Universidade do Futebol

Entrevistas

19/10/2012

Sérgio Raimundo, coordenador técnico do Étoile Lusitana

O jovem Sérgio Raimundo costuma repetir um ditado que o acompanha. De modo sintético, a analogia budista diz que pensamentos, palavras, ações, hábitos e caráter tornam-se no destino de cada indivíduo. Formado em Motricidade Humana (FMH), na famosa Faculdade Técnica de Lisboa, o ex-treinador da Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica não duvida do valor da universidade na abertura das portas para a ciência atual, mas tem uma certeza: o que vem fazendo a diferença na vida é a curiosidade sincera, a busca de conhecimento, o contato com gênios nas mais diversas áreas e a disposição em compartilhar informações.

Atual técnico e coordenador do Étoile Lusitana, clube senegalês fundado há pouco mais de quatro anos cujo padrinho é José Mourinho, Sérgio Raimundo está vinculado também ao Núcleo de Futebol da Futebol da FMH, criado com o intuito de “saber mais, ouvir mais, falar mais” e trocar ideias para melhorar os pensamentos interdisciplinares da modalidade, da comunicação social ao treino, passando pela observação de jogo, gestão e agenciamento.

Na temporada 2011/2012, ele recebeu ainda o convite do professor Manuel Sérgio para integrar o Gabinete de Inteligência Competitiva que o próprio iria implementar no Benfica, onde mais tarde voltou para ser treinador adjunto dos juniores do clube português.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o profissional que foi moldado também no Brasil e na Bélgica fala mais profundamente sobre a experiência vivida no continente africano e explica que a metodologia no Étoile Lusitana é transversal a todos os escalões de categorias de base, com pressupostos semelhantes na área técnico-administrativa.

“Damos importância redobrada ao caráter e aos valores dos jogadores e trabalhamos isso também nos exercícios, pois sabemos que quando saem para a Europa, representam a nossa academia, que queremos que seja referência na África”, revela.
 


 

Universidade do FutebolQual é a sua formação acadêmica e como se deu seu ingresso no futebol profissional?

Sérgio Raimundo – Licenciatura com base em Ciências Humanas, ditas ciências do Desporto, e Mestrado em Motricidade Humana, dito “Educação Física”, tudo isto pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Recordo como pontos altos na minha formação acadêmica os intercâmbios realizados no CEFID da UDESC em Florianópolis (“Futebol Brasileiro – tecnicismo”) e na Universidade de Medicina de Florença (“Futebol Italiano – rigor tático e parâmetros biomédicos [homem máquina]”). Para além dos conhecimentos adquiridos, a adaptação cultural fez crescer e evoluir, as amizades acrescem valor à vida, o network aumenta.

Curiosamente, também foi a estadia no Brasil em 2008 que me permitiu, em grande percentagem, o ingresso no futebol profissional – uma escolha do “passado” condicionou em larga escala um acontecimento futuro, o destino. Há um ditado budista que diz:

“Cuidado com os teus pensamentos porque eles se tornam palavras,
Cuidado com as tuas palavras pois elas tornam-se ações,
Cuidado com as tuas ações porque se tornam hábitos,
Cuidado com os teus hábitos porque eles se tornam caráter,
Cuidado com o teu caráter porque se torna no teu destino”.

Recordo-me como se fosse hoje de um momento no final do intercâmbio no Brasil, no qual o Professor João Batista Freire nos deixou (a mim e aos colegas portugueses) perplexos e curiosos: “Vocês querem ser treinadores de futebol? Já conheceram o Professor Manuel Sérgio? Sabem que o Mourinho fala muito nele? Deviam ir falar com ele porque ele é uma pessoa maravilhosa e com certeza podem aprender muito com ele”. Esta afirmação deixou-nos muitos curiosos…

Primeiro porque em Portugal nunca tínhamos ouvido falar de uma pessoa que é portuguesa e idolatrada no Brasil e depois porque desconhecíamos a ligação de tal pessoa ao futebol e aquele que era (ainda é) para nós a grande motivação e referência pelos seus êxitos como treinador de futebol, José Mourinho. A verdade é que chegando em Portugal, procuramos o professor Manuel Sérgio e desde então não mais deixei de comunicar frequentemente com ele e de ler os seus livros que tão atenciosamente fez questão de oferecer.

Encontrei na sabedoria do professor o elo ligação entre todas as disciplinas que tinha aprendido na Universidade, como disse Federico Mayor, antigo Diretor Geral da UNESCO entre 1987/1999 :“Devemos reconsiderar a organização do conhecimento. Para ele, devemos derrubar as barreiras tradicionais entre as disciplinas e conceber a maneira de voltar a unir o que até agora estava separado”.

Desde que conheci o Professor, as coisas passaram a fazer sentido, a exaltação do humano, a intencionalidade humana, o fato de a mesma fisiologia atuar de forma diferente em sujeitos diferentes, isto é, indivíduos com as mesmas características e o mesmo treino produzirem diferentes respostas em competição muito devido às suas crenças e motivações.

Sempre fiz desporto de competição desde os meus 8, 9 anos, entre os quais o Futebol que foi o meu primeiro e que deixei com 16, 17 anos, mas acabei por encontrar algo que já conhecia mas que passei a ver como o fator de desequilíbrio na balança do desporto e da vida – o humano. Na verdade, era assim em todas as coisas da vida.

Mesmo na Faculdade, de um ponto de vista pessoal, pois cada um tem as suas motivações, os professores que mais gostava eram aqueles que transmitiam mais do que matéria, que conseguiam criar empatia nas aulas como a professora Filomena Vieira, que, sem a mesma saber, me fez estudar bastante para um teste teórico de Cinantropometria só porque não a queria desiludir com a nota, ou o professor Paulo Martins, de Luta e Pedagogia, eleito várias vezes professor do ano pelos seus alunos e com o qual cheguei a fazer publicações e que me levou mesmo a pertencer à equipa de Luta da Faculdade. O próprio professor João Rasoilo, de Fisiologia do Desporto, apesar da disciplina que leciona, sempre conseguiu transmitir os conteúdos de forma prática e obrigando as pessoas a pensar (ainda hoje me lembro perfeitamente dos conceitos que nos “obrigava” a entender, mais do que decorar). A professora Ana Santos, de Sociologia, o professor Pedro Pessoa, de Natação, o professor Sidónio Serpa, de Psicologia, a professora Filipa Cavalleri, de Judo, dava gosto ir a estas aulas, entre outros.

Eu próprio tenho motivações “divinas”, a crença de que a alma do meu grande amigo e colega de faculdade, que teria sido certamente um dos melhores treinadores do mundo, o grande Bruno, está olhando por mim…

Por isso não posso negá-las aos jogadores, não posso deixar de jogar com esses fatores para conseguir alcançar o máximo de cada um deles. Como diz o ilustre professor Antunes de Sousa numa frase marcante: “A crença gera biologia”.

 

 

José Antunes de Souza, presidente da Sociedade Portuguesa de Motricidade Humana

 

 

Posso partilhar um poema de António Gedeão que chegou ao meu conhecimento pelo professor Manuel Sérgio, o qual nunca me esqueci e que esclarece bem as limitações da fisiologia, quando usada isoladamente sem associação ao pensamento/motivações/sentimentos das pessoas (não querendo retirar total importância à mesma):

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Houve pessoas que no campo, no futebol, me fizeram evoluir bastante desde os Escolas até aos Seniores, como os treinadores Paulo Piedade, António Fonte Santa, João Mendes, Hugo Vicente, Lino, Vitor Estêvão, João Tralhão, Miguel Miranda, Pepa, Hélder Fontes, Eric Dehaeseleer, Patrik Thairet, pessoas com quem trabalhei diretamente e com quem tive muitas conversas sobre o jogo e que, em geral, sempre me apoiaram e me deram liberdade para aplicar livremente a minha forma de pensar o jogo e o treino, ou que me fizeram encontrar, na discórdia, algo novo, anos que foram determinantes para a evolução pessoal que continua até ao final da vida.

Além dos treinadores mencionados, há um com quem tive o prazer de trabalhar, que é a minha referência pessoal, um modelo de conduta, de motivação: o grande treinador profissional Luís Norton de Matos, atualmente treinador do SL Benfica B, equipe que joga na segunda divisão do Campeonato Português.

Trata-se de uma pessoa com muita experiência, discreta, inteligente, atualizada, sempre aberta ao novo, com enormes qualidades humanas e elevadíssima qualidade de discurso, capaz de “gerar a tal biologia” através da crença e da motivação.

Também o Núcleo de Futebol da Futebol da Faculdade de Motricidade Humana que criamos com o intuito de saber mais, ouvir mais, falar mais, trocar ideias, contribuiu e contribui de forma decisiva para a troca de informações e melhoria das ideias interdisciplinares do futebol, da comunicação social ao treino, passando pela observação de jogo, gestão, agenciamento, etc.

De forma mais redutora, após alguns anos como treinador na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica e ao mesmo tempo num clube amador chamado Beira-Mar Atlético Clube de Almada, estágios no Brasil e na Bélgica, uma experiência e da participação como treinador adjunto para torneios internacionais no clube profissional Étoile Lusitana do Senegal, onde atualmente sou treinador e coordenador técnico, surgiu na temporada 2011/2012 o convite do professor Manuel Sérgio para integrar o Gabinete de Inteligência Competitiva que o próprio iria implementar no SL Benfica. Mais tarde, surgiu também o convite para ser treinador adjunto dos juniores do clube.


Quem é José Mourinho

 

Universidade do Futebol Como é feito o acompanhamento escolar dos atletas das categorias de base do Benfica, clube pelo qual você passou? Quem faz este controle?

Sérgio Raimundo – Como foi já possível ver várias vezes na Benfica TV e em notícias oficiais, o clube tem uma pessoa responsável pelo acompanhamento sócio-escolar dos jogadores-alunos e que faz a ligação entre clube e escola. Uma notícia divulgada em 24 de janeiro de 2009 no Diário de Notícias mostra uma afirmação curiosa da coordenadora de apoio socioescolar do clube:

“Eles quando chegam aqui vêm completamente deslumbrados. Só pensam que vão ser o próximo Cristiano Ronaldo, ou o Figo, ou o Rui Costa. O estudo nem entra muito na cabeça deles (…) Não permitimos essa atitude. Temos um relacionamento estrito com a escola. Se um atleta for neste momento para a rua, o meu telefone toca. Eles ficam a saber desse controle e têm de entrar na linha, pois em casos extremos podem ser expulsos. Isso já aconteceu”, avisou.

A notícia refere também que “a direção da formação é regularmente avisada do que os jogadores fazem na escola, seja positivo ou negativo” e que “Os jogadores portugueses e os oriundos de países de língua portuguesa estão na escola. Os restantes ficam no centro estudando português”.
 


 

Universidade do FutebolO trabalho realizado pelas comissões técnicas é interdisciplinar? Como se dá a interação entre as diferentes áreas pedagógicas e científicas?

Sérgio Raimundo – Sendo atualmente profissional de outro clube, gostaria de falar do trabalho desenvolvido no mesmo. O Étoile Lusitana nasceu oficialmente no Senegal, em abril de 2008. O treinador José Mourinho foi o “padrinho” e grande símbolo da estreia oficial do clube, tendo-se deslocado a Dakar para este feito. O nosso objetivo principal é a detecção e formação de jovens talentos senegaleses, possibilitando a sua posterior transferência para as grandes equipas de referência no futebol mundial.

Das transferências efetuadas, contamos com Abdou Camara, atual jogador do Valenciennes, da 1ª Liga Francesa, Ibrahima Mbay, jogador que já se estreou pela equipe principal da Inter de Milão, Demba Camara, goleiro da Seleção Olímpica do Senegal e que recentemente assinou contrato profissional com o Sochaux, da elite francesa, Luciano Teixeira e João Mário, que transitaram dos Juniores do Benfica para a equipe de reservas e Idrissa Câmara, hoje no CS Visé, da segunda divisão da Bélgica.

O clube está organizado em três categorias: Cadetes (sub-16), Juniores (sub-19) e Seniores e todas as categorias jogam no campeonato nacional do Senegal, sendo o nosso objetivo primordial a realização de torneios na Europa que sirvam de amostra para os nossos jogadores.

Temos uma metodologia transversal a todos os escalões, com pressupostos semelhantes (objetivos de clube, sistema tático e suas dinâmicas, organização estrutural dos treinos, feedback, intensidade sempre máxima em todos os exercícios, alterando-se apenas o tempo de repouso e tipo de solicitações, regras, etc.).

Depois, há adaptações que temos que fazer à realidade social e cultural. Por exemplo, quando um jogador se lesiona, vai ao médico e depois vem recuperar conosco. Não temos psicólogo. Os treinadores têm na metodologia alguns tópicos de intervenção, fruto da formação possível e ajuda de colegas da área. É óbvio que se existirem casos clínicos há maior dificuldade de detecção que pode mesmo levar à exclusão de atletas do clube (atos de violência, comportamentos negativos repetidos em treino/jogo/no relacionamento cotidiano com os outros).

Damos importância redobrada ao caráter e aos valores dos jogadores e trabalhamos isso também nos exercícios, pois sabemos que quando saem para a Europa, representam a nossa academia, que queremos que seja referência na África.

Exigimos dedicação máxima, esforço máximo, respeito pelos colegas, pelas pessoas que com eles trabalham, por todos os intervenientes no jogo. Como está sempre se referindo o professor Manuel Sérgio, o desporto por que nos batemos é “um desporto de extensa e sólida cultura humanista”. É um orgulho para todos nós no clube falarem positivamente sobre o homem que é o Ibrahima Mbay, da Inter de Milão, e a dedicação e o bem-estar que tem no seu trabalho, com os torcedores, colegas e responsáveis do clube. Ou do Abdou Camara, que é um trabalhador incansável com excelente relação com os treinadores e colegas. Ou do Demba Camara e da sua facilidade de trato e do seu excelente sentido de humor. Ou do Luciano e do João Mário e da dedicação deles em todos os treinos/jogos, do fato de colocarem sempre o máximo em cada momento de jogo e a elevadíssima capacidade de trabalho.

Além de estes jogadores terem uma oportunidade para melhorar a sua vida e realizar o seu grande sonho, o nosso grande orgulho e vitória advém da boa integração e felicidade para onde quer que vão e eles já mostraram estar preparados.

 

 

Universidade do FutebolNo futebol português, de modo geral, quais os critérios utilizados e como funciona o processo seletivo para a contratação de treinadores para as categorias de base do clube (ex-jogadores, formação em Educação Física, indicação, etc.)?

Sérgio Raimundo – Quanto ao Benfica, nos sub-19 e sub-15, pode-se verificar que o treinador é Licenciado em Educação Física, o que não acontece com o treinador do sub-17, que também não foi ex-jogador. Pode-se também verificar que há pelo menos um ex-jogador do clube pertencente à estrutura técnica (treinador adjunto).

O Porto conta com treinador e adjunto, ex-jogadores profissionais no escalão de sub-19, nos sub-17 com um Professor Universitário que já foi adjunto da seleção portuguesa, estando também nessa equipe técnica um adjunto ex-jogador do clube que é o treinador principal dos sub-15.

O Sporting sofreu uma reestruturação recente e atualmente conta com treinadores ex-jogadores nos escalões de sub-19 e sub-17, sendo que o treinador dos sub-19 é também licenciado em Educação Física. O treinador dos sub-15 é Licenciado em Educação Física.

Aproveito para falar do caso da Étoile Lusitana, que sendo um clube criado em 2008, ainda não se pode dizer que tenhamos ex-jogadores do clube, pois todos eles ainda jogam, nem que seja em outras equipes. Por causalidade e não por ter sido estritamente definido dessa forma, nas três equipes os treinadores têm formação em Educação Física e o treinador de goleiros foi jogador senegalês.

Acreditamos na qualidade moral das pessoas e na sua capacidade de trabalho antes de fazer distinções – “licenciado” ou “ex-jogador”. Penso que essa é uma falsa questão visto não se poder generalizar que todos os ex-jogadores serão ótimos ou péssimos treinadores ou que todos os licenciados serão ótimos ou péssimos treinadores. Como me lembro de ter visto o Mourinho dizer numa entrevista: “acredito em treinadores que ganham”.

Na minha humilde opinião, um ex-jogador é limitado quando se limita às experiências pelas quais passou e não abre a porta ao novo, quando não se distancia dos “modismos passageiros” e do fazer por fazer sem perceber o porquê.

Um licenciado é limitado quando vem impregnado do determinismo do número de séries, tempo de exercício e pouca sensibilidade ao humano.

É óbvio que sinto que a universidade me abriu a porta da ciência atual, etc., mas o que tem feito a diferença na vida tem sido a curiosidade sincera, a busca de conhecimento, o contato com gênios nas suas áreas (ex-jogadores, jogadores, treinadores, professores, escritores, empresários), gente com caráter enorme disposta a partilhar informação!

Mais uma vez o ditado budista: pensamentos, palavras, ações, hábitos e caráter tornam-se no nosso destino!

Formação de jogadores de futebol: as ações e as consequências

 

Universidade do FutebolQual a sua avaliação sobre o trabalho de José Mourinho? O que ele representa em termos simbólicos para o país?

Sérgio Raimundo – Eu não sou ninguém para avaliar o seu trabalho, os títulos falam por si. Goste-se dele ou não, chegou ao topo em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha, tendo sido o primeiro treinador a vencer estes três últimos campeonatos, considerados os melhores da Europa.

No caso recente do Real, venceu num campeonato (competição de regularidade) um impressionante Barcelona, chegando à fabulosa marca de 100 pontos, com 121 gols marcados. São números impressionantes.

José Mourinho bate recorde atrás de recorde em todo o lugar onde vai. Há quantos anos o Chelsea não ganhava um campeonato? Há quantos anos a Inter não ganhava a Champions? E ainda assim há e haverá sempre quem tenda a criticá-lo.

Cada um faz e diz o que quer, mas neste caso os números são incontornáveis. É um Special One, um treinador vencedor, e aconselho vivamente a leitura dos livros sobre Mourinho escritos pelo seu biógrafo oficial, o Luís Lourenço. Há histórias fabulosas.

 


Manuel Sérgio, filósofo do futebol

 

Universidade do FutebolO Mourinho defende um modelo de treino integrado, em que não há separação entre o que é físico, técnico, tático e psicológico. O que você pensa a respeito disso? Essa filosofia de trabalho já era aplicada no futebol português por outros treinadores?

Sérgio Raimundo – Eu não posso falar muito objetivamente do trabalho dele porque nunca o vi trabalhar. Independentemente do que faça, resulta, ganha títulos, é um treinador vencedor, por isso o que quer que faça deve estar certo!

Acredito fortemente no princípio de Bolletieri (fundador da famosa academia de tenistas da Flórida) descrito no livro “Bounce” de Matthew Syed: “Cada tentativa, perseguida com paixão, produz uma sequência de sucesso, independentemente do resultado. Porque não tem a ver com ganhar ou perder – mas sim com o esforço investido para se produzir o resultado. O melhor modo de predizer o futuro é criá-lo – assim, acreditamos que temos os melhores métodos de treino para ajudar cada atleta a alcançar os seus sonhos e objetivos e, em última análise, a alcançar o seu nível de capacidades na arena do desporto e da vida.”

Veja que esta frase pressupõe antes de mais uma forte mentalidade de trabalho, de entrega, de dedicação; então, a mentalidade precede tudo o resto, é nisto que acredito.

Mais concretamente, posso dar exemplos em relação aos tipos de trabalho que se podem facilmente observar no futebol, não querendo colocar fronteiras entre eles, visto que se podem mesmo cruzar e/ou complementar segundo a metodologia de quem os aplica. O trabalho mais direcionado para a preparação dita “física”, mas que também é mental/social e tudo o resto, onde a “preparação física” tem enorme preponderância e depois se trabalha a tática na “peladinha”, 11X11.

O trabalho integrado foi aquele que mais vi quando estive no Brasil, no qual se colocava a bola para realizar exercícios mecânicos, mais de nível técnico a que chamavam “fundamentos”, em que dois jogadores, frente a frente, passavam de pé esquerdo, depois de direito, depois de cabeça. Depois passava-se a exercícios de passe e no final realizava-se o 11X11. No meio deste trabalho, havia sempre lugar para um dia de treino sem bola na praia.

O trabalho com preponderância tática, em que tudo se trabalha no campo, em que se trabalham os princípios de jogo intra/inter-setores e corredores, dentro do sistema delimitado, mas com qualidade de decisão aberta/tomada de decisão constante, nos quais os jogos reduzidos ganham preponderância, a intensidade é sempre máxima e só varia o tempo de repouso e os efeitos do treino são medidos também em nível emocional e não apenas condicionados ao lactato/VO2 máx. Com qual concordo mais? Com este último e é assim que trabalhamos na Étoile Lusitana, mas há outros fatores muito influentes no rendimento das equipes.

O que falta nisto tudo? O humano, que não pode estar fora do processo, o conhecer o jogador, saber lidar com ele, saber do que ele precisa e o que tem para nos dar, transformá-lo com uma palavra, criar ligações com o grupo, saber gerir o grupo, aprender a gerir o grupo, otimizar o grupo, “a crença gera biologia”.

Se outros treinadores já trabalhavam assim? Penso que sim, mas não tenho como confirmar. Pergunte ao professor Manuel Sérgio que ele sabe, acompanhou muitos treinadores ao longo da sua vida e foi dirigente durante 28 anos, mas tem que haver gente trabalhando com qualidade. Há uns melhores numas coisas e outros noutras, agora Mourinho é o português mais bem sucedido, na minha opinião pessoal, por ter ganho tantos títulos em países com enorme expressão no futebol mundial. Independentemente do fator sorte que algumas pessoas gostam de acrescentar à sua personagem, isso tem que querer dizer alguma coisa.

Em relação a Mourinho, lembro-me de um ex-jogador profissional falar sobre os treinadores que teve, e dizia que, para ele, Mourinho tinha sido o melhor líder, uma pessoa muito perspicaz, capaz de saber exatamente o que um jogador pensa e precisa ouvir em determinado momento, mas também referiu Scolari como o melhor motivador que já teve, e outros como melhores no trabalho tático.

Obviamente que isto é variável consoante a cada um, mas para este jogador, o que distinguiu Mourinho dos outros foi a sua liderança. Para mim, Mourinho tem ainda mais mérito por ter feito um corte com o que era tradicional – as pré-temporadas sem bola e fora dos campos de futebol.

Não sei se foi o primeiro, ou o segundo, ou em que lugar o fez, mas parabéns pela sua coragem de realizar “o novo”! Mas este novo também só tem sentido porque ele felizmente teve bons resultados para sustentar as suas ações, e não é imitável!

José Mourinho: um treinador pós-moderno

 

 

Universidade do FutebolO professor Manuel Sérgio diz que Mourinho tem como diferencial o apoio de seu trabalho nas ciências humanas. Mesmo com o sucesso dele, porém, ainda são poucos os treinadores que usam esse modelo de trabalho como referência. O que falta para esse modelo ser mais aceito e o pensamento acadêmico ganhar mais espaço no meio esportivo?

Sérgio Raimundo – A minha opinião espelha-se nesta frase que o professor Manuel Sérgio escreveu no livro “Filosofia do Futebol” citando Edgar Morin: “Existe a inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os nosso saberes separados, partidos, compartimentados entre disciplinas e por outro lado as realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, globais, planetários. Nesta situação, tornam-se invisíveis: os grandes complexos, as interacções e retroacções entre as partes e o todo, as entidades multidimensionais, os problemas essenciais”.

Nesta dita inadequação encontra-se também o pensamento acadêmico e essa é a grande questão: o que se aprende e se transporta da universidade para o campo atualmente? Quantas pessoas falam em abordagens multidimensionais? E dessas, quantas realmente aplicam? Será que não falam mais nos lactatos, limiares aeróbios e anaeróbios, tipo de treino de força, endurance, etc.? É isso que é quantificável? Se não for isso, tem-se medo de perder espaço de intervenção no futebol; mas como diz o grande mestre Manuel Sérgio, “o psiquiatra quando fala com os doentes também está a fazer ciência e no entanto está apenas a conversar”.

Neste momento não penso que seja o pensamento acadêmico que esteja ganhando espaço, nem que deva obrigatoriamente ganhar espaço enquanto não reformular a compartimentação a que se assiste no saber científico/universitário. Penso que as pessoas que estão a triunfar com os seus métodos são pessoas que, através de várias influências na vida, conseguiram perceber o real sentido do saber científico e o tornaram transversal à realidade da vida cotidiana. Ou pessoas que nunca tendo tido contato aprofundado com as universidades, perceberam a importância de saber mais, das relações humanas, etc.
 

 

Carta aberta ao Doutor José Mourinho

 

 

Universidade do Futebol Você enxerga uma falha na detecção de talentos locais por parte dos clubes europeus? E o que extrai do pensamento de Manuel Sérgio, em que “a identificação e desenvolvimento de talentos, actualmente não é mais do que um espelho da nossa sociedade, da nossa cultura, do contexto ‘hipercientificado’ e ‘hipermercantilizado’” ?

Sérgio Raimundo – Williams e Hodges referiram que é mais fácil avaliar a efetividade dos programas de condicionamento da aptidão física, alterações nas capacidades aeróbia e anaeróbia e características antropométricas como a composição corporal e o peso, do que intervenções ao nível comportamental. Se algo estiver falhando, penso que seja por aí, pela supremacia do quantitativo sobre o qualitativo.

Em relação à frase, ela refere-se às imposições da sociedade de consumo, do “homem-máquina”, do determinismo em que queremos viver sendo que depois acontecimentos como, por exemplo, a catástrofe econômica de 1929, apelidada de “Black Tuesday” ou “Wall Street Crash”, aparecem sem pedir licença, quando tudo parecia matematicamente controlado.

Luís Lourenço, biógrafo do treinador José Mourinho

 

 

Universidade do FutebolNa sua avaliação, o que é um jogador de futebol inteligente? E de que maneira os jovens podem ser estimulados a exercer o processo de autonomia e tomada de decisão nas atividades de treino e nos jogos oficiais?

Sérgio Raimundo – Faço analogia com o ponto de vista do treinador José Mourinho relatado no livro do seu biógrafo Luís Lourenço “Mourinho – A Descoberta Guiada”: “A velocidade no futebol tem a ver com a análise da situação, de reação ao estímulo e capacidade de identificá-lo. No futebol o que é o estímulo? É a posição no campo, a posição da bola, é o que o adversário vai fazer, é a capacidade de antecipar a ação, é a percepção daquilo que o adversário vai fazer, é a capacidade de perceber que espaço é que o adversário vai ocupar para receber a bola sozinho (.) o homem é um todo complexo no seu contexto.” Faz tanto sentido!

Como podem ser estimulados? Acredito que com o referido trabalho com preponderância tática em que nunca se esquece o humano. Em que tudo se trabalha no campo, em que se trabalham os princípios de jogo intra/inter-setores e corredores, dentro do sistema delimitado, mas com qualidade de decisão aberta/tomada de decisão constante, nos quais os jogos reduzidos ganham preponderância, a intensidade é sempre máxima e só varia o tempo de repouso e os efeitos do treino são medidos também em nível emocional e não a

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