Universidade do Futebol

Guilherme Costa

20/07/2015

Silêncio

O uruguaio Alcides Ghiggia conviveu com o silêncio por exatos 65 anos. Morto na última quinta-feira (16), ele era o último remanescente da partida decisiva da Copa do Mundo de 1950. Foi o autor do gol que deu à equipe celeste a vitória por 2 a 1 sobre o Brasil e calou um Maracanã abarrotado.

Ghiggia é um dos protagonistas do documentário “Dossiê 50: Comício a favor dos náufragos”, lançado em 2013 pelo jornalista Geneton Moraes Neto. A obra é resultado de anos de pesquisa e apuração – as primeiras entrevistas foram feitas em 1986! – e tem momentos memoráveis. Um deles é uma conversa com o algoz brasileiro, realizada em 2013.

“O silêncio causou um impacto muito grande. Eu achava que a torcida brasileira ia encorajar a seleção para que o Brasil pudesse empatar, mas o que a torcida fez foi um silêncio enorme. Somente três pessoas silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu”, narra Ghiggia no documentário.

Na entrevista, o uruguaio revelou que foi proibido pela mulher de ouvir a narração do gol que havia marcado em 1950 e que evitava o assunto quando encontrava brasileiros que haviam disputado aquela partida: “Nós falávamos de tudo, menos de futebol. Por quê? Por uma questão de respeito”.

As palavras de Ghiggia mostram o quanto o silêncio tem sempre o que contar. No primeiro caso, da reação após o gol, foi essa a maior demonstração do quanto aquele lance abalou o público que estava no Maracanã. Num esporte tão dependente de 100% de desempenho em valências diferentes, o abalo emocional provocado por aqueles instantes atônitos é incalculável.

Como Ghiggia mostrou, porém, o silêncio não é apenas uma reação de quem sentiu um duro golpe. Também foi assim que o uruguaio conseguiu demonstrar respeito aos brasileiros, que foram “vítimas” dele em 1950 e tiveram de conviver até o fim da vida com essa frustração.

De uma forma ou de outra, o fato é que o silêncio sempre tem algo a dizer. Em qualquer processo de comunicação – sobretudo em ambientes passionais como o esporte –, entender isso é uma parte nevrálgica no processo de construção.

Aqui cabe um paralelo com o cinema. Nas grandes obras, os silêncios contam partes relevantes da história. Ou então, quando a intenção é provocar silêncio no público que assiste a um filme, também há uma estratégia por trás disso.

A diferença é que o roteiro de uma partida de futebol é construído durante 90 minutos. Existe um altíssimo grau de imprevisibilidade, e as reações ainda são influenciadas pelo aspecto passional do esporte. Por isso, existe uma necessidade maior de preparação prévia. O silêncio pode acontecer em qualquer momento e por diferentes motivos, mas deve sempre haver um planejamento para isso.

Volto a dizer: o esporte é um ambiente que exige um altíssimo grau de eficiência. Numa seara assim, é até impensável admitir que as reações do público não sejam planejadas, direcionadas ou controladas. A relação puramente passional do público é bonita e é tradicional, mas as pessoas que trabalham com comunicação precisam aprender urgentemente a influenciar isso.

Em esportes menos populares, com dinâmica menos passional, isso já acontece com alguma frequência no Brasil. Influência das ligas norte-americanas, o país tem pessoas e dinâmicas preparadas para dar à torcida o clima adequado a cada momento de um jogo. O futebol, no entanto, ignora totalmente o peso que isso pode ter no desempenho técnico.

As pessoas que trabalham com comunicação no futebol precisam urgentemente adotar uma postura mais ativa. Passamos da época de admitir que tudo aconteça de forma orgânica, sem direcionamento algum. Enquanto sonharmos com isso, estaremos sempre sujeitos a diretrizes espúrias. Ou você acha que não existe nenhum interesse por trás de críticas, vaias ou elogios advindos das arquibancadas?

A questão é que o futebol – no Brasil, principalmente – faz pouco para controlar as reações. Nosso modelo de comunicação na modalidade ainda é extremamente reativo, mais focado no controle de crises do que na possibilidade de evitá-las. É assim também com os jogadores, aliás: em vez de orientá-los e controlar o que eles falam, lidamos com a repercussão das polêmicas.

Foi assim com o atacante Fred, que foi extremamente mal educado com um repórter do canal fechado Sportv depois da derrota para o Vasco no último domingo (19). Foi assim também com o meia Paulo Henrique Ganso, que errou em dois momentos (criticou abertamente o zagueiro Lucão no intervalo da partida contra o Atlético-PR e reclamou ao ser substituído pelo técnico Juan Carlos Osorio diante do Coritiba). A lista é grande, mesmo se ficarmos apenas nos exemplos recentes.

Comunicação não é apenas sobre o que você ouve ou percebe. Comunicação também é um trabalho constante para criar assuntos e direcionar alguns comportamentos. Em livros sobre entrevistas, é comum que esse trabalho seja comparado com uma dança. Deve ser assim também a relação com todos os agentes envolvidos em um evento do tamanho de um jogo de futebol profissional.

Enquanto não estivermos prontos para influenciar jogadores, torcedores, dirigentes e todas as outras pessoas que trabalham numa partida, vamos seguir convivendo com silêncios e barulhos desmedidos.

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