Universidade do Futebol

Entrevistas

17/10/2008

Sinésio Capece, psicólogo do esporte

O aspecto psicológico é cada vez mais lembrado dentro dos esportes, inclusive no futebol. Baseado em vários acontecimentos ligados ao lado da estabilidade emocional e de concentração de jogadores e membros da comissão técnica que fizeram com que times perdessem ou ganhassem jogos e campeonatos, a Psicologia do Esporte é cada vez mais um assunto em pauta entre aqueles que procuram entender o futebol com profundidade.

A maioria dos profissionais dessa área defende que os clubes e seleções devem desenvolver um trabalho contínuo nesse aspecto para que os seus atletas estejam constantemente motivados e focados no próximo objetivo a ser alcançado. Palestras ou programas a curto prazo são repudiados pelos psicólogos especializados nos esportes, uma vez que a chance da ação surtir efeito é muito pequena.

“Quando deixamos o mais claro possível quais são os objetivos coletivos, ou seja, aonde o clube quer chegar, e que para chegar lá precisa da força de trabalho de cada um concentrada num único foco, então começamos a traçar um percurso vitorioso. A mágica acontece quando cada indivíduo compreende que, ao atingirmos o objetivo do clube, ou objetivo coletivo, estaremos cumprindo também o objetivo individual, ou seja, cada uma das pessoas envolvidas também estará atingindo suas metas”, disse, em entrevista exclusiva à Cidade do Futebol, Sinésio Capece, graduado pela Universidade Paulista, e que começou seu trabalho junto ao esporte, visando o desenvolvimento emocional de atletas, em 1998, e que já trabalhou em clubes como o Paraná e a Portuguesa Santista, por exemplo.

Além de falar sobre a importância da confluência de objetivos para o sucesso de uma equipe, Capece também explicou questões como a formação de atletas de base, a influência de pais na carreira dos atletas, a importância de encarar-se o jogador como ser humano e não como uma máquina, entre outros temas.

Baseado em suas experiências dentro de clubes e atuando em outros esportes, o entrevistado mostrou os diversos ramos pelos quais a psicologia do esporte pode enveredar e quais as dificuldades do seu estabelecimento no futebol brasileiro.

Cidade do Futebol – Como o psicólogo pode atuar nas categorias de base e times principais para que os atletas saibam como lidar com a saída repentina do anonimato para o estrelato?
Sinésio Capece – Temos sempre que ter em mente que o treino psicológico deve ser um ato contínuo do dia-a-dia dos times de futebol. Assim como todos os dias os atletas treinam domínio de bola, chute a gol, cobranças de pênaltis, aperfeiçoam seu condicionamento físico através dos mais diversos exercícios e treinam taticamente à exaustão, também, o treinamento psicológico deve acontecer mediante um programa pré-estabelecido.

Neste programa devemos considerar diversos fatores a serem trabalhados e, no caso da repentina saída do anonimato, devemos trabalhar dois fatores principais: fama e fortuna. Porque no futebol isto acontece repentinamente mesmo! E se o atleta não vier, ao longo de seu preparo, sendo devidamente orientado para isto, o seu prejuízo será inevitável. Não precisamos exemplificar, conhecemos infinitos atletas que se perderam na fama e fortuna repentinas. O trabalho com o atleta não pode se restringir às quatro linhas, nem tão pouco às quatro competências básicas (treino físico, técnico, tático e emocional) que serão utilizadas dentro dos gramados. Fora delas também acontece uma infinidade de coisas com a vida de alguém que está só no início de seu preparo. Portanto, é preciso que profissionais competentes venham ao encontro destes atletas, para ajudá-los a compreender o que terão pela frente. Profissionais tais como da área do marketing e da economia poderão ter grande valia nestes temas. Voltando ao que o psicólogo pode fazer, deve sim, preparar o atleta para trabalhar na sua “potência plena”, ou seja, entender que independente de seu momento ou estado, ele deve saber que “pode” determinadas coisas e outras ele “não pode”. Caso não dê ouvido para este tipo de advertência, certamente entrará num estado de onipotência (posso tudo) e, como isto não é real, logo descobrirá da forma mais difícil, pois à primeira negativa da vida, tombará para a impotência (então não posso nada). Estes são estados antagônicos, no entanto, muito nocivo à sua carreira profissional.

Cidade do Futebol – O estabelecimento de metas por parte de pais e/ ou treinadores é favorável ou não aos jovens que estão iniciando no futebol? Isso deixa o atleta mais focado ou pode fazê-lo desistir precocemente?
S
inésio Capece – Estabelecer metas é importante na vida de qualquer ser humano, em qualquer área de atuação. No entanto, como estamos falando de metas estabelecidas por uns para outros cumprirem, podemos encontrar uma armadilha perigosa. É muito comum os pais decidirem como é que os filhos vão realizar os seus sonhos. Sonhos dele, pai, bem entendido! O problema é que o pai esquece de ver com o filho se o sonho dele, pai, é partilhado por ele, filho. Num primeiro momento pode parecer que sim, pelo simples fato de que o filho ainda não sabe e não tem poder para se impor às vontades do pai. Além disso, o filho quer fazer o que o pai deseja, não porque ele também o quer, mas porque desta forma, imagina ele, o pai o amará.

Ainda hoje somos capazes de encontrar diversos médicos e advogados que são infelizes em suas profissões, porque seguiram os desejos de seus familiares.

Pais e treinadores precisam ficar atentos e fazerem os seus exames de consciência o tempo todo, para verificarem se não estão jogando “uma enorme batata quente” nas mãos de seus filhos e treinandos. Você já pegou uma batata quente na mão?

O atleta, com estas metas estabelecidas, vai ficar mais focado sim, por um simples motivo: qualquer um faz bem, e dá o seu melhor desempenho, ao atuar naquilo que gosta, que ama fazer. Então, se as metas colocadas vão realmente de encontro com o que o atleta quer realmente, está tudo certo, mas se for uma “batata quente”, então o risco de desistência torna-se grande, afinal, quem quer queimar a mão e continuar se queimando? Jogamos a batata longe, não é assim?

Cidade do Futebol – Qual é a relevância do psicólogo na formação de um atleta como homem, e não só como uma máquina de quebrar recordes?
Sinésio Capece – Esta é uma questão fundamental! Sempre digo que precisamos ter algo sempre em mente: muito antes de estarmos tratando um atleta, devemos ter muito claro que estamos falando de um “ser humano” e é desta forma que ele deve ser tratado.

Em meus trabalhos com categorias de base, sempre tive o pensamento que, ao preparar um jovem para ser um atleta, corria o perigo que este jovem não viesse a se tornar um atleta, pois ele poderia mudar o percurso de sua vida, mudar seu destino, mudar suas metas. No entanto, eu tinha a clara certeza de que eu estava preparando uma pessoa para a vida! Eu sempre soube que “ele poderia não se tornar um atleta, mas se tornaria um melhor homem para a sociedade”.

Este é um desprendimento que nós devemos ter ao trabalharmos neste ramo. Às vezes, o investimento é grande e não queremos perdê-lo , mas o fato é que, na condição de “ser humano”, o jovem pode vislumbrar outras coisas que entende mais interessantes. E não existe uma “máquina de quebrar recordes” se assim este “ser humano” não o desejar. Então, que ele seja alguém que, naquilo que escolher para seguir, seja um exemplo, seja um referencial, seja um homem de verdade.

Cidade do Futebol – Com as leis que facilitam a transferência de jogadores, as elevadas quantias dos contratos e direitos de imagem, ainda é possível acreditar-se na idéia de que um atleta atue por amor à camisa? Como os psicólogos podem atuar sobre essa questão dentro dos clubes e seleções?Sinésio Capece – Entendo que amor à camisa não faz mais parte do nosso presente. Isto é coisa do passado, que deve ser visto com nostalgia. O futebol está profissionalizado e assim deve ser visto. No entanto, as administrações dos clubes ainda são amadoras, o que é prejudicial ao próprio esporte. Quem trabalha com o esporte, seja ele qual for, deve fazê-lo com profissionalismo antes de qualquer coisa e, lógico, deve receber para isto, em troca de seus préstimos profissionais. O coração deve ser colocado num outro plano.

É preciso entender que o amor, a paixão, deve ficar nas arquibancadas, junto com os torcedores. Sempre deixando claro que esta paixão deve ser aplicada de forma positiva, e não para atuações violentas como temos assistido ultimamente, em nome desta paixão.

Para os profissionais, especificamente para o trabalho com os atletas, trabalhar a questão do “amor” deve ser vinculada ao amor por sua profissão, pois quando você exerce a profissão que você ama, você executa muito melhor aquilo a que se propõe. E isto não tem relação com o amor pelo clube ou pelas cores desta ou daquela camisa.

Cidade do Futebol – Muitos atletas sofrem lesões graves e, mesmo assim, após alguns meses, voltam a jogar muito bem, como aconteceu quando da primeira lesão do jogador Ronaldo. No entanto, às vezes, as lesões determinam o fim da carreira do atleta. Qual é a parcela da Psicologia nessas recuperações? Quais métodos são usados nesse sentido? Como a Psicologia pode ajudar o atleta em caso de um encerramento precoce da carreira devido a uma lesão?
Sinésio Capece – Ao atleta lesionado, é importante que não perca tempo. Ao mesmo tempo em que deve seguir todas as prescrições médicas, de tratamento e de fisioterapia, deve-se abster de qualquer tipo de orgulho e buscar por um profissional da psicologia do esporte para acompanhá-lo. O atleta lesionado tem diante de si um problema mais pesado do que ele imagina e será sempre bom dividir o peso desse problema com alguém tecnicamente preparado para ajudá-lo. Esse alguém é o psicólogo. Ao observar esse tipo de procedimento, não é incomum que o tempo de tratamento e recuperação acabe sendo reduzido consideravelmente. Uma mente colaboradora proporciona subsídios para que o corpo se recupere com maior velocidade.

No caso do Ronaldo “fenômeno”, eu mesmo, ao analisar a gravidade daquela lesão, desacreditei da sua capacidade de recuperação e precisei rever minha opinião. Não tenho conhecimento concreto dos seus processos de recuperação, mas posso afirmar que ele teve uma disposição mental muito especial para que a recuperação acontecesse de forma tão fantástica.

Hoje não acredito mais que alguém não seja capaz de recuperar-se, a não ser que ele diga para ele mesmo que não tem jeito, que está tudo acabado. Para este, que interrompeu a carreira devido a uma lesão, a psicologia deverá estar em sua companhia muito de perto, uma vez que, como visto acima, seu estado mental está uma tanto quanto negativista, para não dizer que talvez esteja vivendo já um quadro depressivo, que sempre espira cuidados.

Cidade do Futebol – O assédio da imprensa e de clubes estrangeiros pode ser um fator que influencie psicologicamente os jogadores brasileiros no dia-a-dia? Como se deve trabalhar para que esse aspecto seja minimizado e não prejudique a perfomance?
Sinésio Capece – Certamente influencia! E não adianta os atletas negarem isto à própria imprensa, pois o fato é real.

Podemos verificar que aqueles que melhor conseguem relacionar-se com a imprensa e não serem prejudicados em sua performance são os que possuem alguma escolaridade, alguma cultura, ou seja, já possuem um “algo a dizer”, já possuem uma estrutura psíquica bem formada e estruturada em suas personalidades. Portanto, os atletas que desejarem não sentir tanto o assédio da imprensa devem procurar por educação e cultura, para o seu crescimento enquanto indivíduo.

Já o assédio de clubes estrangeiros, entendo que a questão queira tratar das negociações, dos valores e da iminência do atleta ser transferido para o estrangeiro. Infelizmente, a forma como esta procura e esta abordagem é feita na atualidade é errada e, em muitos casos, sem ética. Uma vez sendo desta forma, o atleta fica completamente vulnerável a todo tipo de acontecimento e informações nem sempre verdadeiras ou fidedignas. Assim, fica impossível que o atleta se concentre na sua atividade, o que vai gerar uma queda inevitável em seu rendimento.

Imagine você, que recebe a notícia que amanhã alguém vai te ligar e oferecer para você mudar de emprego, que a oferta será algo que definitivamente resolverá seus problemas de finanças. Como você vai dormir esta noite? Como será seu dia de trabalho na expectativa da tal ligação? Como será seu final de dia ao se dar conta que a ligação não ocorreu? E como será a seqüência da sua semana?

Dirigentes de clubes, bem como os chamados empresários precisam estar mais sensibilizados para estas questões e tratar o assunto de forma mais profissional do que vem acontecendo na atualidade. Uma mudança de paradigma se faz necessário, pois por mais conhecimento pessoal que o atleta possua, por mais preparado que ele esteja, trata-se de um tema que gera ansiedade, perda de concentração e queda de rendimento.

Cidade do Futebol – A motivação e a manutenção do foco dos atletas em um país como o Brasil, que é um dos centros do futebol mundial, são dois conceitos complexos e de difícil abordagem nos clubes nacionais. Como os psicólogos podem tratar desses pontos com os jogadores e com a comissão técnica?
Sinésio Capece – Gosto muito do tema “Objetivo”. Sonhos transformam-se em desejos que, planejados, viram objetivos. Uma equipe de futebol é formada por um número enorme de pessoas, cada qual com seus próprios objetivos, além de uma instituição (clube) que também possui os seus. A maestria está em transformar tudo isto num foco só de energia, efetivamente direcionado para um ponto comum! Assim descrevo em meu livro “Psicologia dos esportes – do fundamento ai rendimento”, a necessidade de valorizarmos os “objetivos individuais” e os “objetivos coletivos”. Se valorizarmos a concentração inicial nos objetivos individuais, teremos cada uma destas inúmeras pessoas seguindo para uma direção diferente e não teremos o foco para atingirmos nada. Mas quando deixamos o mais claro possível quais são os objetivos coletivos, ou seja, aonde o clube quer chegar, e que para chegar lá precisa da força de trabalho de cada um concentrada num único foco, então começamos a traçar um percurso vitorioso. A mágica acontece quando cada indivíduo compreende que, ao atingirmos o objetivo do clube, ou objetivo coletivo, estaremos cumprindo também o objetivo individual, ou seja, cada uma das pessoas envolvidas também estará atingindo suas metas.

Como exemplo, para eu cumprir o meu objetivo de ser reconhecido como um competente psicólogo dos esportes, preciso ter atletas interessados em escutar o que tenho a dizer, ou seja, colocando-nos de maneira coletiva, estaremos ambos cumprindo nossos objetivos individuais e, quando o clube atingir seus objetivos, por exemplo, ser campeão estadual, nossos objetivos individuais, do psicólogo e dos atletas, bem como de toda a coletividade, estarão cumpridos.

Cidade do Futebol – A Psicologia já deu provas que é uma área importante dentro do futebol. Contudo, os profissionais desse ramo são, geralmente, requisitados como a última opção para um time em crise. Como você enxerga o tratamento que é dado à Psicologia e ao seu profissional no futebol?
Sinésio Capece – Seria o mesmo que chamar um personal trainer para trabalhar o condicionamento físico de alguém que acabou de infartar! Provavelmente esta pessoa já havia recebido algumas indicações de profissionais sérios para que iniciasse suas atividades físicas para prevenir-se de surpresas… E ele não deu atenção às recomendações.

Concluindo, o profissional não vai fazer milagres! Ele poderá prestar alguma ajuda, pode fazer efetivamente um “pronto-socorro”, mas não é isto que vai salvar o time da crise. O perigo do profissional da psicologia aceitar esta condição pode ser o já visto inúmeras vezes, quando toda a carga recai sobre tal profissional e os verdadeiros responsáveis saem ilesos. No entanto, cabe ao profissional avaliar se deseja ou não correr tal risco.

Já o tratamento dado por parte de diretoria e muitas vezes da comissão técnica para estes casos, pode e deve ser repensada, para que eles tenham ao seu lado um profissional nesta área, pois certamente terão um grande avanço trabalhando lado a lado.

Isto é uma questão de tempo, assim como já aconteceu com o preparador físico, com o preparador de goleiros, profissionais que estavam à margem e hoje estão colocados em todos os clubes. O fato é que, quanto mais rápido o clube e a comissão técnica se certificarem disto, maiores vantagens terão sobre seus adversários.

Cidade do Futebol – Como o técnico pode contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento do trabalho do psicólogo do esporte nas equipes de futebol?
S
inésio Capece – O técnico, obviamente, é o carro-chefe, o comandante de toda a comissão técnica. É fundamental que este profissional tenha uma forma de pensar multidisciplinar, com uma abertura para novas idéias, novos pensamentos, novos profissionais, logicamente, sempre com seu senso crítico muito bem apurado.

Para o melhor aproveitamento deste profissional da psicologia, além da abertura de toda a comissão técnica e sua perfeita integração com ela, o psicólogo deverá ficar atento à linguagem utilizada pelo treinador, pois deverá dirigir-se aos atletas na mesma linguagem, para que se crie unidade no que ambos estiverem falando. Isto é fundamental, pois a ferramenta básica do psicólogo, devemos lembrar, é a palavra.

Cidade do Futebol – Qual é a diferença que existe entre a psicologia do esporte e a psicologia clínica?
Sinésio Capece – Esta é uma importante questão, que me fez verificar o quanto meu pensamento já evoluiu deste que iniciei minhas atividades com a Psicologia do Esporte, em 1998. Antigamente eu entendia que o profissional mais próximo da psicologia do esporte seria o psicólogo clínico. De fato, o clínico traz em sua bagagem uma capacidade de escuta e elaboração muito afinados, o que será de grande ajuda em equipes esportivas. 

No entanto, hoje entendo que o psicólogo dos esportes deve agregar o conhecimento clínico sim, mas é mais preparado aquele que já vem com uma forma de trabalho multifacetada. Aquele profissional da clínica que ainda está muito rígido numa única linha teórica não está tão preparado para exercer a psicologia esportiva. Além disso, vejo que o psicólogo de conhecimento organizacional pode contribuir com seu raciocínio lógico e sendo de administração, organização e razão.

Agregado a isso tudo, o psicólogo dos esportes precisa conhecer a linguagem do esporte a que se propõe, lembrando que cada esporte tem a sua linguagem específica e característica.

Se somarmos ainda, a possibilidade deste profissional amar este esporte, então teremos um profissional completo para ser um ótimo psicólogo dos esportes.

Cidade do Futebol – Como questões que permeiam a vida de atletas de alto rendimento, como o doping e a o fair play são trabalhadas pelos psicólogos dos clubes?
Sinésio Capece –A minha visão é sempre de longo prazo, ou seja, na minha análise, entendo que “ser atleta é um estilo de vida”. Sendo assim, existem coisas que fazem parte da vida de um atleta e outras que não. O indivíduo tem que decidir, em algum momento de sua vida, se ele quer para si aquele estilo de vida ou se vai fazer qualquer outra coisa. O que não dá é para ficar no meio termo.

Certamente, quem se utiliza de doping ou não observam o fair play não estão entre aqueles que eu chamo de “atletas”. Eles podem até levar vantagens em muitos casos, como conhecemos, mas para mim estão à margem.

Trabalhar com estes temas acaba sendo, muitas vezes, infrutífero, pois está havendo uma vantagem que muitos não querem abrir mão.

Cidade do Futebol – Você desenvolve a psicoterapia, que é um tratamento qualificado a partir de técnicas psicológicas para ajudar as pessoas a resolverem seus problemas na sua vida pessoal, afetiva e profissional. Isso pode ser levado pra dentro de um clube, tratando particularmente um atleta em questão?
Sinésio Capece –Sim, mas não como foco principal. A psicologia e suas psicoterapias são muito estigmatizadas por serem considerados “tratamentos de doenças”, apesar disto não ser totalmente verdadeiro, nem mesmo dentro dos consultórios.

Ao contrário, o psicólogo no cenário esportivo deve trabalhar para potencializar as virtudes de atletas, comissão técnica e demais envolvidos. O trabalho e o foco são diferentes!

Enquanto o trabalho principal está acontecendo, é evidente que podem aparecer os problemas de ordem pessoal e afetiva que devem ser considerados com total respeito. Após uma primeira análise, verifica-se até mesmo a necessidade do tratamento particular do atleta, mas na minha concepção, deve ocorrer nestes casos a indicação para profissional qualificado, fora do ambiente esportivo e garantido todo o sigilo e respeito ao atleta.

Cidade do Futebol – Psicologia dos esportes – do fundamento ao rendimento” é o nome de seu mais recente livro lançado. Como se dá a atuação da psicologia do esporte no meio termo entre esses dois pólos, fundamento e rendimento?
S
inésio Capece –No meu livro, faço uma breve explanação de todo o caminho que um indivíduo precisa percorrer, desde o dia em que, decide seguir a vida esportiva enquanto seu meio de subsistência. Além disso, dou dicas de comportamento, de educação, de cultura, de envolvimento com outros profissionais, enfim, uma infinidade de temas que poderão ajudar o atleta, no seu vasto percurso, a ser não só “o melhor atleta”, mas um melhor indivíduo, um melhor amigo, um melhor filho, um melhor marido, um melhor pai, resumindo um “homem melhor”!

Na obra, ainda deixo claro que este é apenas um primeiro ensaio para citar alguns temas e assuntos, alguns mais aprofundados, outros mais superficialmente. Fica, no entanto, o convite para que outros profissionais busquem fazer suas literaturas, aprofundando temas que lhes sejam pertinentes, sempre na busca da melhor formação do esportista.

Cidade do Futebol – Quais as diferenças de procedimento de trabalho ao ser chamado para ter uma conversa “emergencial” em um clube, com um grupo de atletas, e ao realizar um plano de ação em longo prazo, desde o início da temporada, por exemplo?
Sinésio Capece –A diferença é radical! No primeiro caso, o fato é emergencial, ou seja, vamos buscar apagar um incêndio ou, por um outro lado, vamos buscar uma motivação momentânea que vai servir para determinado momento, muito específico. Mas é preciso entender que isto é precário, não duradouro. Pode funcionar maravilhosamente bem ou simplesmente não ter efeito algum.

Já no segundo caso, um plano de ação é montado em conjunto com as necessidades do clube e da comissão técnica para que os objetivos de todos possam ser cumpridos ao final. As chances de sucesso são bem maiores, uma vez que existe a possibilidade das correções de rumo ao longo do percurso, bem como os conhecimentos vão ficando muito bem sedimentados em cada participante desta equipe.

Cidade do Futebol – Em uma fase aguda do campeonato Brasileiro como a atual, e nas situações difíceis que algumas equipes se encontram na tabela, próximas a zona de rebaixamento,, a psicologia tem um papel mais motivacional ou é possível desenvolver um trabalho mais científico com a equipe? Na sua visão, esse trabalho mais motivacional tem que ser realizado pelo técnico, por um psicólogo ou pela comissão técnica como um todo
Sinésio Capece –Lembremos que em um campeonato de 38 rodadas, faltando apenas 8, é o momento em que o fator emocional começa a tomar uma proporção maior na divisão das competências (física, técnica, tática e emocional).

Pesquisas na Europa já demonstram que cerca de 70% das decisões acabam sendo a favor daquelas equipes com a competência emocional melhor preparada.

No caso do nosso campeonato, o melhor preparo emocional pode ser exatamente o que vai decidir quem cai para a série B, quem fica, aquele que se classifica para a Sul-americada, para a Libertadores e, finalmente, o campeão. Numa rápida análise, verificamos uma proximidade muito grande com relação à pontuação em todas as camadas da tabela, o que nos leva a concluir por equipes equivalentes nas competências física, técnica e tática. Quando isto ocorre, quem decide é o emocional!

Respondendo à questão efetivamente, o clube que porventura esteja realizando um trabalho planejado com o envolvimento do psicólogo do esporte, certamente terá atletas mais preparados para os momentos decisivos. Quem não os tem, precisa utilizar algumas ferramentas, que podem mesmo ser as palestras motivacionais, as conversas mais incisivas daqueles técnicos que efetivamente possuem o “dom da palavra”, o respeito dos atletas, que são também um pouco psicólogos! No entanto, fica aqui a proposta para pensarem neste profissional para a próxima temporada, pois pode fazer a grande diferença!

Cidade do Futebol – Você já trabalhou com atletas de diversas modalidades como o futsal, o kart e o tênis, por exemplo. Quais são as diferenças no trabalho com esses profissionais?
Sinésio Capece –Prefiro falar das semelhanças: em todas as modalidades encontrei técnicos muito inteligentes e abertos para uma interação com o profissional da psicologia esportiva, onde houve uma grande troca de conhecimentos.

Em todos os casos tive a felicidade de aplicar a minha forma de trabalho e conhecimento, tratando o atleta, antes mesmo de “ser atleta”, como um “ser humano” e isto faz a grande diferença em qualquer relacionamento.

No que se refere às diferenças, algumas facilidades e dificuldades que são inerentes a cada esporte. Por exemplo, ao trabalhar com o kartista, tive que lidar com muitas frustrações, minhas, do piloto e da equipe, a cada vez que, após uma semana de trabalho perfeita, durante a corrida, o motor do carro quebra e o piloto abandona a prova. Isto é uma ducha de água fria em todos!

Cidade do Futebol – Quais são as facilidades e as dificuldades de lidar com jovens em formação?
Sinésio Capece –As facilidades são imensas. São jovens, o que é sinônimo de muito sonho, esperan

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