Universidade do Futebol

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28/08/2019

Sobre a educação de treinadores

E um pouco da vida vivida nas nossas ideias de futebol
Bobby Robson: a educação do treinador não se separa do mundo da vida. (Foto: Reprodução/Barlavento)

 

Por mais de uma vez, nós conversamos aqui sobre a educação de treinadores. Quando penso na educação de treinadores, penso em algumas características, em coisas que vêm à minha cabeça (portanto, ao meu corpo) que gostaria de compartilhar com vocês antes de avançarmos: I) a educação de treinadores está baseada em saberes da modalidade, mas também em saberes da vida vivida, transferidos para a modalidade; II) sendo humana, a educação de treinadores não termina em momento algum, ou seja: enquanto somos humanos, somos educados; III) a educação de treinadores não é apenas racional, não acontece apenas na cabeça; ela é humana, de corpo inteiro.

Neste texto, gostaria de trabalhar um pouco essas coisas. Tenho algumas inquietações nos três casos. Vou compartilhá-las aos poucos.

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Como os mais chegados sabem, passei um bom tempo da minha vida dando aulas em um cursinho pré-vestibular popular, voltado para a comunidade de baixa renda. Fiz isso conscientemente, uma das partes da minha educação como treinador. Por quê? Porque, ao meu ver, o futebol está em todos os lugares – quando não conseguimos vê-lo, é responsabilidade mais nossa do que das coisas. Muitas das qualidades que nos são requeridas como treinadores, tais como respeito, carisma, didática, perspicácia, eloquência, enfim… todas elas são igualmente requeridas em sala de aula – ainda que, é claro, cada profissão guarde as suas peculiaridades. Em linhas gerais, tento me lembrar de que o futebol, antes de ser feito por atletas, é feito por pessoas. Pessoas estão em todos os lugares. Só não sei se estamos cientes do que isso tudo realmente significa.

Digo isso porque acho claro que este seja um dos grandes dramas da educação de treinadores. Se quero saber sobre tática, posso fazer um curso da Universidade do Futebol e, provavelmente, vou saber melhor sobre tática. Mas se eu ler um livro ou fizer um curso sobre carisma (mesmo que o melhor curso), isso não irá, necessariamente, me tornar uma pessoa mais carismática. Dentre outros motivos, isso acontece porque, sendo humanos, nós carregamos um passado, uma história (muito além da consciência), cicatrizes que nos fazem companhia onde vamos e que, escapando da consciência, podem ser invisíveis. Os conteúdos sobre tática estão à minha frente, eu posso vê-los. As marcas do meu passado (e do passado dos nossos atletas e colegas de trabalho, não se esqueça), nem sempre. Daí a importância deste saber das relações, da capacidade de construir relações ao longo do tempo.

Neste sentido, tenho cada vez mais claro que a escola principal de treinadores e treinadoras não está nem exatamente nos cursos de formação e nem exatamente nos saberes da própria modalidade (não me entenda mal, ambos são fundamentais). A escola principal de treinadores e treinadoras está na vida vivida, nas entrelinhas da vida vivida, nos pedaços de futebol que estão em todo lugar, mas que não encontraremos se não estivermos abertos.

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Agora, vamos pensar na continuidade da educação. Você e eu sabemos bem que há pessoas que realmente acreditam que já estão ‘formadas’, que já caminharam o suficiente para se ‘formar’ e que, agora, apenas ajudam (às vezes por obrigação) que outras pessoas se ‘formem’, dando continuidade à roda.

Mas repare comigo que há dois problemas aqui: o primeiro, que li e ouvi algumas vezes do Rubem Alves, é que as pessoas ‘formadas’ nada mais são do que pessoas na forma. A pessoa formada, portanto, é aquela que se adequou à forma. Na arte de se adequar à forma, é claro que ela tem seus méritos, mas será que é isso que nós queremos, por exemplo, como treinadores? Se estivermos na forma, você haverá de convir comigo que nossos limites serão claros, explícitos, muito bem definidos. Para a nossa educação como treinadores e treinadoras (e para a educação dos nossos atletas, dos nossos colegas de trabalho), será que pretendemos apenas nos colocar em formas estabelecidas por alguém, como faz o confeiteiro com um bolo, ou será que queremos uma educação além-das-formas (com o o fechado), além das formas (agora com o o aberto), uma educação que nos permita não apenas formar, mas trans-formar, às vezes de-formar, sem nos con-formar? Pense nisso.

O segundo problema está na ideia de que a educação termina. Se nós concordamos ali em cima, quando eu disse que a nossa educação como treinadores não está separada da vida vivida, então não é possível imaginar que nossa educação termina em algum momento. Porque, sendo humanos, temos nossos limites (ainda que existam para serem superados) e porque, sendo humanos em vida, temos a capacidade de educar e educar-nos pela vida, em qualquer situação. Posso achar que domino todas as ideias de mecanismos ofensivos, mas um belo dia estou no meu sofá e vejo uma equipe como o Ajax, abrindo mão da amplitude e criando enormes superioridades no setor da bola, e meus saberes estremecem. Aliás, esta é uma boa palavra. Como treinadores e treinadoras, nossa função é fazer estremecer, causar tremores. Mas, também como treinadores e treinadoras, pode ser que a vida nos estremeça.

Daí a pedagogia que não termina.

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Quando a vida nos causa algum tremor, este tremor não acontece apenas na cabeça, acontece no corpo inteiro. Digo isso porque, como treinadores e treinadoras, estamos nos habituando ao discurso da ruptura paradigmática, da superação do pensamento cartesiano, que não mais separa as partes, mas será que este saber está realmente incorporado, vinculado ao nosso corpo?

Não sei. Aqui e ali, ainda vejo que percebemos a educação como um grande supermercado, infinitos conteúdos dispostos nas gôndolas, e vamos pegando os conteúdos que queremos, quanto mais melhor, vamos nos entupindo de conteúdos, às vezes sem uma digestão adequada, sem uma dieta equilibrada, vamos apenas comprando e comendo e comprando. Mas será que essa educação, que vai ao supermercado todos os dias, é uma educação capaz de nos colocar além das formas? Rapaz, eu não estou convencido. Acho que estamos em vias de formar cada vez mais e, além disso, de formar sujeitos indigestos, com congestão, constipados, muitas vezes cansados. Não por acaso, uma indigestão e um cansaço que ocorrem principalmente na cabeça. Às vezes, uma indigestão de quem, na verdade, não comeu tanto assim.

Ao invés de nos educarmos como treinadores especialmente pelos conteúdos, fico pensando se não deveríamos nos educar pelos afetos, pelos sentidos, pela intuição (sim, pela intuição), se não deveríamos repensar essa educação que passa saberes no caixa rápido ao invés de relacionar-se com o mundo, de olhar para dentro, de não exatamente formar-se como treinador, mas de educar-se como treinador, de reconhecer nossos limites, de tentar superá-los, de aceitar quando isso não é possível, de aceitar a grandeza do jogo, de nos fazermos humanos pelo jogo.

Vamos pensando nisso aos pouquinhos.

 

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