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14/08/2019

Sobre as dúvidas dos laterais no momento defensivo

Algumas indecisões de Danny Rose em Tottenham v Aston Villa
Danny Rose, lateral do Tottenham: indecisões na defesa contra o Aston Villa. (Foto: Reprodução/The42.com)

 

Nos últimos tempos, muito se falou e muito se escreveu sobre a noção de complexidade no futebol – inclusive através desta mesma Universidade do Futebol. Em linhas gerais, quando falamos de complexidade, falamos das relações inseparáveis entre as partes e o todo, em um dado organismo ou sistema. Isto já está suficientemente apresentado e, por ora, não gostaria de me alongar.

Mas faço essa introdução porque quando falamos da defesa, falamos de um destes momentos do jogo (ao lado do ataque, das transições, das bolas paradas), mas falamos deles sabendo que um momento do jogo não existe alheio aos outros – eles são inseparáveis. É um pouco do que gostaria de falar neste texto.

Vamos tomar como exemplo duas jogadas específicas de Tottenham v Aston Villa, que jogaram neste fim de semana pela Premier League, especialmente a partir do comportamento de um dos laterais, Danny Rose, no momento defensivo.

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Em primeiro lugar, vamos olhar para o contexto: neste jogo, o Tottenham estava disposto em um 4-3-2-1 (aliás, me agradam essas formações não usuais, que fogem do 4-3-3 ou do 4-2-3-1). Harry Winks, Tanguy Ndombele e Moussa Sissoko nesta linha de três, Lucas Moura e Erik Lamela mais adiante e Harry Kane como centroavante. O Aston Villa, que talvez esperasse mais defender do que atacar, passou boa parte do jogo em algo próximo de um 4-5-1.

Quando se defendia, o Tottenham mantinha a organização em 4-3-2-1 – já fez isso diversas vezes, não é uma surpresa. Mas neste jogo, em específico, Danny Rose, lateral-esquerdo, demonstrou alguma dificuldade para organizar seu espaço no setor, permitindo ao menos duas claras situações de gol no primeiro tempo. Uma delas foi convertida, em gol marcado por Tom McGill, logo aos 9 minutos do primeiro tempo. É sobre essas duas situações que gostaria de falar.

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O lance do primeiro gol do Aston Villa começa em um tiro de meta, batido curto pelo goleiro Tom Heaton. A bola passa por um dos zagueiros (Mings, um dos melhores em campo) e o lateral-esquerdo Neil Taylor, até chegar ao meia Jack Grealish. Você pode ver o lance aqui, a partir dos 1:29. O Tottenham tenta pressionar a saída de bola do adversário, e sobe a equipe quase inteira no campo de ataque.

Num movimento aparentemente treinado, Mings recebe a bola de volta e já mira o espaço às costas do centroavante brasileiro Wesley, que segurava o quarto zagueiro Davinson Sánchez. Mas quem aproveitou o espaço não foi o ponta oposto, que poderia entrar em diagonal, mas sim McGill, o meia pela direita, que infiltra exatamente no espaço que supostamente estaria coberto por Rose. Repare, na imagem abaixo, a distância de Rose para Sánchez no instante do lançamento.

Fonte: Reprodução Watch ESPN.

 

Neste caso, temos um exemplo de problema que os laterais podem encontrar – não apenas em um 4-3-2-1, mas em qualquer linha de quatro. Há duas questões importantes aqui: a primeira é a baixa pressão no portador da bola, especialmente em uma zona já tão apertada do campo (repare no vídeo como Mings se desmarca às costas de Lucas, sem que o brasileiro perceba). Mings teve o tempo exato para dominar, avançar alguns metros, olhar o espaço, fazer o lançamento. Depois, podemos discutir a posição de Rose, cuja distância razoável para Sánchez poderia ser justificada pela preocupação com o ponta adversário, mas ao mesmo tempo deixou suficientemente aberto um espaço potencialmente mais perigoso naquela situação, bem ao centro – exatamente por onde entrou McGill. Se Rose estivesse alguns metros mais centralizado, talvez a jogada sequer avançasse.

Não custa lembrar que esta tomada de decisão, dentro do campo, está longe de ser simples.

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No segundo lance, que você pode ver no mesmo vídeo a partir dos 3:16, Rose toma outra decisão discutível, que gostaria de trazer com mais atenção. A jogada começa com uma falta pela direita, em que o Tottenham se prepara para uma cobrança longa – mas na verdade a batida é curta. Repare que o mesmo McGill, agora em posse da bola, tem tempo e espaço para pensar o jogo de frente e encontra um exímio passe em profundidade para o ponta Trezeguet, que tenta finalizar, mas é travado por Sanchez. Assim que Trezeguet recebe a bola, vemos um jogador levantando o braço, pedindo impedimento – é Rose.

Na imagem aberta, que deixo mais abaixo, repare que é exatamente Rose quem está mais afastado da linha. E vejo duas coisas a se pensar aqui: uma é contextual. Houve uma falta naquele setor, ele estava mais próximo do setor, e percebeu que o lateral Ahmed Elmohamady poderia receber com alguma liberdade por ali. Mas existe outra coisa, mais próxima do modelo: será que o treinador Mauricio Pochettino, nestas situações, prefere priorizar a redução dos espaços centrais ou laterais? Imagino que sejam os centrais, o que me faz crer que houve dois erros, no mínimo: é bem verdade que Rose poderia ter se atentado ao meio tão logo a bola foi recuada, ma também é verdade que Ndombele e Erik Lamela (de chuteiras amarelas na imagem), poderiam ter sido mais ativos, talvez interceptando o passe, evitando que a bola lhes ultrapassasse rumo à grande área. Em certa medida, repare que é um tecido, uma cadeia de equívocos.

Fonte: Reprodução Watch ESPN.

 

Se voltarmos ao início do texto, encontramos algo que não pode passar batido: o Tottenham jogava em 4-3-2-1, e mantinha a estrutura quando se defendia. Isso quer dizer que, ao contrário de um 4-3-3 – ou qualquer uma das variações defensivas com duas linhas de quatro – os laterais deste sistema não contam, sistematicamente, com o apoio defensivo dos pontas. Ou seja, para defender os lados (especialmente para cuidar do lateral adversário) é preciso contar com o suporte dos volantes dessa linha de três (no caso do Tottenham, Sissoko e Ndombele). Mesmo assim, exatamente como ocorreu nos dois lances, especialmente no segundo, é possível que o lateral fique em dúvida sobre a decisão a ser tomada: cuidar mais do espaço interior ou evitar que o jogador aberto receba com mais tempo? Como bem sabemos, é claro que esses parâmetros são definidos com antecedência, existe um modelo desenhado pelo treinador. Mas mesmo assim, frente aos problemas do jogo, nós hesitamos. Por isso, dentre outros fatores, é tão importante pensar em metodologias de treinamento baseadas no jogo e, além disso, pensar em maneiras de humanizar as relações treinador/atletas.

As dúvidas de Rose, nos lances que citei, como as dúvidas de qualquer outro jogador e de todos nós, se justificam em demasia pela nossa humanidade.

 

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