quê vai servir esse dado? Para você poder intervir, poder ajudar o ganho, a correção, a performance desse atleta.

Então, isso é passado dentro de um trabalho unificado da comissão técnica, na qual envolve vários profissionais. Então, você tem o multidisciplinar, mas se não tiver o interdisciplinar a coisa não vai funcionar. Se nós pudermos colocar os dados em prática, a gente vai ter resultado.

Vamos começar a trabalhar dentro de uma realidade, não vamos ficar no empírico. Quando alguém fala ‘o cara não está correndo’, mas se eu tiver dados para mostrar que o cara está correndo, isso muda. Se você não tiver um dado para direcionar isso, você fica vendido.

O teste do CK (creatinofosfoquinase), realizado nos atletas Rafael e  Neymar durante os Jogos Olímpicos, precisa ser bem entendido, segundo o fisiologista   

 

Universidade do FutebolAtualmente Rogério, você trabalha na Portuguesa e na seleção brasileira concomitantemente. Quais as principais diferenças de atuar em um clube, que você tem o contato diário com os atletas, e na equipe nacional, que não há este acompanhamento mais de perto?

Rogério Neves – No clube você tem a possibilidade de criar uma história de cada jogador, você está ali no dia a dia, você consegue criar um arquivo de dados para poder entender como o jogador se comporta dentro do contexto futebol. Já na seleção, até pela variação de convocações, você está toda hora recebendo atleta.

Estamos até tentando criar uma situação para que a gente possoa monitorar estes atletas à distância para não termos tanta surpresa quando ele se apresenta na seleção. Vamos tentar colher algum dado ou até mantermos contato com os clubes, enfim, fazer alguma coisa à distância.

E, como são períodos mais curtos, não se tem a possibilidade de desenvolver um trabalho tão amplificado como fazemos no clube. Então passamos a trabalhar para a situação de jogo. Para se ter uma ideia, não dá tempo de avaliarmos todas as variáveis físicas nos jogadores na seleção. Ele chega para você sem você saber o que ele tem. Então, focamos o trabalho exclusivamente na recuperação deles.

Quando você tem um período mais prolongado, como nas Olimpíadas, melhora um pouco e dá para colher algum dado, mas é complicado. Geralmente, é jogar e recuperar.

Universidade do FutebolOutra mudança no trabalho que você deve ter sentido na prática foi ao ter atuado no futebol feminino. Como, na sua avaliação, as muitas diferenças entre ambos os sexos, que vão desde a composição corporal até a questão emocional, interfere na atuação dos fisiologistas?

Rogério Neves – Existem as particularidades, não só pela força física, pela composição corporal e até pela dinâmica de jogo. Temos de entender um pouco mais a mulher, que é um pouco mais emotiva e passa por situações no ciclo menstrual. Não que isso vá prejudicar a performance, mas modifica o estado emocional, a irritabilidade. Eu acho que 2004 para cá, o futebol feminino cresceu muito.

Eu comecei lá um trabalho que era zero praticamente. E vimos que o quanto se transformou em poucos meses, de março a agosto, que foi o período para aquela Olimpíada. Notamos o quanto elas podem evoluir dentro de um conceito trazido do profissional masculino para o feminino, respeitando obviamente a estrutura feminina, mas trazendo a estrutura para que elas pudessem se desenvolver.

Todo o suporte, desde o material, alimentar, até suplementar, fez esse futebol desenvolver bastante. Então, o que o fisiologista tem de entender são essas particularidades. Mas a fisiologia é a mesma, você consegue fazer no feminino a mesma coisa que no masculino.

Rogério Neves participou de duas Olimpíadas: em 2004, com a seleção brasileira feminina e, em 2012, com a masculina. Em Londres, trabalhou com o lateral esquerdo Marcelo

 

Universidade do FutebolNo pós-jogo ou treino, seja no clube ou na seleção, você utiliza a técnica da crioterapia com os atletas, ou crê que a imersão em água gelada possui benefícios apenas subjetivos?

Rogério Neves – Tem vários trabalhos que já mostram a eficácia da crioterapia. Até pelo o que ela proporciona depois: a vasodilatação, na remoção de toxinas, enfim. Existe uma aceitação favorável de alguns atletas, por outros não. Existe ainda uma logística para isso, você tem de arrumar o gelo, o lugar para fazer. Então, hoje em dia estamos atrás de algumas situações alternativas.

Por exemplo, atualmente, levamos um aparelho no quarto dos atletas [utilizamos o método de eletroestimulação neuromuscular]. Ele ativa a musculatura do jogador; estimula da mesma forma que a crioterapia, removendo catabólicos, recuperando esses músculos com uma maior oxigenação.

Apesar de o intuito ser o mesmo. Diminuir o processo inflamatório gerado pelas microlesões, pela intensidade do exercício que o atleta se dispôs a fazer. Então, depende muito. Tem jogador que pede a crioterapia, outros não querem, e existe até quem peça para fazer os dois.

Universidade do FutebolAtualmente, relaciona-se muito o trabalho de um fisiologista no futebol à extração do CK (creatinofosfoquinase). Tem-se a ideia de que este profissional serve apenas para este tipo de análise sanguínea. Mas, para você, qual é o papel do fisiologista moderno?

< strong>Rogério Neves – Acho que a fisiologia tem de ser colocada de uma forma bastante positiva dentro de um trabalho no futebol. Porque, na verdade, é ela que abastece de dados a preparação física, o treinador, o atleta. Podemos dizer que a fisiologia é o centro cultural dentro do futebol.

É o fisiologista que traz novidade, pesquisa, enfim. Existe uma diferença do fisiologista que é médico e do que é educador físico. A gente por ser médico tem uma conotação voltada para a saúde, para a recuperação do atleta. Já o educador físico foca mais o treinamento, não que também se preocupe com a recuperação. Então, essa parte sanguínea gerou algumas controvérsias porque acaba sendo o fisiologista que tem de dosar.

Se você ficar preso a números, e se a pessoa não tem experiência, ela vai cometer equívocos. Já vi casos de um time ficar sem jogador para uma partida por causa do CK. Eu já vi. Então, acho que o CK serve justamente para o contrário, para você ter o jogador em campo.

Você pode eventualmente tirá-lo de uma sessão de treino. Se achar que o treino vai fazer mal, melhor ele repousar, porque o descanso estará sendo treino pra o atleta neste caso. Então, o correto é entender sobre os vários aspectos do valor do CK.

Tenho jogador que nunca lesionou, com valores de 1.800, e tenho atleta com 200 que lesionou. Você não pode ficar preso a um valor. Isto tem de ser uma ferramenta para traçar um perfil de cada jogador, tentar fazer com que aquele número te ajude em um raciocíonio. Às vezes, você pode ter um valor super alto sem ter uma lesão.

Isso é característica da raça, da massa muscular envolvida, do desgaste, da falta de glicogênio muscular, traumas gerados pelo jogo, do próprio condicionamento físico do atleta. Então temos de ter bastante cuidado, porque uma ferramenta que é legal acaba sendo uma vilã. Daqui a pouco vão falar que CK não serve para nada, porque está sendo mal utilizado. Mas ele te dá umas dicas muito legais.

A ciência tem de ser bem colocada dentro do futebol. E nós, fisiologistas, ainda sofremos muito com o desconhecimento dos profissionais que atuam no esporte. Cabe a gente tentar ser um pouco inteligente para saber colocar isso e reverter o pensamento dessas pessoas.

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