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15/05/2019

Sobre o simples na complexidade

Uma entrevista de Mauricio Pochettino e alguns comentários
Mauricio Pochettino, ao lado dos atletas, comemora a histórica vitória sobre o Ajax. (Reprodução: Sky Sports)

 

Na última quarta-feira, horas antes do jogo de volta pelas semifinais da UEFA Champions League, o diário El País publicou uma extensa entrevista com Mauricio Pochettino, treinador do Tottenham – agora finalista. É um dos relatos mais belos que li recentemente, de um treinador muito, mas muito bom, aparentemente muito simples, de hábitos muito simples, e bastante humano.

Nesta semana, reproduzo algumas das respostas de Pochettino, que me chamaram a atenção, seguidas de comentários meus. Todas as traduções são livres. Desde já, indico aos colegas que leiam, assim que possível, a entrevista na íntegra.

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P: No seu livro, Brave New World [ainda não traduzido para o português], você fala da existência de uma “energia universal”. Como define essa percepção?

R: Se toca, se vê, se nota. Todo mundo pode entender, mas nem todos estão abertos a isso, a canalizar isso para conseguir o que se quer. Sinto desde pequeno. É algo que estava em minha mente e não sei o porquê. Pensava que havia uma energia que me permitia sonhar coisas que depois conseguia. Programar coisas com a sua mente para que depois aconteçam tem sido para mim uma ferramenta fácil de usar para conseguir coisas boas. As pessoas se unem através de coisas que não são fáceis de racionalizar.

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Não acho que este trecho deva ser lido com um certo esoterismo, não é o melhor caminho. Quando Pochettino fala de algo intangível, intocável, desta ‘energia universal’, ele deixa implícito que não enxerga o humano como somente racional. Este é um ponto interessantíssimo. Nossos atletas, nossos colegas de comissão técnica e nós mesmos, treinadores e treinadoras, somos carne e razão, mas também somos paixões, somos afetos, e podemos ainda nos sentir alguma outra coisa, parcialmente metafísicos (além do físico). Esta ‘outra coisa’ não é necessariamente espiritual, e não precisa necessariamente ser investigada. Basta pensar que respeitá-la não é tão dolorido assim. Sinto que, de alguma forma, Pochettino fala de uma coisa bastante democrática, acessível a todos nós e que, especialmente, humaniza a si mesmo (uma vez que assume algo que não se vê). Em um meio que se diz cada vez mais científico, é preciso ter alguma coragem para mostrar um lado intangível.

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P: Não acha que sua visão de futebol se superou há 30 anos? Isso de criar equipes duradouras [Pochettino havia falado sobre isso na resposta anterior] não é antigo?

R: Isso é transferível a qualquer clube. É transferível ao Espanyol, ao Southampton, ao Tottenham, ao [Real] Madrid, ao Bayern, ao United. Por que não? Somos responsáveis por preservar alguns valores. Porque estamos nos afastando da essência do futebol. Temos ficado em uma posição que sinceramente não me agrada. Porque o futebol atual é muito bonito (…), mas outro dia vi a semifinal da Copa da Europa de 1975 entre Barcelona e Leeds United… Aquilo era futebol! Você vê o Cruyff batendo. Se esforçando! Era o Cruyff! Os jogadores não sabiam que estavam sendo gravados para a televisão. Sou um apaixonado por este futebol.

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Seria um exagero dizer que este é um treinador à moda antiga? Não, não acho. Explico: não é a primeira entrevista em que o vejo falar com alguma nostalgia do passado, de uma vida que viveu e que não vive mais, como se ele fosse um sujeito não à frente, mas deliberadamente atrás do seu tempo, deste tempo. E ao contrário do que nos acostumamos a ouvir, isso não é necessariamente um problema. Para muito além desta oposição antigo/moderno (que nos está deixando doentes), está a ideia de que existem valores atemporais, ideias e faculdades tão fortes, tão profundas e humanas, que ultrapassam a barreira do tempo. O pensamento, a capacidade de refletir atenta e seriamente sobre o mundo (e sobre o futebol) é atemporal. As paixões (que nos fazem vulneráveis) são atemporais. O fato é que ninguém hoje, em sã consciência, diria que Pochettino é um sujeito retrógrado. Mas quantos estariam dispostos a encarar, com tranquilidade, que muito do que chamamos de moderno, pode não representar progresso algum?

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P: Hoje os treinadores falam do que acontece em campo como se tivessem fabricado um foguete. Você fala de paixão. Tem simplificado o discurso. É possível ser um grande treinador sem essa vaidade do científico?

R: O futebol perdeu gente autêntica. Parecemos atores. Quarenta anos atrás em Murphy [cidade natal] nos juntávamos na praça para jogar. Jogávamos em 30×40 metros. Se formavam duas equipes. Quem tinha a posse da bola? Os melhores! Por mais que houvesse treinadores dirigindo aquilo. Quem tinha mais percentual de posse de bola? Os que tinham a melhor equipe. Os tecnicamente melhores. Que nem sempre eram os que ganhavam porque às vezes jogavam muito bem, mas os outros te faziam gols porque chutavam ou resolviam [em um drible, talvez]. Mas, a quem pertence o jogo de posse de bola? Aos jogadores. Aqui vendemos uma ideia de que há treinadores que inventaram o futebol de posse e não é assim. A mim me encanta jogar com a bola. Quero ter a bola o máximo que puder. Mas se não tenho as ferramentas nem os jogadores técnicos para jogar, devo buscar uma forma diferente. E parece que esse futebol não existe. Parece que pertence somente a alguns. E não é assim. Como faz para que o Burnley jogue com posse? Se tenho Xavi, Iniesta, Busquets… Como lhes vou dizer que joguem direto, a correr, e em transições rápidas? Seria estúpido. (…) Há debates que são estéreis. O importante é que se mostre como é, não como um ator.

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Essa resposta começa com um detalhe importante: Pochettino não respondeu à pergunta – não diretamente. Ele o fez nas entrelinhas, mas ao invés de responder com argumentos, recorreu à uma anedota pessoal. Isso me parece bastante importante, porque mostra que a ação (responder a uma pergunta com uma história) está vinculada aos seu próprios discurso (não exatamente científico). Julgue-me pelas minhas ações, não pelas minhas palavras, diria alguém. Mas ao mesmo tempo, Pochettino flerta com uma ideia que pode soar perigosa: a de que algumas equipes podem jogar com posse e outras, não. Imagino que ele quis dizer que neste nível de competição, é preciso ser bastante eletivo na escolha do modelo, pois a insistência em ideias alheias à uma certa cultura (daí o exemplo de Xavi, Iniesta e Busquets) pode não ser bem recebida e causar o efeito inverso. Isso não significa que um treinador ou treinadora não possa, através das ideias e do treinamento, fazer com que determinados atletas evoluam, fazer com que o modelo permita ao atleta se redescobrir. Encontrar este meio-termo, esta justa medida, é uma das maiores tarefas que nos cabem. Talvez só não seja tão difícil quanto tornar-se quem se é, ao que ele se refere no comecinho da resposta. Esta sim é uma grandíssima tarefa humana.

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P: Você tem simplificado conceitos para que os jogadores mudem [de esquema] e se adaptem sem se confundir?

R: A mensagem é simples dentro da complexidade. Uma coisa é a posse e outra é não ter a posse da bola. Como nos organizamos em posse dependendo do que vai buscar e como se organiza defensivamente dependendo de como vai perder a bola. (…) O futebol é simples. Se tenho a bola, o que faço? Que características têm os jogadores que tenho em campo? Como quero atacar? Como busco a debilidade do adversário? E se não tenho a bola, como me defendo? Como me organizo rápido? Onde pressiono? Onde quero recuperar e de que forma? Dentro dessa simplicidade há uma complexidade que desenvolve no dia a dia. Depois, isso é bastante fácil de transmitir quando o jogador trabalha conscientemente, mas isso termina no inconsciente. Parece natural porque para o jogador a mudança não soa estranha. O Liverpool é 4-3-3. Há pouca flexibilidade. Os três do meio são mais defensivos. É uma equipe que se prevê que jogará de uma determinada forma. (…) No final buscam [Pochettino também havia citado o City] na qualidade do indivíduo a capacidade de vencer o oponente sem buscar tanto desenvolvimento tático para encontrar outra via de melhora na equipe, ou de mais fluidez ou de ter a capacidade de chegar de maneira diferente. Voltamos ao mesmo: se você tem uma ideia de futebol, perfeito, quero desenvolver um sistema mas necessito que quando não esteja Aguero jogue um atacante do mesmo nível como Gabriel Jesus. E se não tenho Sterling, quero Mané… Isso é muito diferente de trabalhar com uma equipe onde há que ir buscando os caminhos para ajudar aos jogadores a se encontrarem. Eu não posso decidir jogar ou não com extremos.

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A primeira linha da resposta deu origem ao título desta coluna. Cruyff dizia que o futebol é simples – mas fazer o simples é difícil. É uma leitura próxima da que faço nesta frase de Pochettino, que reconhece que existe ali uma grande complexidade, que o jogo é caos/ordem, mas que a mensagem que precede do jogo precisa ser simples, ou pode ser estéril. Repare que as perguntas feitas por ele (o que faço? como quero atacar?) são de fato simples, sem terminologias elaboradas, mas são corretas, centrais. Com essa simplicidade (que não é sinônimo de vulgaridade) Pochettino consegue brincar com os sistemas, consegue encontrar soluções coletivas para encarar equipes que podem até ser mais sólidas do ponto de vista estrutural, como o Liverpool, com jogadores ligeiramente mais decisivos, e mesmo assim consegue fazê-lo bem, de frente. Acima das estruturas (qual é o nosso sistema?) está o modelo (como vamos jogar?) e é isso que permite alguma fluidez, de jogo para jogo, durante a temporada.

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Há quem diga que essa entrevista faz referência ao ‘lado humano’ dos atletas e do próprio Pochettino. Não é verdade. Deixo aqui um texto que escrevi neste mesmo espaço, criticando a ideia de ‘lado humano’, uma vez que I) o humano não tem lados e II) o humano não poderia ser apenas um lado, é maior do que isso.

Outra vez, indico a leitura da entrevista na íntegra. Pochettino parece ser um sujeito muito interessante, um sujeito meio bucólico nesta correria da modernidade, e isso transparece tanto nas suas palavras quanto nas suas ações e no seu modelo.

Não existe filosofia que não seja encarnada, que não venha da carne, e os resultados recentes (que não vem de hoje) comprovam que o caminho traçado por ele tem um sentido.

E que este caminho pode nos levar um pouquinho mais longe.

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