Universidade do Futebol

NF-FMH

05/08/2013

Teoria e prática no futebol

Segunda-feira, 11 de Março 2013, 17h, Salão Nobre e Anfiteatro 1 irrompem em aplausos após o término do Colóquio "Teoria e Prática no Futebol". Numa operação não antes vista no recinto da nossa faculdade, o Núcleo de Futebol conseguiu encher os dois principais auditórios da FMH com participantes desejosos de assistir ao acontecimento.

A unicidade deste colóquio é claramente perceptível pois a presença de um treinador com um reconhecido mérito profissional na sua área, com mais de 30 anos de experiência no terreno. Esta permitiu que se potenciasse o estreitamento das distâncias existentes entre teoria e prática e que muito podem beneficiar o futuro do futebol português.

Nesta fase da nossa aprendizagem é reconhecidamente importante todo o conhecimento acadêmico fornecido nesta casa, ao mesmo tempo que todas estas acções que nos permitam obter um mais vasto conhecimento da prática vigente, para mais no alto-rendimento, que nos permitam utilizar o pensamento crítico próprio de alunos do ensino superior de forma a tornarmo-nos melhores profissionais no futuro.

A organização que excedeu claramente as expectativas, dos organizadores, intervenientes e os órgãos de gestão da Faculdade de Motricidade Humana tiveram a coragem e a visão de neste desafio abrirem as portas à sociedade civil permitindo que os alunos pudessem aprender com os ensinamentos de alguém de fora, pois "o saber e o conhecimento devem ser universais, e não importa que sejam transmitidos pela experiência da prática, ou pela experiência da teoria". (Vítor Serpa no Jornal "A Bola", 12-3-2013)

Pessoa, F. (1988-1935) afirma: "Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama "teórico" a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar – isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma maneira de não saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra"

Esta necessidade justifica, mesmo não sendo necessária, a presença de Jorge Jesus na FMH que teve o pontapé de saída na afirmação de Manuel Sérgio: "que os treinos de Jorge Jesus são modelares e deviam ser ensinados na Universidade".

Com uma frase inicial marcante: "Também comigo tudo começou num sonho" Jesus, conseguiu desta forma, se necessário fosse, envolver a audiência e redobrou as atenções que sobre ele caiam, dos mais de 350 participantes.

Para Jesus o treinador deve ser capaz de cumprir cinco princípios, "Criatividade", "Saber Operacionalizar", "Liderança", "Organização" e "Paixão". A importância de cada princípio é ímpar mas indissociável dos restantes.

Após este período inicial onde Jesus entreabriu a porta à sua forma de viver o treino e a profissão, sucedeu-se um debate de ideias entre os espectadores e o próprio, respondendo às perguntas que lhe eram colocadas.

Uma questão sempre pertinente no âmbito do treino é a organização das estruturas de treino, e como o treinador as deverá conciliar para tirar o melhor rendimento dos atletas. Se nos domínios das modalidades individuais essa questão parece não apresentar grandes dúvidas, os Jogos Desportivos Colectivos apresentam um diferente paradigma com Jesus a afirmar que não utiliza um padrão claramente definido e que o acompanha ao longo da época ou adaptado a certos períodos da mesma.

Interessa realçar a sua referência ao diagnóstico permanente feito durante a operacionalização e nos momentos de reflexão diários que vai no sentido contrário ao preconizado pela periodização tática que defende uma padronização do microciclo. O seu comportamento adapta-se aos sinais do envolvimento, emergindo em função do contexto que diagnostica.

A dúvida que reside e lançamos à discussão são os indicadores que o experiente treinador utiliza para observar o que é necessário mudar nos processos da sua equipa. O treinador defende a adaptação dos jogadores à sua ideia de jogo e a não plasticidade do líder aos jogadores que tem à sua disposição. Mudando a perspetiva, Jorge Jesus tem nas suas convicções o modelo de jogo como a grande orientação para o seu trabalho e há uma sobreposição do coletivo ao individual.

Neste sentido, será adequado, no alto rendimento actual, falar-se de cansaço físico, mais evidente nos períodos de maior densidade competitiva? Para Jesus, esse conceito de cansaço físico não faz sentido pois um menor rendimento competitivo está maioritariamente associado a uma insuficiente interpretação táctica das ideias do treinador, do que propriamente associado ao desgaste físico.

Será então mais pertinente associar um menor desempenho a um desgaste e um cansaço emocional e psicológico que dificultará a tomada de decisão acertada, e por consequentemente obrigar o jogador a correr mais para compensar esse erro posicional? E se assim o é, qual a necessidade de utilizar os cardiofrequencímetros ou medidores da concentração da enzima CK, como Jorge Jesus referiu utilizar?

Muitos treinadores passam a ideia destes factores fisiológicos serem essenciais na sua preparação da equipa, quer na pré-época, quer na gestão da equipa ao longo do período competitivo, reforçando os aspectos físicos com cargas intensas em determinados períodos da época, para rentabilizarem ao máximo as condicionantes físicas em períodos competitivos que consideram essenciais?

Outros, como José Mourinho, passam para o exterior a ideia de que estes factores fisiológicos não terão a importância que lhes é dada nos desportos individuais, e o trabalho é predominantemente tático.

Serão estas visões tão afastadas que para uma para estar correta, a outra deverá estar certamente errada? Não deveremos ter uma visão abrangente em que todos os fatores dependem e interagem de forma dinâmica uns com os outros? Não terá um jogador bem psicologicamente, maior capacidade de resistir ao desgaste físico acumulado? E um jogador que se encontra melhor fisicamente, não estará capacitado a decidir melhor?

É importante, sem dúvida ter dados teóricos e práticos que sustentem a nossa visão, mas esta deverá ser coerente com o pensamento crítico e reflexivo que deveremos ter em cada momento da nossa vivência do treino, para evoluirmos no pensamento e na ação, a cada dia que passa.

Mas, não só no treino é essencial que o treinador seja competente, pois nos dias de hoje, os deveres deste abrangem muito mais que o "simples" planeamento e operacionalização das unidades de treino. Respondendo a uma pergunta sobre a venda de jogadores, Jesus é peremptório: "Não decido, mas tenho uma palavra a dizer", sugerindo que o papel do treinador na realidade apresentada é de conselheiro técnico nas transferências, sendo esta a etapa final do percurso do atleta no clube.

Este percurso começa ainda antes do ingresso do atleta no clube, a sua contratação tem dedo do responsável técnico, não foi clarificado no debate qual a sua influência nas aquisições dos jogadores contudo a sua visão sobre a detecção de talentos foi explicita: "Se tem condições técnicas e físicas, é possível torna-los excelentes para uma posição especifica" dando o exemplo
de Coentrão e Melgarejo.

Esta afirmação obriga-nos a refletir sobre a verdadeiro significado da capacidade técnico-táctica e da constante interdependência sugeria por vários autores, bem como o papel do treinador tem numa fase avançada, chegada à elite, do processo formativo do atleta alterar esta característica.

O conhecimento tático define-se por conhecimento em acção e este sugere a resposta do treinador do Benfica é passível de ser modificável em treino.

A preparação psicológica do atleta apesar de não ser referida é um indicador de avaliação determinante para a seleção de atletas para a elite.

Além da reflexão sobre detecção de talentos também esta resposta nos transporta para a análise dos modelos organizacionais do clube e das lógicas hierárquicas internas, as quais não foram referidas, mas que são interessantes de serem refletidas por todos. Os modelos de gestão dos clubes de futebol a cada dia que passam se assemelham as lógicas empresariais, sugerindo que é inevitável um treinador de alto rendimento se encontrar a trabalhar no vértice estratégico da organização.

Isto mesmo é confirmado pelo treinador quando afirma: "Quando falo com um presidente pergunto se está a procura de um treinador para a estrutura ou um treinador que pense a estrutura. Se quer um treinador para a estrutura, nem falo em valores, eu não sou quem procura!" Este tipo de responsabilidades, ultrapassam em larga escala a responsabilidade de operacionalizar o processo treino, dando significado à famosa frase do Prof. Manuel Sérgio "Quem só sabe de futebol, de futebol nada sabe” e sugerindo assim que mais que treinador, Jesus considerado o seu papel de CEO do clube, numa analogia com as lógicas empresariais.

Esta reflexão sugere-nos que o treinador trata-se de um indivíduo com uma formação multidisciplinar e capaz de executar várias tarefas, sendo por excelência o gestor de vários processos que ocorrem em simultâneo e que são de igual importância para o rendimento coletivo ser alcançado.

Assim, não existe um caminho certo para que o sonho se torne real. O necessário é não matá-lo, mas sim revitalizá-lo a cada dia, a cada sessão de treino que passa, com o pensamento crítico abrangente e reflexivo que permitirá, independentemente do caminho que levou para o alcançar, atingir o patamar de sucesso que um dia sonhou.

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