Universidade do Futebol

Entrevistas

16/05/2014

Rui Quinta, ex-adjunto do Porto

A chegada do Benfica à final da Liga Europa deste ano colocou Portugal à frente da Itália no ranking da Uefa, que determina a quantidade dos clubes de cada país nas competições europeias da próxima temporada.

Tal fato pode, em um primeiro instante, parecer de pouca importância ou de nenhuma representatividade. No entanto, não é. O desempenho dos clubes portugueses dentro de campo desde que José Mourinho comandou o Porto no início dos anos 2000 cresceu muito a ponto do campeão português (Benfica) eliminar a campeã italiana (Juventus) e poucos estranharem o resultado.

Fruto dessa mudança, entre outros fatores, foi a capacitação e a busca pelo conhecimento que os treinadores portugueses fizeram ao longo destes anos. Em Portugal, estuda-se muito o treino, reflexo do surgimento de uma das metodologias de treinamento mais conhecidas no meio do futebol, a Periodização Tática.

“Seguramente os treinadores portugueses fizeram um investimento muito grande em seus conhecimentos. Melhoraram em nível de mentalidade, em nível de conhecimentos, em nível de liderança. E isso se refletiu no status do treinador português, que neste momento já é uma marca no mundo do futebol. Não somente em Portugal, mas também na Europa, na América, na África, há treinadores portugueses espalhados por todo o lado. E isso é um sinal de qualidade”, analisa Rui Quinta, ex-adjunto do Porto.

Bicampeão português pelo clube como auxiliar-técnico do treinador Vitor Pereira, Rui Quinta também tem larga experiência na estruturação de trabalhos nas categorias de base, quando atuou por uma década no departamento de futebol juvenil no Penafiel e, posteriormente, no Paços de Ferreira. Ainda teve passagens pelo Paredes e Gil Vicente antes de se transferir para o Porto.

No último mês de abril, esteve no Brasil para um serviço de consultoria com os times das categorias de base da Portuguesa Santista. Promovido pela empresa Kourusport, que é responsável por administrar o futebol do clube do litoral paulista, o intercâmbio fez Rui Quinta ter uma visão mais próxima da realidade do futebol brasileiro.

“Vejo que os [times] brasileiros têm conceitos de organização de jogo diferentes dos nossos, da Europa em geral. No Brasil, potencializa-se muito a referência individual, já nós potencializamos muito em termos de organização, referências como zona, espaço, bola e adversário”, compara.

Enquanto fazia a análise dos jogos das equipes iniciantes da Portuguesa Santista no estádio Pedro Benedetti, em Mauá, na Grande São Paulo, Rui Quinta conversou com a Universidade do Futebol. Falou sobre princípios táticos de jogo e sua operacionalização e como é gerir um grupo com jogadores de diversas nacionalidades. Confira:

Universidade do Futebol – O Futebol está em constante transformação, e neste cenário, quais são os meios que você utiliza para se qualificar e se manter atualizado dentro deste ambiente supercompetitivo?

Rui Quinta – Fiz o curso da Uefa de formação de treinador e tenho a licença Pro Advanced, sou habilitado a treinar em qualquer parte do mundo. Eu tenho este diploma que atesta essa minha possibilidade, mas a minha formação acontece todos os dias.

Todos os dias devo investir na minha capacidade para poder dar respostas aos desafios que me vão surgir todos os dias. Diariamente, tenho contato com pessoas, todos os dias falo, todos os dias ouço, todos os dias reflito sobre aquilo que se passa no futebol para, assim como eu disse, ter respostas próximas aos desafios que vão me aparecendo.

Também procuro ler todos os dias, sobre as mais diferentes áreas, porque a nossa tarefa como treinador é lidar com pessoas e, portanto, devemos perceber de que formas podemos chegar a estas pessoas e ajudá-las a entender as nossas ideias.

E ao mesmo tempo, vendo jogos, falando com os treinadores, ouvindo as pessoas, e isso reflete no que vai acontecendo. Também participo de congressos, pesquiso na internet, sempre buscando estar em todos os lugares que a gente consiga lidar com assuntos relacionados ao futebol.

No último mês de abril, Rui Quinta esteve no Brasil para um serviço de consultoria com os times das categorias de base da Portuguesa Santista. Ele deu palestras e ensinou treinos a todos os profissionais envolvidos na formação de atletas no clube do litoral paulista

Universidade do Futebol – Atualmente, na Liga Zon Sagres (a Primeira Divisão do Campeonato Português), todos os treinadores são portugueses, diferentemente do que acontecia até pouco tempo atrás. Por que houve essa mudança?

Rui Quinta – Porque seguramente os treinadores portugueses fizeram um investimento muito grande em seus conhecimentos. Melhoraram em nível de mentalidade, em nível de conhecimentos, em nível de liderança.

E isso se refletiu no status do treinador português, que neste momento já é uma marca no mundo do futebol. Não somente em Portugal, mas também na Europa, na América, na África, há treinadores portugueses espalhados por todo o lado. E isso é um sinal de qualidade.

E eu, quando aceitei o convite de vir aqui para a Portuguesa Santista, transporto comigo essa imagem do treinador português. E, isso para mim, além de um orgulho, é também uma responsabilidade porque estamos a passar essa imagem do técnico de Portugal. E é importante que continuemos essa imagem de competência em qualquer lugar do mundo.

Então você vê Pedro Caixinha no México, Mourinho que tem sido uma referência na Europa, Carlos Queiróz à frente da seleção do Irã, enfim, uma série de treinadores que têm nos aberto as portas no exterior.

Agora, não adianta nos abrirem as portas e nós não termos competência para isso. Neste momento, os treinadores portugueses têm uma visão diferente do que é treinar. E adaptaram-se muito bem, rodearam-se de pessoas que os ajudam nas comissões técnicas no sentido de dar respostas ao que o jogo requisita.

Penso que a escola portuguesa tem uma vantagem em relação às outras escolas de treinadores, que é o fato de o treinador português ter uma facilidade de se adaptar aos diferentes contextos e ter uma capacidade para ser flexível nas decisões e nas intervenções que vai tendo, adaptando essas intervenções ao contexto onde está, analisa

Universidade do Futebol – Quais as semelhanças e especificidades que a formação de treinador em Portugal tem se comparado com as formações na Espanha, Itália, Alemanha e outros países europeus que têm uma tradição na formação de treinadores?

Rui Quinta – Eu acho que, neste momento na Europa, o conceito de treino está caminhando numa direção onde há uma convergência de conceitos. Deixou de se treinar fundamentalmente as situações de uma forma separada e, atualmente, quase todo mundo já treina os conceitos de jogo. E isso já foi um passo muito importante.

Mas, além disso, penso que a escola portuguesa tem uma vantagem em relação às outras escolas de treinadores, que é o fato de o treinador português ter uma facilidade de se adaptar aos diferentes contextos e ter uma capacidade para ser flexível nas decisões e nas intervenções que vai tendo, adaptando essas intervenções ao contexto onde está. E isso acaba sendo uma vantagem.

As outras escolas são muito pragmáticas, em que procuram transportar os conceitos para todo o lado. E, às vezes, os contextos não são os melhores para desenvolver essas ideias, a cultura implantada nestes locais não se ajusta a estas ideias. E o treinador português consegue chegar a qualquer contexto, a qualquer lugar, perceber a cultura local e adaptar-se a ela com as suas ideias. Então, penso isso ser uma grande vantagem.

Quando nós vamos para um clube, a primeira preocupação é conhecer a cultura do clube. Devemos perceber qual a realidade onde vamos trabalhar. Perceber também que plantel vamos ter à nossa disposição. E depois vamos construir as ideias de jogo. O treinador, os dirigentes, os jogadores, todos devem conhecer que jogo é que vamos jogar, aponta Rui Quinta

Universidade do Futebol – Hoje em dia, fala-se muito em princípios táticos de jogo e sua operacionalização. Explique-nos um pouco deste conceito e como o desenvolve em suas equipes.

Rui Quinta – Quando nós vamos para um clube, a primeira preocupação é conhecer a cultura do clube. Devemos perceber qual a realidade onde vamos trabalhar. Perceber também que plantel vamos ter à nossa disposição. E, depois disso estar devidamente referenciado, nós vamos construir as ideias de jogo, que vão ajudar a todos, que vão orientar toda a gente no trabalho que se vai fazer. O treinador, os dirigentes, os jogadores, todos devem conhecer que jogo é que vamos jogar.

E aí é que está a definição dos princípios táticos do jogo. De que maneira vou defender? Vou defender homem a homem, vou defender por zona, vou me organizar com quatro defensores, vou me organizar com cinco. Então, definir estes princípios todos da organização de jogo. Para o ataque, para a defesa e para as transições.

Depois que definirmos estes comportamentos, o desafio do treinador é construir situações que promovam os jogadores a vivenciarem estes comportamentos para, quando chegar o jogo, eles estarem à vontade na execução dos mesmos.

Portanto, a forma de operacionalizarmos os princípios táticos do jogo é no treino. Através dos exercícios que nós construímos. Por isso, é que nossos exercícios têm a ver conosco, e não com os outros. Têm a ver com a nossa equipe, com nossos jogadores, com nossa realidade, com a ideia de jogo que criamos para o nosso time. E, muitas vezes, com aquilo que eu (treinador) sinto também, se eu sou muito ousado, se eu sou muito temeroso. Isso é um processo que está interligado e não é possível dissociar as coisas. Essa é a nossa visão do processo de treino.

A forma de operacionalizarmos os princípios táticos do jogo é no treino. Através dos exercícios que nós construímos. Por isso, é que nossos exercícios têm a ver conosco, e não com os outros. Têm a ver com a nossa equipe, com nossos jogadores, com nossa realidade, com a ideia de jogo que criamos para o nosso time, afirma o ex-profissional do Porto

Universidade do Futebol – Nos últimos anos, muitos brasileiros começaram a estudar a Periodização Tática em virtude do contato com treinadores e professores portugueses, sobretudo do Porto. Você é adepto deste modelo de periodização? Para você, quais são os principais benefícios de se trabalhar a partir dessas ideias?

Rui Quinta – Bom, eu tive a sorte de conhecer o professor Vítor Frade há muitos anos. Mesmo antes de ser aluno dele. E, desde então, podia se notar que a personalidade dele é única. Ele cativa, entusiasma, desafia. E ter sido aluno dele foi um marco na minha vida em termos de pensar o que é o futebol. Até essa altura, eu via as coisas de uma determinada maneira, a partir deste momento, comecei a ver as coias de uma maneira completamente distinta.

Mas, não estou dizendo que sou um discípulo de Vítor Frade porque não consigo potencializar os conceitos que ele tem. Não tenho essa capacidade ainda de potencializar as coisas da maneira que ele as vê. Ele é único. Mas, acredito naqueles princípios da Periodização Tática e o nosso trabalho, nestes últimos dois anos ao lado do Vitor Pereira, que também é um defensor desta metodologia de treino, foi nesse sentido.

E a principal vantagem dessa metodologia de treino é que se fundamenta no jogo. No jogo que nós queremos jogar. Que é diferente do jogo que você quer jogar. Então, cada um tem um jogo e essa que é a grande riqueza. Potencializar fundamentalmente a minha forma de jogar com essa metodologia de treino. Potencio o meu contexto, potencio a minha identidade, potencio as minhas particularidades.

E, depois, a articulação das ideias no processo de treino. E penso que essa vantagem é fundamental. Porque os jogadores vivem permanentemente no contexto de jogo e competitivo. E os treinos também tem de ter, não somente os aspectos físicos, técnicos ou táticos, mas também o aspecto emocional. E o aspecto emocional tem de estar inserido em todas as situações que nós desenvolvemos no nosso processo de treino. E essa é a principal riqueza da Periodização Tática.

José Mourinho que tem sido uma referência na Europa, Carlos Queiróz está à frente da seleção do Irã, enfim, uma série de treinadores que têm nos aberto as portas no exterior. Agora, não adianta nos abrirem as portas e nós não termos competência para isso. Neste momento, os treinadores portugueses têm uma visão diferente do que é treinar, avalia

 

Universidade do Futebol – O Porto, até pela questão econômica do país, caracterizou-se em apostar muito em jogadores sul-americanos que são contratados a valores mais baixos e após o sucesso em Portugal são revendidos a valores muito altos. Como você vê este trabalho? Isso faz parte de um planejamento estratégico por parte do clube? Como a comissão técnica interfere neste processo?

Rui Quinta – A linha de contratação do Porto é determinada pela SAD (Sociedade Anônima Desportiva), que dirige o clube. E essa linha estratégica é apresentada por eles, depois pelos treinadores. A função dos treinadores naquele clube está muito clara: é de potencializar o talento dos jogadores que eles dão, ganhando.

Então, quem vai trabalhar lá sabe o contexto que vai encontrar. Isso é um desafio, mas também é uma vantagem de trabalhar com excelentes executantes (de executar), dos mais variantes escolas dos jogadores do mundo. E, depois, o desafio é, ganhando, ajudar a potencializar o seu valor para que o clube consiga um retorno nos investimentos que fez em cada um deles.

E a natureza do Porto é, mesmo vendendo os seus melhores valores, continuar a ganhar. E isso é, claramente, uma visão á frente dos demais. Aliás, está sendo seguida por muitos clubes essa filosofia que foi montada em primeiro lugar pelo Porto.

Há, inclusive, um departamento somente direcionado para a identificação de jogadores em todo o mundo. Para identificar valores e depois para serem vistos. Mas, a SAD sempre consulta o treinador principal do clube.

A maior parte dos jogadores que chega do exterior é excelente ouvinte. Mas, tem algumas dificuldades em relação à compreensão, ao posicionamento, da organização do jogo. E esse é o nosso primeiro trabalho com eles é ajudá-los a compreender que comportamentos nós pretendemos que eles sejam capazes de executar, diz Rui Quinta

Universidade do Futebol – Quais as principais dificuldades de gerir um grupo com jogadores de diversas nacionalidades? É possível perceber as influencias culturais na forma de jogar de cada jogador?

Rui Quinta – Primeiramente, é uma riqueza muito grande, lidarmos com uma série de personalidades, dos diferentes lugares do mundo, que têm um objetivo comum: vencer, terem sucesso. E isso é um facilitador. Portanto, une todos em um mesmo objetivo.

E, depois sentimos uma outra coisa. A maior parte dos jogadores que chega do exterior é excelente executante. Mas, tem algumas dificuldades em relação à compreensão, ao posicionamento, da organização do jogo. E esse é o nosso primeiro trabalho com eles é ajudá-los a compreender que comportamentos nós pretendemos que eles sejam capazes de executar.

E, ao serem inseridos na organização, que é a equipe, a qualidade que eles têm são potencializadas. Porque sozinhos, seguramente, não conseguem atingir o nível que conseguem atingir baseados na dinâmica coletiva.

Eu falo da realidade do Porto. Os jogadores que chegam ao clube são tratados da melhor maneira, com uma preocupação para proporcionar as melhores condições. Para a família, para eles, para que nada os falte. E que eles estejam só concentrados e disponíveis para os interesses do clube. E isso acaba sendo um fator determinante.

Acredito naqueles princípios da Periodização Tática e o nosso trabalho, nestes últimos dois anos ao lado do treinador Vitor Pereira, que também é um defensor desta metodologia de treino, foi nesse sentido, revela o ex-auxiliar-técnico do clube português

Universidade do Futebol – Você assiste a algum jogo do Campeonato Brasileiro? Como analisa o nosso futebol atual?

Rui Quinta – Só pela televisão. Mas, nesta passagem pelo Brasil, pretendo assistir a um jogo do Santos na Vila Belmiro. Para mim, que vi o Pelé jogar, aquele estádio é um lugar mítico, que ficou registrado na minha memória.

Mas, vejo que os brasileiros têm conceitos de organização de jogo diferentes dos nossos, da Europa em geral. No Brasil, potencializa-se muito a referência individual, já nós potencializamos muito em termos de organização, referências como zona, espaço, bola e adversário.

No futebol brasileiro, o adversário acaba por ter uma predominância, e isso acaba por condicionar muito os comportamentos dentro de campo. Mas, vejo que há um potencial individual enorme na qualidade dos jogadores do Brasil. Vi a final do Paulista, além da decisão de outros Estaduais pela televisão, e pude notar que há jogadores com muita qualidade por todo o país. 

 

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Marcelo Martins, preparador físico do Bayern de Munique
 
Francisco Navarro Primo, treinador da base do Valencia  
Pedro Boesel, gestor financeiro
Emily Lima, treinadora da seleção brasileira sub-17
João Burse, técnico do Mogi Mirim sub-20
Mariano Moreno, diretor da escola de técnicos da Espanha
Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana 
Baltemar Brito, ex-auxiliar de José Mourinho
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Maurice Steijn, treinador do ADO Den Haag
Hidde Van Boven, treinador do sub-13 do VV De Meern
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Reinier Robbemond, treinador da equipe sub-13 do AZ Alkmaar
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