Universidade do Futebol

Geraldo Campestrini

25/05/2011

Sbórnia

Reservei esse espaço para contar um relato histórico, com um tom irônico e que, qualquer semelhança talvez seja mera coincidência. Talvez! É o caso da Sbórnia*, um país da Idade Média onde se praticava um esporte primitivo ao futebol.

Naquele país e naquele tempo havia, como hoje, agremiações, atletas, uma entidade soberana, que controlava o esporte, e uma emissora de televisão – sim, eles possuíam satélites e viviam em uma sociedade muito avançada, embora pouca gente a conheça com maiores detalhes.

Mesmo sendo uma sociedade evoluída, ninguém conseguia entender como a entidade de administração do esporte e a emissora de televisão detinham tanto poder sobre as agremiações e os atletas.

As agremiações eram extremamente populares. As pessoas vestiam a camisa, compravam produtos, discutiam sobre os jogos em um volume enorme em seus cotidianos. Estas instituições implicavam em um fascínio sem igual no imaginário daquele povo.

Os atletas, por sua vez, também exerciam um poder social incrível. Jovens chegavam a cortar seus cabelos para imitar os ídolos. Se vestiam e falavam tal e qual os seus astros preferidos, imitando-os sempre que julgavam interessante.

Mesmo com todos esses ingredientes, nem clubes, nem atletas, conseguiam negociar bons contratos com a televisão e se mostravam estranhamente passivos aos desmandos da entidade de administração do esporte.

A TV mudava horário de jogos para períodos complicados para que o público fosse às arenas – isso sem falar na saúde física e mental dos jogadores, que era indiretamente afetada. Além disso, pagava proporcionalmente pouco para retransmitir os espetáculos disputados nos campos do país.

Ora, se os clubes e os atletas eram o centro das atenções, por qual motivo não exerciam poder suficiente para brigar por aquilo que acreditavam? A realidade, segundo historiadores, é que os mesmos não tinham capacidade de se reunir e lutar por interesses comuns. Desta maneira, os demais agentes, que se apresentavam de maneira mais organizada, sobrepunham seus anseios perante os verdadeiros personagens do espetáculo.

Ufa. Mas ainda bem que isso tudo aconteceu há muito tempo e em um local muito, mas muito distante do nosso. Vivemos um tempo diferente, com saberes e inteligências distintas, não é, caro leitor?


*Sbórnia é um lugar fictício, criado pelos humoristas gaúchos Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez para o espetáculo “Tangos e Tragédias”, onde, segundo eles, está depositado todo o lixo cultural do mundo.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br  

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