Universidade do Futebol

AAREFut

15/05/2012

Seleção brasileira: futebol de hoje x futebol de ontem

O que é que dita as tendências do treinamento no futebol mundial? Em minha opinião, é o resultado das competições futebolísticas de maior impacto. Após os resultados dessas competições, procura-se ver o que foi feito pelos mais bem colocados para atingir o sucesso e os demais clubes e seleções tentam se adaptar às “últimas tendências” para ter mais chances de vencer a próxima edição; afinal, todos querem vencer!

Estamos em 2012 e atualmente a seleção campeã do mundo é a Espanha. O clube campeão da última edição da Champions League e da Copa do Mundo de Clubes é o espanhol Barcelona. Portanto, é a Espanha que dita as tendências do treinamento de futebol hoje.

Esses resultados não caíram do céu. Em 1971, os dirigentes do Barcelona fizeram uma escolha que tornou tudo isto possível – contrataram o então treinador do Ajax, o holandês Rinus Michels. E muita coisa estava para mudar.


 

Vou agora falar de seleção brasileira, pentacampeã do mundo! O Brasil dominava futebol até 1962. Então, a Copa de 1966 na Inglaterra foi, para a seleção brasileira, o divisor de águas, já que até hoje prioriza o físico (com as devidas evoluções tecnólogicas, biomecânicas, fisiológicas, etc.) em relação às outras componentes.

O Mundial foi vencido pela Inglaterra, tendo como vice-campeã a Alemanha e a terceira colocada foi a antiga União Soviética. Descobriu-se que essas três seleções preparavam fisicamente seus jogadores através de “circuitos” físicos.

O Brasil comprou a ideia… diversos profissionais brasileiros foram para a Europa acompanhar de perto a novidade. Resultado: a técnica brasileira somada com a preparação física europeia (na época) deu resultado e, na Copa de 1970, no México, o Brasil voltava a ditar as tendências do futebol mundial!

Até então, para o futebol da época, a nova fórmula brasileira era perfeita. Porém, o futebol vai mudando… Para mim, o início da ascensão espanhola e o início do “declínio” brasileiro (já explico o declínio entre aspas) aconteceram na década de 70, quando em 1971 os dirigentes do Barcelona “enxergaram” na filosofia do holandês Rinus Michels o “futebol do futuro” e o deixaram no comando da equipe catalã. Com isso, a semente do “Futebol Total” estava plantada no Barça e consequentemente na Espanha, o que, para mim, fez evoluir os jogadores espanhóis, que jogavam uma liga nacional que já contava (como até hoje conta) com grandes jogadores oriundos de outras partes do mundo.

O Brasil e o resto do mundo tiveram a chance de comprar a ideia em 1974 (para mim, este é o divisor de águas), quando, na Copa do Mundo vencida pela Alemanha, o mundo conheceu o “Carrossel Holandês” e os conceitos do “Futebol Total” implantados por Rinus Michels. Porém, como a Alemanha venceu e todos querem vencer, o futebol mundial ficou mais físico do que nunca!

Vamos agora ao “declínio” da seleção brasileira. Ele iniciou-se em 1974? E os Mundiais de 1994, 1998 e 2002? Eis a (minha) resposta.

Bem, após o triunfo brasileiro na Copa de 70, vieram as Copas de 1974 (meu divisor de águas), 1978, 1982, 1986, 1990, até que o Brasil foi campeão novamente em 1994, na Copa do Mundo nos Estados Unidos. O futebol estava diferente, menos técnico, mais físico (mais feio?), mesmo assim, nossa técnica ainda fazia a diferença no mundo. Vamos adiante, 1998 e… em 2002, ganhamos de novo: “estamos no caminho certo, voltamos a dominar o mundo”!

Nossa técnica (gradativamente menor), aliada ao nosso físico impecável, ainda era suficiente para vencer e todos querem vencer!


 

Avancemos no tempo: Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, ou devo dizer a Copa mais “feia” da história? Tenho meus motivos: o zagueiro italiano Cannavaro foi eleito o melhor jogador do Mundial e o lance que marcou o jogo final foi uma expulsão, não um gol, ou um lance bonito… concordam que o futebol foi ficando mais feio?

Enfim, o futebol continuou mudando e a Espanha de “pouca tradição” nos Mundiais foi ganhando seu espaço, fazendo boas campanhas no cenário europeu e mundial. Venceu a Euro 2008 e em 2010 ganhou sua primeira Copa, na África do Sul, jogando um bom futebol. O Brasil, com a sua técnica (menor que em 2006) e seu “vigor físico” (o melhor da história), que dominava o futebol mundial com certa vantagem, perdeu a sua hegemonia… mas ainda queremos vencer!


 

Eu me pergunto diariamente: se o Brasil em 1974 tivesse comprado a ideia da Holanda e aliado sua técnica ao “Futebol Total” em vez de ter ido pelo caminho físico (inglês, alemão, russo…), as Copas de 1978, 1982, 1986 e 1990 teriam passado em branco? Não sabemos, mas acho que ainda dominaríamos o mundo.

O que nos manteve no topo do ranking da Fifa até 2006 não foi a opção de priorizar o físico em 1966, mas sim a forte cultura futebolística brasileira, os jogos de rua, o número de praticantes, a “fartura” de matéria-prima (já que os jogadores são um produto) que nenhum outro país do mundo tem.


 

Somos obrigados a concordar com o espanhol Pepe Guardiola quando diz sobre o Barcelona: “O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós”. É verdade, o Brasil foi “perdendo” seu bom futebol ao longo dos anos e perdeu posições no ranking da Fifa.

A Espanha começou de baixo (não se classificou para o Mundial de 1974), se estruturou e está mais forte do que nunca. O Brasil, que esteve no topo em 2002, (como 10 anos passam rápido!), está parado no tempo (para mim, desde 1974). A Copa de 2014 está se aproximando, o Barcelona e a Espanha estão no topo e continuam evoluindo.

E o Brasil de hoje? Tenho receio só de pensar na resposta, mas ainda temos chances de vencer! Temos dois caminhos: o primeiro e mais conveniente é torcer para os craques da vez “estarem inspirados” e trazerem a taça; caso isso não aconteça, podemos novamente culpar os “vilões” (normalmente o treinador e alguns jogadores) pelo fracasso. O segundo e mais trabalhoso é enxergar que ficamos para trás e temos que (como o resto do mundo) nos adaptar às “últimas” tendências futebolísticas.

Eu, em 2012, falar sobre o melhor caminho a ser seguido em 1974, foi muito fácil; o difícil vai ser mudar hoje, para dominar o futebol de amanhã, como fez muito bem a Espanha alguns anos atrás…


 

Bibliografia

MICHELS, R. Team building the road to success. Reedswain Publishing: 2001. www.fifa.com

*Alberto Tenan é mestrando em Treino Desportivo (ULHT – Lisboa).

Para interagir com o autor: alberto@tenan.com.br

Contatos: www.tenan.com.br e www.facebook.com/tenanfutebol

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