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A comunicação nos clubes de futebol

A bola para o debate foi levantada mais uma vez nas últimas semanas dentro da imprensa paulista. O repórter da rádio Bandeirantes, Eduardo Affonso, fez questão de agradecer no ar à assessoria de imprensa do Internacional o tratamento dispensado aos diversos veículos de comunicação nos dias que antecederam ao jogo Inter e São Paulo, que decidiu a Libertadores. Os colegas da imprensa paulista ficaram felizes em poder entrevistar “todo e qualquer jogador do Inter”, sem restrição de horário ou de atleta.
 
Aqui em São Paulo, virou regra o controle às entrevistas de jogadores. Acabou aquela história de que todos podem falar após o treino, ou então de que o repórter tem livre acesso ao jogador antes, durante e depois dos jogos. No Sul, a felicidade foi poder entrevistar desde Renan, goleiro reserva de Clemer, até Rafael Sobis, o astro da primeira final.
 
O discurso dos jornalistas, porém, é curioso. Reclama-se de que não se pode entrevistar todos os jogadores. O argumento é de que, assim, não se consegue preparar um material diferenciado do da concorrência. O argumento é até coerente. Sim, de fato é complicado ter poucas fontes para se falar. Ainda mais quando não é o jornalista quem escolhe o entrevistado, mas sim o entrevistado que é “disponibilizado” para ser a fonte.
 
Só que não é o jornalista quem mais bate na tecla de que os clubes têm de ser profissionais, assim como os atletas? Então não se pode criticar a restrição às entrevistas.
 
Em qualquer grande empresa, a comunicação é parte integrante e fundamental do plano estratégico de crescimento. Por que num time de futebol tem de ser diferente?
 
O conceito foi desenvolvido pelo Manchester United, no início dos anos 90, quando o francês Eric Cantona criava uma crise a cada hora. Na concepção do clube, o jogador, para ser bom dentro de campo e bom vendedor fora dele também, tem de adquirir o status de superstar.
 
E como fazer isso? Dando uma exposição qualificada a ele na imprensa. Foi a partir disso que o Manchester fechou os treinos de seu time e passou a permitir que no máximo dois jogadores e o treinador concedessem entrevista diariamente. No começo, sem dúvida, os britânicos chiaram da decisão. Depois, porém, a imprensa inglesa incorporou o espírito e passou a se desdobrar para trabalhar numa nova realidade.
 
No Brasil, vivemos o início desse processo, quase 15 anos depois. Agora, os treinos são restritos, o acesso livre da imprensa aos atletas é dificultado por diversos assessores. No começo, em São Paulo, as restrições geraram polêmica. Mas, depois de quase cinco anos nessa nova realidade, as coisas começam a se arrumar.
 
No esporte e, principalmente, num clube de futebol, a comunicação é peça-chave para o sucesso de um projeto. É preciso haver unidade na transmissão da informação. É preciso tomar cuidado para não cair nas armadilhas de uma divergência de entrevistas.
 
Para isso, é fundamental filtrar a maneira como o clube se comunica com a imprensa. É duro para o jornalista não ter a mesma liberdade de antes. Mas é muito menos dolorido para o clube saber quem está falando e quando está falando.
 
Que o digam Corinthians e MSI, díspares nos pensamentos e nas declarações à imprensa. Será que a crise no Parque São Jorge não poderia ter sido menor se a comunicação estivesse integrada e funcionando harmonicamente?

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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O mito do título internacional

Mitos são histórias ou conceitos de origem não muito confiável que com o passar do tempo vão sendo retransmitidas de papo em papo até virarem verdade, mesmo que às vezes não sejam.

Como grande parte do conhecimento do futebol é disseminado através de papo em papo, nada mais natural que ele acabe ganhando um grande contorno mítico, recheado por verdades que nem sempre são lá muito verdadeiras.

Um desses mitos do futebol diz que em time que está ganhando não se mexe. Outro mito diz que dois a zero é um resultado muito mais perigoso para o time vencedor do que um a zero. E outro, ainda, diz que clubes europeus não dão a mínima para as competições intercontinentais, os tais campeonatos mundiais da Fifa.

Enquanto os dois primeiros mitos possuem um embasamento bastante questionável, o terceiro é nada mais do que pura e simples verdade. Clubes europeus não dão a mínima para campeonatos em que tenham que jogar contra clubes de outros continentes. Priorizam seus campeonatos nacionais e continentais, relegando os campeonatos intercontinentais a uma insignificância tal que só não jogam com o time reserva porque a Fifa não deixa.

Pergunte para um torcedor do Manchester United se ele por algum acaso se lembra da primeira edição do campeonato mundial de clubes promovido pela Fifa e ele provavelmente dirá que não. Você dá mais detalhes. Cita o golaço do Edmundo depois de um drible desconcertante em cima do Silvestre, zagueiro dos diabos vermelhos. Edmundo quem?

Aí você perde a paciência e fala que foi no Rio de Janeiro no comecinho do ano 2000 e que teve Real Madri e tudo mais. Fala que até o Beckham tava lá pegando um bronze em Copacabana. Ele vai se lembrar, indignado, mas a lembrança vai aparecer só porque esse campeonato foi a razão pela qual o Manchester United não pôde participar naquele ano da FA Cup, uma espécie de Copa do Brasil inglesa, que é o campeonato mais antigo do mundo.

Numa jogada política, a FA – algo como a CBF inglesa – obrigou o Manchester a levar seus jogadores para o Rio de Janeiro para agradar a Fifa e ajudar a então candidatura da Inglaterra para sediar a Copa do Mundo de 2006. Como você bem deve saber, o Manchester United não ganhou o campeonato e a Inglaterra não vai sediar a Copa ano que vem.

Interessantemente, esse episódio é visto hoje pelos ingleses como um dos maiores fracassos da história da FA, e não como um fracasso do Manchester United.

Assim como na Inglaterra ninguém se gaba de ter ganhado uma Copa Toyota, ninguém também tira sarro do outro por ter perdido.

“Nós apenas não damos bola”, explicou pra mim um fanático torcedor do Liverpool que chegou a viajar até Istambul para assistir a final da última Copa dos Campeões contra o Milan.

Para entender o porquê disso, é preciso primeiro entender aquilo que significa o futebol para Liverpool e para a Inglaterra. Liverpool é uma cidade mundialmente conhecida por causa dos Beatles e por causa dos seus clubes de futebol, Liverpool e Everton.

É uma cidade de tamanho mediano para os padrões ingleses e foi muito importante no passado por causa da sua grande capacidade portuária. Com a queda do império inglês no começo do século 20 e com o desenvolvimento de novas tecnologias e novos pólos de navegação, Liverpool sofreu uma forte crise econômica e só agora começa a dar sinais de recuperação. A cidade foi abandonada pelas indústrias e se sente abandonada pelo governo. Possui uma das maiores taxas de desemprego de todo Reino Unido e em 1998 era considerada a cidade mais desfavorecida de toda a Inglaterra.

Como o futebol sempre caiu muito bem em locais com altas taxas de desemprego, não é de se espantar que ele assuma tamanha importância. É tão importante que a cor oficial da cidade é roxo, uma mistura entre o vermelho da camisa do Liverpool e o azul da camisa do Everton.

Mas não por isso ache você que a grande rivalidade existente é entre os dois clubes da cidade. Rivalidade existe, claro, mas ela é muito menos intensa do que a rivalidade demonstrada para com clubes vizinhos, em especial o supracitado Manchester United.

Em qualquer lugar do mundo o futebol envolve fortes sentimentos de identificação e pertencimento a uma determinada sociedade. Na Inglaterra, porém, esse sentimento é muito maior.

Não só por se tratar do país que inventou o jogo, mas principalmente por ser uma ilha que até poucas décadas atrás tinha em mãos o comando do mundo.

A Inglaterra ainda é um império em decadência e, como todo bom império, está mais preocupado com seus assuntos internos do que com qualquer movimento globalizado.

Pergunte pro Bush

Para dar crédito a uma conquista é preciso valorizar o adversário. E ninguém vale mais para os ingleses do que eles mesmos.  É quase impossível conseguir ingressos para assistir as partidas do campeonato nacional, a Premiership. Quase todos os ingressos são vendidos antecipadamente, e o tempo estipulado da fila de espera para conseguir comprar o pacote de ingresso pra temporada do Liverpool é de 20 anos.

Para a Liga dos Campeões da Europa, por sua vez, basta ficar algumas horinhas na fila da bilheteria do estádio que você consegue o ingresso. Se bobear, até sobra no final. É uma relação de importância perfeitamente oposta à sul-americana. Enquanto que para os ingleses o jogo mais importante é o local, para os brasileiros o mais importante é o intercontinental.

O Liverpool ignora o Campeonato Mundial de Clubes da Fifa assim como o São Paulo ignora o Campeonato Estadual da Federação Paulista. Ambos só jogam por pura obrigação. Passa o jogo, ninguém mais se lembra do que aconteceu.

O Liverpool vai aproveitar o tour pelo Japão para desenvolver alguns projetos comerciais com sua crescente torcida asiática. Vai pelo dinheiro, e só por isso.

Caso ganhe o campeonato, o Liverpool não vai colocar uma estrela dourada em seu escudo. O único ouro com que o clube se importa vai para o banco. Se bem que hoje em dia ninguém mais coloca ouro no banco. Já faz muito tempo que isso virou um mito.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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As relações entre futebol e empresa

 

É muito comum as empresas convidarem profissionais que trabalham no futebol, especialmente os treinadores, para fazerem palestras aos seus executivos e funcionários, mostrando um pouco da relação entre as vitórias dos times de futebol e suas próprias metas.

 

Não é difícil correlacionar os caminhos que tem que percorrer um time de futebol para atingir seus objetivos e uma empresa para fazer o mesmo. A alta visibilidade que tem o futebol, exigindo resultados positivos, uma ou duas vezes por semana, apresentados sempre de forma pública, torna este exemplo ideal para as empresas que precisam igualmente ter estratégia, tática, planejamento e organização para ganhar o jogo no mercado cada vez mais competitivo.

 

Louvável, portanto, a atitude das empresas ao tentar buscar elementos para se tornarem mais produtivas. Pena que os clubes de futebol, através de seus dirigentes, não procurem fazer o mesmo. Fico imaginando o quanto as empresas sérias e organizadas não poderiam ajudar o futebol brasileiro. 

 

Imaginem, por exemplo, se os clubes de futebol fizessem uso de todos os recursos que a tecnologia hoje nos coloca à disposição. Analisar, avaliar, esquadrinhar o rendimento de cada jogador e da equipe como um todo traria aperfeiçoamentos que, sem dúvida, qualificaria ainda mais este nosso futebol pentacampeão.

 

Imaginem, também, os dirigentes de cada clube se debruçando sobre um planejamento estratégico não só de curto prazo, mas também de médio e longo prazo, como faz toda empresa competente. Feito isso, então se reuniriam com dirigentes de outros clubes para traçarem planos e projetos comuns para o bem do futebol e proporem políticas para a administração de um futebol verdadeiramente profissional.

 

E finalmente, imaginem cada clube, cada federação, juntamente com a Confederação Brasileira de Futebol, envolvidos com as questões que hoje sensibilizam e preocupam nossas melhores empresas, todos reunidos, buscando aprimorar suas posturas éticas e discutindo suas responsabilidades sociais, contribuindo para o fortalecimento das instituições e, desta forma, valorizando nossa sociedade.  

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br