Universidade do Futebol

Eduardo Fantato

21/08/2012

Tecnologia, só, não faz verão

Passado esse momento olímpico cria-se um espaço de debate, críticas e reflexões sobre o investimento no esporte, modelos de gestão de federações e análises do desempenho esportivo.

Sabemos que esses ciclos olímpicos muito têm a contribuir com o estudo das ciências do esporte, pois sempre surgem novos paradigmas a respeito de uma diversidade de aspectos, seja no treinamento, seja nos equipamentos, nos movimentos de competição, enfim, novidades sempre são apresentadas, ainda que demorem um pouco para serem percebidas e analisadas com profundidade.

Entre os temas discutidos estão o direcionamento dos recursos ao intercâmbio de atletas, o investimento em técnicos estrangeiros, centros de excelência esportiva e até um instituto de formação de técnicos. Enfim, vários temas recorrentes em nossas discussões sobre melhorias que podem chegar ao nosso universo do futebol também.

Entre tantos assuntos e temas que ganham projeção nesse momento julgo que um merece uma análise neste espaço. Um argumento que me chamou atenção em um evento logo após o término dos jogos, que se apresentava mais ou menos desta forma:

“O Brasil está anos luz atrás em termos de tecnologia dos outros países, é complicado competir em igualdade de condições”.

É importante nesse ponto verificar que é uma situação muito similar ao discurso que tem permeado o universo do futebol. Os resultados, principalmente em termos de seleção brasileira, estão cada vez mais contestados, questiona-se a falta de atletas de ponta (não se acham mais craques no futebol brasileiro, dizem muitos); é como se o nosso futebol tivesse parado no tempo.

Pois bem, voltando ao momento olímpico, de fato, a tecnologia colocada à disposição para os outros países contribui e bastante para uma diferença de desempenho. Porém, não podemos esquecer o conceito mister do que é tecnologia. Conceito este que já abordamos por algumas vezes, no qual entendemos que tecnologia é recurso e processo.

Assim, não importa ficar discutindo se os milhões investidos no esporte foram ou não suficientes, mas como eles foram investidos. É caro investir em equipamentos de ponta?

Sim, ainda mais se pensarmos em uma federação de boxe, nos recursos que, com certeza, são bem mais limitados do que os recursos alocados para o centro de treinamento da seleção de vôlei.

Porém, será que não existem fases de treinamentos e equipamentos comuns às diferentes modalidades que compõem o programa olímpico? O mesmo se aplica ao futebol, não existe forma de compartilhar estrutura para buscar melhores desempenhos?

E o mais importante é discutir como capacitar as pessoas para tirar proveito desses recursos tecnológicos. De nada adianta investir em equipamento, estrutura de centro de treinamento, coisa que os clubes brasileiros já têm feito, mas é importante dar um passo à frente. Quem opera esses centros? Quem cobra resultados? (não de jogo, mas de projetos, de análises) Quem administra? Afinal, quem lida com o processo tecnológico?

Faltam recursos humanos competentes?

Não acredito nisso. Temos cientistas do esporte espalhados pelo Brasil desenvolvendo importantes trabalhos nos seios da universidade; temos profissionais formando e influenciando novas gerações de profissionais do esporte.

É preciso nesse momento entender que tecnologia precisa de pessoas com competência de operá-las e, sobretudo, de transformar sua utilização em ações práticas.

E o investimento deve ser nesse sentido, de capacitar pessoas para agir no processo tecnológico vinculado à ciência do esporte.

Quando este momento chegar, os clubes disputarão os “direitos federativos” deste profissional que se destaca na competência de operar e transformar os recursos tecnológicos em desempenho. Esses, muitas vezes, serão os craques por detrás do campo.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br 

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