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23/01/2017

#SomostodosFelipeMelo

O jogador, recém contratado pelo Palmeiras, será avaliado por suas atitudes mas não pode ser eternamente rotulado por elas

Ainda é cedo para fazer qualquer análise técnica sobre a movimentação dos times brasileiros na última janela de transferências, mas já é possível dizer que a contratação de Felipe Melo assegurou ao Palmeiras o título de reforço mais polêmico do futebol nacional em 2017. O volante de 33 anos disputou apenas uma partida com a camisa alviverde – foi titular em amistoso contra a Chapecoense –, mas já enfileirou polêmicas: bateu boca em redes sociais, criticou um dirigente do Flamengo e se disse disposto a “dar tapa na cara de uruguaios” na Copa Libertadores, por exemplo. Considerando o pacote que o meio-campista oferece, há uma série de motivos para discutir a estratégia do clube paulista. Existe, no entanto, um ranço inaceitável. E nessa lógica, #SomostodosFelipeMelo.

Desde que começou a negociar com times do Brasil, Felipe Melo foi retratado como “o jogador que deu um pisão em Robben, da Holanda, e foi expulso na partida em que o Brasil foi eliminado da Copa de 2010”. É raso como todo rótulo – por mais recorrente que seja, essa é só uma faceta. Além disso, o episódio aconteceu há mais de seis anos. Pessoas mudam crenças, hábitos e traços de personalidade em períodos bem mais curtos, dependendo da disposição ou de influências externas. Somos seres em constante mutação, e um retrato de minutos registrados seis anos atrás tem pouco a dizer.

Felipe Melo não tem uma larga coleção de jogadas desleais ou de expulsões em momentos decisivos. Ao contrário: o volante construiu sólida carreira no futebol europeu e sempre foi considerado um atleta confiável por comissões técnicas de algumas das principais equipes do planeta. Não há diagnósticos conhecidos sobre problemas de personalidade ou comportamento.

O que sobra é o rótulo. E a partir do rótulo, Felipe Melo é incitado ou provocado. E a partir de suas reações, o rótulo é reforçado. É um ciclo que baseia muito dos processos de comunicação – e não apenas no esporte. Em quantos momentos na vida você foi cobrado ou avaliado a partir de um comportamento que as pessoas esperavam, baseado apenas em ações pregressas?

A proposta do texto também não é fingir que o passado não existe. Currículo serve exatamente para isso: mostrar como alguém se comporta em diferentes momentos e como evolui ao encontrar situações similares. Felipe Melo tem manchas, sim. Mas quem não tem?

Essa questão permeou uma das principais respostas de Felipe Melo em sua primeira entrevista coletiva no Palmeiras. O jogador foi questionado sobre o comportamento viril, a dedicação e a reação à catimba dos rivais. Deve ter pensado, com base no estofo adquirido em toda a carreira, que torcedores e jornalistas esperam dele uma personalidade combativa. Respondeu que está pronto para “dar tapa na cara de uruguaios”.

Ninguém aqui defende a agressão e tampouco considera inteligente o comportamento de quem pensa, antes mesmo do início de uma competição, que vai encontrar uma guerra em vez de um simples jogo de futebol. A reação de Felipe Melo, contudo, não foi tão desmedida quanto algumas pessoas tentaram rotular. Foi apenas o que esperavam dele.

Também foi assim a discussão com Antonio Tabet, vice-presidente de comunicação do Flamengo. O cartola ironizou em redes sociais o acerto de Felipe Melo com o Palmeiras – o jogador é torcedor rubro-negro, mas encontrou na equipe paulista uma proposta profissional mais vantajosa.

Melo respondeu. Reafirmou a paixão pelo Flamengo, mas precisou explicar que é profissional e tem direito de trabalhar onde quiser – e não necessariamente no lugar que ama. Criticou “um diretor do Flamengo”, e Tabet partiu para a tréplica.

“O senhor Felipe Melo, antes de ir embora do Brasil, foi acusado de esfaquear um cara aqui no Rio de Janeiro. Não sei como terminou essa história, mas podem procurar aí no Google”, disse Tabet em entrevista à “Rádio Globo” do Rio de Janeiro.

O primeiro ponto: se ele foi acusado, não é necessariamente culpado; apenas a Justiça pode dar um veredicto, e o sistema brasileiro é estruturado a partir da presunção de inocência. O segundo: mesmo que tivesse sido condenado, o que isso tem a ver com a discussão? Tabet jogou no ar uma história relacionada ao passado como estratégia para desmerecer Felipe Melo. Agiu como se não entendesse que pessoas cometem erros e que devem ser julgadas por eles, mas não podem carregar consigo eternamente a pecha.

Tabet foi cafajeste ao falar de Felipe Melo como se o jogador fosse culpado. Foi ainda mais cruel por ter se eximido da acusação (apelou ao “podem procurar no Google”). Tentou debelar a credibilidade do interlocutor como se isso o ajudasse na discussão (um ataque ao argumentador e não ao argumento).

Novamente, coloque-se na pele de Felipe Melo: em quantas situações você foi julgado por pessoas alheias ao acaso ou teve de lidar com feridas abertas além do tempo?

Felipe Melo pode ter vários defeitos, mas é apenas isso: um jogador e uma pessoa falível. Tem de ser avaliado por essas atitudes, mas não pode ser eternamente rotulado por elas. O contexto serve para isso, afinal: para entendermos que somos seres em progresso.

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