Sobre o fazer do futebol no distanciamento social

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Vocês sabem que o distanciamento social, por razões óbvias, acabou se tornando um enorme desafio para todos nós, que somos diretamente dependentes do campo do futebol para o nosso trabalho. A despeito disso, tivemos que encontrar algumas soluções nesse período, seja para manter os atletas conosco, do ponto de vista afetivo mesmo, seja para mantê-los consigo mesmos de outras formas – a partir de outros olhares sobre o jogo, por exemplo.

Neste texto, gostaria de apresentar a vocês algumas das atividades que fizemos com nossos atletas na Elleven Futebol Studio – academia de formação de atletas onde trabalho, em Campinas. Em condições normais, antes do distanciamento, fazíamos quatro treinos semanais. Nossos garotos têm em média 16 anos de idade, e a partir dos treinos e das competições que disputamos, se preparam ou para ingressar nas categorias de base de clubes em âmbito estadual/nacional, ou então para realizarem intercâmbio esportivo. No distanciamento, optamos por fazer trabalhos físicos diários (via treinamento funcional planejado e aplicado por nós mesmos, acompanhado ao vivo), ao mesmo tempo em que mantivemos um encontro semanal, para falarmos de questões relativas ao jogo. É sobre esses encontros que gostaria de falar com vocês.

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Em linhas gerais, acredito que um encontro não começa nem termina nele mesmo. O que isso significa? Significa que são melhores os encontros que começam muito antes do próprio encontro e que terminam muito depois do próprio encontro – como se o tempo pudesse ser alargado de alguma forma. Como os nossos encontros aconteciam às quintas-feiras à tarde, basicamente a minha ideia era, sutilmente, sempre adiantar o início e atrasar o término. Fizemos isso a partir da noção de materiais complementares: geralmente na quarta-feira de manhã (portanto, cerca de 30 horas antes do encontro) os atletas recebiam um ou dois conteúdos já diretamente relacionados com o tema da nossa conversa. Considere como exemplos de conteúdos a carta escrita por Romelu Lukaku para o Player’s Tribune, um artigo analisando a evolução posicional de Kevin de Bruyne ou os melhores momentos de Espanha x Itália, na final da Euro 2012.  Os conteúdos sempre eram escolhidos a partir de uma conjunção entre linguagem acessível e material de qualidade. Para uniformizar o material, inclusive do ponto de vista estético, recorremos algumas vezes ao Outline, cujo serviço é de bom nível.

Independentemente do conteúdo que enviássemos, sempre havia um formulário a ser preenchido pelos atletas – ainda antes do encontro. Neste preenchimento, a ideia não era exatamente fazer perguntas binárias, que terminassem no certo/errado, mas trazer à tona perguntas abertas, que lhes fizessem pensar em como articular em palavras o próprio pensamento – também como uma forma de fazê-los perceber que era possível, naquele espaço, ser quem são e dizer o que desejavam.

Basicamente, gostaria que os atletas tivessem voz e que se sentissem responsáveis, ainda que implicitamente, pela articulação dos encontros. Quando penso no processo de humanização, sobre o qual já falamos aqui diversas vezes, penso muito nessa capacidade de dar voz, de dar ouvidos, de dar nossa atenção mas, especialmente, de darmos aos atletas e às pessoas a faculdade de simplesmente serem quem são, evitando ao máximo quaisquer tipos de julgamentos ou represálias. Quanto mais sinceros os atletas forem consigo mesmos e com o mundo, a meu ver melhores jogadores serão, uma vez que as máscaras que os defendem do mundo também existem para, de alguma forma, defendê-los de si mesmos. Sair dessa armadilha é uma tarefa inegociável.

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O encontro presencial durava cerca de 90 minutos. Como vários de vocês, usamos para os encontros o Zoom, aplicativo de reuniões online. Também como vários de vocês, usamos o Zoom na versão gratuita, o que significa que tinhamos um limite de 40 minutos na utilização da sala. Do ponto de vista de organização, isso basicamente nos trouxe duas consequências básicas: em primeiro lugar, precisaríamos fazer algo como dois ‘tempos’ de 40 minutos, com uma pausa entre eles para fechamento e reabertura da sala. Em segundo lugar (e isso envolve um certo detalhismo da minha parte), decidi abrir a sala precisamente às 17h28, dois minutos antes do início do encontro. Se abrisse às 17h25, como gostaria de fazer, perderia três minutos de debate que talvez fossem a fronteira exata entre uma certa possibilidade de expressão dos garotos ou mesmo o momento de alguma fala nossa que pudesse fazer alguma diferença na formação deles. Repare que esses pontos parecem se tratar de detalhes muito pequenos, mas que não podem ser ignorados.

Em linhas gerais, uma estrutura básica de encontro seria a seguinte: meus colegas de comissão – João Torniziello Rodrigues, Giovanna Morandim, Matheus Figo, Marcelo Matsuguma, Luiz Claudio Matsuguma – e eu fazíamos uma introdução de cerca de cinco a dez minutos, dando informes, fazendo perguntas mais genéricas e etc. Depois, avançávamos para o conteúdo propriamente dito, dividido em duas partes, pelos motivos que citei acima. Nas duas partes, invariavelmente, gostaria que todas as pessoas da sala pudessem falar – portanto, num encontro ideal, todos na sala tinham pelo menos dois espaços de fala. Em uma das partes, normalmente recorríamos a um vídeo, de algum jogo determinado (preferencialmente de 2015 para trás – gostaria de fazê-los pensar que havia futebol antes do que que existe hoje), com cerca de seis a oito minutos de duração. Não raro, trazíamos um vídeo de um jogo, propriamente dito, seguido de um outro vídeo sem relação aparente com o futebol (mas cuja relação era articulada a partir da nossa própria conversa), como esse brilhante TED conduzido pelo Apollo Robbins, a partir do qual discutimos a ideia do futebol como um jogo de atenção. 

Embora fossem muito claras as separações entre as duas partes do encontro, acho importante observar que não havia uma hierarquia entre elas, assim como não havia uma hierarquia entre os encontros – basicamente, a ideia era que os encontros estivessem sempre encadeados, mas que esse encadeamento ficasse implícito, subentendido, pois a própria capacidade de interpretar o que está nas entrelinhas é parte do processo pedagógico. Este, aliás, me parece um benefício da distância de uma semana entre um encontro e outro – com isso, havia tempo suficiente para digerir os encontros anteriores e preparar o terreno para o próximo , sem nos esquecermos daquele alargamento do tempo, a que me referi anteriormente.

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Como disse, gostaria apenas de fazer uma introdução às nossas atividades, como compartilhamento de experiências mesmo. Em breve, trago o relato de um encontro inteiro, deixando mais claras algumas escolhas pedagógicas que fizemos ao longo do tempo e apresentando alguns dos acertos e mesmo dos equívocos que eventualmente cometemos nesse período.

Continuamos em breve.

Graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora. além de Graduado em Ciências do Esporte e Mestre em Educação Física pela Unicamp. Atualmente, treinador pela Elleven Futebol Studio, em Campinas

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