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06/01/2020

Sobre a sensação de pertencimento dos jovens torcedores brasileiros

Foto: Divulgação Bayern de Munique

 

Três crianças de um lado e três do outro. Enquanto isso, meia dúzia aguarda a vez de jogar. As traves foram improvisadas com pedaços de pedra encontrados pelo terreno, bastante acidentado, composto por trechos de terra e cimento de um antigo estacionamento. Camisas do PSG e Barcelona estavam presentes, mas um garoto vestia a do Santa Cruz. Na cena, em Pesqueira, interior de Pernambuco, o torcedor tricolor tinha como sonho defender a equipe da capital. No auge do futebol globalizado, a paixão local ainda sobrevive.

Costumeiramente, clubes brasileiros se queixam do assédio estrangeiro sobre jogadores. Todavia, caso você ande pelo interior do Brasil, verá crianças desejando defender os grandes do seu respectivo estado. Assim, levanta-se a questão: em que momento isso se perde? Usarei como gancho uma ação do Bayern de Munique em São Paulo.

Os alemães reinauguraram uma quadra na comunidade de São Remo, bairro do Butantã. Não vou falar nem da expansão de escolinhas (europeus estão fazendo isso e em constante crescimento), mas quantos clubes nacionais chegam em regiões marginalizadas e simplesmente levantam um espaço para a prática do esporte e anexam o escudo? Por óbvio, nem todas as 722 instituições profissionais do Brasil – números de 2018 da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) – possuem condições financeiras para tal. Mas é bom frisar que pouco vem sendo feito pelos que não sofrem com esse problema.

Em entrevista recente ao El País, Javier Zanetti, atual vice-presidente da Intenazionale, falou um pouco sobre os planos de expansão da equipe. Até o momento, com ele no comando, o clube italiano abriu mais 20 unidades da Inter Academy pelo mundo, além de Inter Campus em 29 países. Para se ter uma ideia, são 38 no Brasil. Vale destacar que outros clubes estão fazendo o mesmo, casos do Paris Saint German, Barcelona e Torino, que também abrem escolinhas no país. Investindo nesse setor, aproveitando o vácuo da regionalização dos brasileiros, europeus constroem uma possibilidade de executar todo o processo de formação de um atleta. Um enorme prejuízo local.

Estudo recente do CIES Football Observatory apontou o Brasil como sendo o país com o maior número de jogadores entre as 31 principais ligas europeias. Ao todo, são 466 atletas (10,3% do total). Quando há o recorte das cinco nacionais mais relevantes, a França fica à frente, com 115 (10,8%) x 104 (9,7%).

Numa equação tão complexa, há inúmeras variáveis. A principal é a capacidade de investimento dos clubes. Aqui, ainda engatinhamos, puxados por Flamengo, Palmeiras, Grêmio e Athletico-PR. Contudo, vale destacar que a ligação entre o clube e o pequeno torcedor não demanda aplicações exorbitantes. Workshops? Partidas festivas? Ações pontuais? De forma magistral, a NBA, com o NBA Cares, leciona sobre isso. Claro, lá, há a possibilidade de maiores investimentos. Em todo caso, não impede que isso seja observado como um modelo de por onde caminhar no Brasil.

Para se ter uma ideia de como pode ser simples alimentar a chama de um torcedor por uma instituição, dou um exemplo prático. Qualquer pessoa do planeta pode enviar um e-mail para qualquer clube da NFL esbanjando toda paixão que tem pela respectiva equipe. Como resposta, os departamentos de marketing e comunicação são instruídos a enviar “fan-packs”. Geralmente, o kit é composto por um caderno, lápis, chaveiro, uma figurinha assinada por algum jogador e um calendário personalizado, além de uma carta de agradecimento. Há muito a ser explorado no Brasil.

Hoje, ainda é possível encontrar camisas de times locais em peladas infantis pelo interior do Brasil. Entretanto, é impossível fazer vista grossa para o aumento significativo de mantos estrangeiros. Não há escassez de clubes aqui, o que torna, no mínimo, intrigante a perda de aficionados para o exterior.

Se uma criança, que ama um clube, acostumada a ver pai e avô ao pé do rádio torcendo, não é cativada pela instituição, a culpa é somente do assédio estrangeiro? Quantas ações estão sendo feitas pelo interior? É preciso manter a sensação de pertencimento dos jovens torcedores. Os estrangeiros já perceberam e estão ocupando esse vácuo.

E isso não só tem a ver com o papel social do clube. Tampouco é confundir com as obrigações do Estado. Atentar para a paixão desse público mirim não deixa de ser um investimento para que, no futuro, talvez, haja alguma barganha para a retenção de jovens localmente – tentando combater o assédio de fora. Em meio a milhões de reais movimentados no futebol brasileiro, é o mínimo a ser feito. A tarefa é complexa, e planejamento é preciso. Acima de tudo, a discussão não pode arrefecer.

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