Universidade do Futebol

Eduardo Barros

21/05/2011

Será que estaremos vivos?

Após as finais dos Estaduais-2011, muitas rodas de conversa sobre futebol tiveram como assunto principal a falha do goleiro corintiano Júlio César na jogada que terminou com o gol de Neymar, o segundo do Santos na vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro.

Inconformado com a derrota, um torcedor (sem o amplo olhar das vitórias e derrotas num jogo) questionou um técnico de futebol, argumentando como pode ser possível alguém que tem como profissão a função exclusiva de fazer defesas, não conseguir segurar uma bola tão fácil.

 

 

Leia a história abaixo, ocorrida num destes lugares em que se discute futebol:

Torcedor: Não é possível! Ele é muito bem pago pelo que faz e “engoliu um frango” num chute rasteiro, fraco e, ainda por cima, no meio do gol. As desculpas que a grama estava molhada e a bola estava lisa não servem! Ele não poderia ter defendido?

Técnico: Poderia, sim. Mas considere toda a jogada. A recomposição da defesa do Corinthians foi lenta, o posicionamento de cobertura do zagueiro central ao lateral direito não foi bem executado e a visão do Júlio César pode ter sido atrapalhada no momento da finalização do Neymar.

Torcedor: Não interessa! Ele treina todos os dias com o preparador de goleiros e eu já vi centenas de vezes como são os treinamentos. Ele tem que defender chutes, chutes e mais chutes. Vi numa reportagem que alguns preparadores chutam até 500 bolas em um único dia. Muitos são dificílimos e incluem saltos, deslocamentos, rolamentos, quedas. Uma bola daquela não pode passar!

Técnico: Você está certo! Os goleiros defendem chutes, chutes e mais chutes, porém, escute-me: os treinamentos de goleiros um dia irão mudar!

Torcedor: Eu sei. Tenho acompanhado que alguns treinadores de goleiros utilizam raquetes e lançam bolinhas de tênis para serem defendidas. Clubes modernos dispõem até de uma máquina que dispara bolas. Tudo isso para melhorar o reflexo, certo? Espero que com isso os “frangos”, ao menos do meu time, não aconteçam mais!

Técnico: Não é bem isso que eu quis dizer. Os treinamentos que contenham disparos exagerados, seja com raquete, com máquina ou com o próprio treinador de goleiros, um dia irão acabar! Só não sei se nós ainda estaremos vivos…

Torcedor: Como assim? Se os goleiros já falham com a quantidade de treinamento de defesas que realizam, imaginem se pararem de treinar? O futebol está perdido!

Técnico: Eles não vão parar de treinar. Somente irão fazê-lo de maneira diferente!

Torcedor: Como assim?

Técnico: Chegará o dia que todos os treinamentos de uma equipe serão o mais próximo possível da realidade do jogo. O goleiro não vai ter que ficar pulando corda, cone ou estaca, pois o jogo de futebol não tem nada disso!

Torcedor: E como ele melhora a altura do salto?

Técnico: Ele não precisa saltar mais alto, e sim, na hora certa.

Torcedor: Mas e as defesas?

Técnico: Ele continuará fazendo. Não na mesma quantidade, no entanto, sobrará tempo para o aprendizado de outras questões muito importantes para o jogo.

Torcedor: Mas o que é mais importante para o goleiro do que defender?

Técnico: Não precisar defender, oras!

Torcedor: Isso é impossível!

Técnico: Não é, não! Defesas são ações técnicas bem menos realizadas do que reposições e interceptações ao longo de uma partida. Há estatísticas de jogos que uma equipe não acertou nenhum chute no gol durante os 90 minutos.

Torcedor: Incompetência!

Técnico: Ou competência da que não permitiu o chute?

Torcedor: E se uma equipe consegue chutar muito?

Técnico: Como o Barcelona, por exemplo?

Torcedor: Isso, o Barça finaliza demais! Como o goleiro se prepara para este bombardeio?

Técnico: De acordo com os números da Uefa Champions League, sabe qual a média de chutes no gol da
equipe espanhola por partida nesta competição?

Torcedor: Vinte e cinco?

Técnico: Sete!

Torcedor: Só?

Técnico: Sim! E é a melhor. Então, pra que defender mais de 200 bolas em um único dia?

Torcedor: Não sei, não sei… Estou confuso! Quer dizer que com estes novos treinamentos os goleiros não vão mais falhar?

Técnico: Vão sim!

Torcedor: E você não se importa?

Técnico: Claro que me importo, mas todos os jogadores erram…

Torcedor: Se for do meu time, vou ficar bravo sempre!

Técnico: Tudo bem, mas lembre-se de considerar toda a jogada…

Torcedor: Você já me disse isso! Me diga uma coisa: quem que está falando tudo isso? É você quem está inventando?

Técnico: Inventando, eu? Não… Quem me disse? Os mesmos que falam e escrevem que a preparação física do jogador de futebol está mudando, que os treinamentos das equipes de futebol irão mudar e que, consequentemente, o futebol brasileiro um dia irá mudar, e pra melhor!

Torcedor: Mudar? Somos pentacampeões do mundo. Você está ficando louco!!!

Técnico: É melhor pararmos por aqui…

O técnico em questão não considerou pertinente continuar a discussão, pois expressões como a função do goleiro no modelo de jogo da equipe, as regras de ação a serem executadas nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e o entendimento do fenômeno futebol a partir de uma visão sistêmica não seriam compreendidas. Felizmente, o diálogo ocorreu com um simples torcedor. O grande desafio é quando as justificativas têm que ser feitas para profissionais do futebol, muitas vezes sem sucesso!

Quando o treinamento de goleiros mudar, será que estaremos vivos? Se existe dúvida sobre a veracidade da história acima, fica a critério da imaginação do sábio leitor!

“A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro.” (John F. Kennedy)

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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