Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

24/01/2013

Sou tecnicista?

O que significa ser tecnicista? Tenho escutado muito esta palavra e, obviamente, na maioria das vezes, utilizada indiscriminadamente e sem o devido cuidado de se compreender seus significados (intenções), fixando-se apenas no seu modo de fazer (ações).

Se valer do método tecnicista, que em linhas gerais é sinônimo de analítico, significa acreditar que o mundo é feito de padrões e comportamentos manipuláveis. Ou seja, sendo coerente ao método, respaldado pelo behaviorismo, o ser humano veio ao mundo vazio e precisa ser preenchido de conhecimentos.

Logo, se sou responsável pelo preenchimento, partindo de um modelo ideal (padrão ouro), transmitirei as verdades (informações), de modo a obter o comportamento que se deseja (quem deseja é sempre o patrão).

Talvez seja possível associar este ideia a uma linha de montagem, que parte de um modelo perfeito de carro, e à medida que a esteira avança, as peças, (partes por partes), uma a uma são colocadas e ao final temos carros prontos (o todo), em que serão diferentes apenas nas cores e nos acessórios, que indicarão quais serão de luxo (para os ricos) e quais os populares (para os menos afortunados, que o comprarão em 60 vezes).

Também é possível vislumbrar este método sendo utilizado, com este mesmo propósito e do mesmo modo, na escola. A intenção de manipular (lembrando que a escola é um aparelho ideológico do estado) sempre esteve implícita e, muitas vezes, explícita, nas intervenções pedagógicas.

O vídeo clipe da música "The Wall" da banda Pink Floyd é ótima para visualizarmos este método em ação e intenção, mostrando a escola como espaço de confinamento e engorda de crianças e jovens, que depois de dopadas, bombadas e descaracterizadas, caem na máquina de moer carne, para na sequência serem moldadas como carne moída pelas mãos invisíveis do estado (ou quem quer que seja o dono da máquina de moer).

O método tecnicista pode ser lembrado por aqueles que foram alfabetizados pela cartilha "Caminho Suave". É muito interessante analisar o método, tanto em ação quanto intenção. Ele parte do pressuposto que todos podem ser alfabetizados da mesma forma e ao mesmo tempo. E para isto basta separar o processo de alfabetização em partes menores, almejando que, pela soma das partes, se chegue ao entendimento do todo, e principalmente para atingir este objetivo há necessidade de se controlar o comportamento e, a todo o momento, repreender comportamentos negativos e recompensar os positivos, sempre por meio de estímulos extrínsecos.

De outro modo, a cartilha tira as palavras de seu contexto, separa-as em partes (sílabas: ba, be bi, bo, bu) e ensina a juntar partes (bo + la = bola; bo + lo = bolo; ba + la = bala). Esperando, linearmente que ao unir sílabas as crianças compreendam as palavras. Depois juntando palavras entendam as frases, as sentenças, depois textos…, orações subordinadas, a conjugação do pretérito do subjuntivo, os anacolutos, o objeto direto, as crônicas, as poesias, os romances, etc…

 

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É neste momento que gosto de enfatizar a eficiência do método tecnicista, pois ele, de modo simples, alfabetiza muitas crianças ao mesmo tempo. Elas começando pelas palavras, ou até mesmo pelas sílabas, reconhecem o que está escrito, conseguem ler uma frase, e ainda com a ajuda do caderno de caligrafia possibilita que a letra seja escrita perfeitamente. E mais, dependendo do conjunto de acessórios implantados, determinará em que classe social as pessoas devem viver.

Contudo, pesquisas mostram que reconhecer letras e ler textos, não necessariamente significa compreender o que se está lendo. A pedagogia atribui o rótulo de analfabetos funcionais àqueles que sabem ler, mas não entendem o que estão lendo, têm dificuldade na interpretação. E o método tecnicista é o principal responsável por isto, pois não é preciso que todos reconheçam os significados das coisas. Na verdade, isto é um acessório implantado, que dirá o quanto as pessoas devem (podem) saber para assim diferenciar o candidato a lixeiro do médico.

Volto a destacar as intenções e ações do método. Ele quer, com suas ações (aparência) tecnicamente instruir a todos, do mesmo modo e com o mesmo fim. Mas, na essência de suas intenções, não importa se se entenda o que se lê, desde que todos bem ou mal leiam e possam constar nos índices políticos (e para fins políticos) como alfabetizados. Ou pensando bem, é melhor e mais fácil não entender o que se lê, pois assim fica mais fácil controlar pessoas.

Quando transferimos esta análise para o futebol, obtemos o mesmo resultado. Separa-se o futebol em partes (gestos técnicos), estas partes devem ser adestradas por meio de repetições descontextualizadas de um modelo (padrão perfeito de movimento; gesto técnico demonstrado por um exímio executor do movimento).

Como com um caderno de caligrafia, é preciso de treinos chatos e exaustivos de repetição para que se obtenha excelência. Com os movimentos lapidados se pode, então, jogar, mesmo que não se saiba ler o jogo (analfabetos funcionais do jogo), entender as razões de se fazer. O modo de fazer é mais importante, mesmo porque é interessante que não se compreenda o jogo, pois assim se revela a importância do treinador, que dominará os jogadores com seus comandos e desmandos.

Portanto, cuidado!! Um tecnicista clássico, consciente do que está fazendo e coerente com o respaldo teórico, deve ter claro as consequências advindas da sua atuação e do jogador/ser humano que está se formando. Ou mesmo, aqueles que ainda acreditam no tecnicismo e muitas vezes não sabem o que significa ser adepto deste método, devem se conscientizar.

Volto a frisar, o método nunca é apenas ação, sempre tem uma intenção implícita. E também ser contrário ao método tecnicista, não significa negar à técnica e seu necessário desenvolvimento no processo de aprendizagem e aperfeiçoamento do esporte.

Lutar contra o fim do método tecnicista, representar combater a ignorância em todos os sentidos no meio futebolístico. Pois este método gera dependência, mantém a ordem hierárquica de poder, além de formar excepcionais malabaristas com as bola nos pés. Não havendo intenção e ação de formar um jogador inteligente, capaz de transformar o patético jogo advindo do processo de formação mecânico e linear, em uma obra de arte que encanta e leva o jogador a sempre querer ser mais, superando-se a cada instante único do irredutível jogo de futebol, por mais paradoxal que isto seja aos olhos (ponto de vista) dos tecnicistas.

Existem outros métodos para o ensino da técnica (muito mais eficientes que o método tecnicista), que ainda trazem no bojo a intenção de formar seres humanos capazes de obras esportivas inteligentes, impressionantes e estonteantes. Logo, antes de dizer sou tecnicista, e acredito que este ainda seja importante (mesmo em alguns poucos casos), reflita se quer que sua intenção (e não apenas a ação – o modo de aplicar o método tecnicista) permaneça, e continue com suas mazelas a corroer e destruir as pessoas e o nosso futebol, gerando sobrevida aos vilões que usurpam o trono da bola com os pés.
 

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

 

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