Universidade do Futebol

Entrevistas

02/06/2017

Thais Toledo – profissional do serviço social

Com a missão de fazer o meio de campo entre os profissionais envolvidos no dia a dia de um clube, o serviço social pode contribuir não apenas com um ambiente de trabalho mais saudável, mas também com a melhora de desempenho dentro de campo.

Thais Toledo é formada em serviço social além de ter concluído duas pós-graduações, em mediação transformativa de conflitos e em sociopsicologia. Trabalhou por oito anos no Palmeiras, em três diferentes cargos. A conversa com a experiente profissional girou em torno da luta do serviço social por mais espaço dentro do esporte, sua importância para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes e o papel da área na melhora do rendimento esportivo.

Universidade do Futebol – Qual a sua relação pessoal e profissional com o futebol?

Thais Toledo – Há dez anos trabalho diretamente com o esporte. Me formei e atuei no serviço social na área de empresas e fui para o futebol por uma questão de curiosidade. Pensei: nossa, o que será que dá para fazer no meio esportivo? Quando entrei no meio ficou evidente que o futebol é uma parte do contexto da sociedade e que lá estão presentes todos os fatores sociais, questões de desigualdade e de estrutura que enxergamos fora dele. Para mim foi um aprendizado muito grande: trabalhei por oito anos e meio no Palmeiras, de 2006 a 2015, convivi com grandes profissionais de diversas áreas, desenvolvi um trabalho com diferentes frentes de intervenção. Iniciei como assistente social, depois exerci a função de coordenação de alojamentos e posteriormente fui para a gestão de projetos sociais; tive diversas experiências em uma mesma instituição. Quando saí, em 2015, abri uma empresa, a Acessoss, com a intenção de conseguir levar a transformação para o maior número de ambientes possível dentro do esporte. Cheguei à conclusão que se ficasse dentro de uma instituição não teria um alcance tão significativo quanto trabalhando como consultora. Hoje, vendo alguns serviços, todos relacionados a educação social e sistêmica, tendo como carro chefe o serviço social.

Universidade do Futebol – Você entende que pode haver conflitos entre uma formação mais humana do atleta de futebol e as exigências do alto rendimento profissional?

Thais Toledo – Sim, pode haver um conflito enorme aí nessa relação. É para isso, inclusive, que existem intervenções do profissional do serviço social e de outros atores que têm como objetivo equilibrar esses fatores no sentido de garantir direitos e um desenvolvimento integral que acaba, consequentemente, contribuindo para um rendimento satisfatório. Em nossa perspectiva, não é que a gente vá contra o esporte de rendimento; ao contrário, é que o nosso foco está no indivíduo. Seja ele o adolescente ou o profissional dentro do esporte que busca o resultado. Quando ele está equilibrado, tem seus direitos garantidos, está sendo desenvolvido em todas as frentes necessárias, acaba rendendo melhor também.

Universidade do Futebol – Qual o espaço do profissional do serviço social dentro dos clubes de futebol atualmente? Eles, em sua maioria, contam com profissionais dessa área?

Thais Toledo – Já existe um espaço interessante e significativo dentro do esporte, mas quando falo esporte é mais em relação ao futebol. Nas demais modalidades ainda temos muito a conquistar. Com relação ao futebol não posso falar que é a maioria. Se formos considerar todos os clubes existentes, a minoria conta com profissionais da área do serviço social. Os considerados grandes, aqueles que têm mais dinheiro, visibilidade e condições de se preocupar com o que tem que ser feito de melhor, esses já têm um profissional do serviço social. Eles já se conscientizaram de que o serviço social pode contribuir para a relação, fazendo a mediação entre a família, o atleta e a comunidade da melhor maneira.

Porém, vejo que quem mais precisaria da atenção do profissional do serviço social para equilibrar esses fatores seriam os clubes menores. Aqueles que não têm dinheiro, visibilidade, nem grandes profissionais no sentido da consciência ética, esportiva e de desenvolvimento e também onde as violações de direitos ocorrem com maior frequência.

Então, respondendo à pergunta, se a gente pensar nos clubes maiores, a maioria hoje tem o profissional do serviço social e já entendeu sua importância na relação de mediação dentro e fora do clube. Porém, nos menores, que seriam aqueles mais carentes de atenção, ainda não conquistamos esse espaço.

Universidade do Futebol – Qual o papel do serviço social para o desenvolvimento do futebol brasileiro?

Thais Toledo – Uma questão bem complexa que vou tentar simplificar: o serviço social vem com a valorização do indivíduo em primeiro lugar. Antes de falarmos do desenvolvimento do atleta precisamos falar do adolescente, do indivíduo que existe antes do atleta. A gente tem essa visão de desenvolvimento integral, no sentido de garantir todos os direitos, e não só isso: o papel do serviço social no esporte está muito ligado à mediação das relações existentes naquele ambiente. Quais seriam essas relações? Do adolescente com a escola, com a instituição, comissão técnica, comunidade, família. Relações que fazem parte do desenvolvimento dele. Quando damos atenção responsável para todos os atores presentes nesse ambiente potencializamos o desempenho do indivíduo/atleta.

Universidade do Futebol – Como o profissional do serviço social pode, imaginando um ambiente interdisciplinar como o ideal dentro de um clube, colaborar para a integração de sua equipe de trabalho?

Thais Toledo – Em primeiro lugar, o serviço social tem como princípios fundamentais a autonomia e a emancipação do sujeito, que são sua capacidade de ser responsável por sua própria história. Por sujeito entenda todas as pessoas envolvidas naquele espaço e todas as influências dele ou nele, falando de futebol, mesmo que a maioria das pessoas acredite que estamos ali pelo atleta, na verdade é também pela boa relação e pelo conceito de direito referente a todos, desde o funcionário que trabalha com o atleta, a pessoa que cozinha para ele, o treinador, a psicóloga, o nutricionista. Quando digo que o profissional tem papel de mediador, isso abrange toda a instituição, reconhecendo o que cada indivíduo tem de potencial para ajudar no objetivo comum e o trabalho dentro dessa perspectiva de inclusão, desenvolvendo um movimento positivo dentro da instituição para facilitar um resultado com uma consequência sistêmica. Estamos em uma luta muito forte para que isso aconteça futuramente. Trabalhamos muito na maioria das instituições de maneira multidisciplinar, caminhando para o interdisciplinar. Se tivermos o foco sistêmico, entendendo a importância de cada um para que se atinja o objetivo final, daremos um grande passo para a formação integral do atleta.

Não dá para eu fazer o meu papel com responsabilidade se não levar em consideração todos os profissionais envolvidos no trabalho. Temos que sair daquela postura de julgamento. Ainda vejo bastante isso acontecer, um apontando os erros dos outros. Temos que sair desse papel de julgador e compreender o indivíduo que está por trás daquele profissional, buscar o potencial que ele tem e sua importância no processo. Usar uma abordagem mais relacionada à visão positiva do processo, fazendo com que todos entrem na engrenagem, ou seja, fortalecer essas relações, promover espaços de reflexão e intervenção que estimule a quebra de paradigma e a construção de saberes coletivos. Ter uma visão macro do processo para que a luta seja pelo todo, indivíduo, família, relações, comunidade e sociedade.

pergunta 5 - Interdisciplinar

Universidade do Futebol – O que é imprescindível garantir, legalmente, na formação dos jovens atletas?

Thais Toledo – Hoje é preciso garantir os direitos fundamentais. Se o clube tira o jogador da residência, ele vira corresponsável por aquele adolescente. Logo, tem de garantir todos os direitos previstos e dividir isso com os pais. Falo dividir pois não podemos isentar a família: tem de existir uma união que faça bem ao atleta, correspondendo da melhor forma na garantia do que é necessário para o melhor desenvolvimento dele.

Essas garantias seriam: educação, saúde, cultura, lazer, segurança, tudo o que a família teria que prover e passa a ser responsabilidade também do clube. Principalmente para os que trazem o atleta para morar em seus alojamentos. Quando falamos de garantia de direitos, falamos de forma ampla. Por exemplo: educação não significa matricular o jogador na escola, isso não é garantir um direito. Garantir educação é muito mais do que isso, é fazer um acompanhamento, assistir esse atleta o mais próximo possível para conseguir promover ações, fazendo com que ele seja capaz de ter um resultado significativo, seja em frequência ou desempenho. Vai muito além do papel.

Universidade do Futebol – Quando você fala em direitos fundamentais se baseia em quais leis ou normas?

Thais Toledo – Os direitos fundamentais são os direitos básicos individuais sociais, políticos e jurídicos, bem como a liberdade, igualdade, a educação, saúde, segurança, lazer…Temos que começar pelas diretrizes principais: Constituição, ECA, Diretriz de Base da Educação, Lei Pelé… em São Paulo existe uma lei especifica, que é a 13.748, que fala da educação de jovens atletas, sua frequência e desempenho, e aí existem algumas brechas. Para ilustrar, não há uma lei específica para o alojamento de atletas, então temos de usar do bom senso para articular quais são as melhores leis para garantir o direito e bem estar dentro do alojamento. Podemos considerar várias leis que se conversam e que podem fazer sentido para o universo esportivo. Falando de alojamento, qual lei existe sobre isso? Pode não ser sobre alojamento de atletas, mas já temos um norte, que é a NR 24, que fala sobre alojamentos. Que outra fala sobre alojamento de adolescentes? A responsabilidade do serviço social é essa: fazer esse apanhado, relacionar as leis para encontrar meios de garantir os direitos da melhor forma e buscar junto ao clube práticas responsáveis.

Pergunta 7 - leis

Universidade do Futebol – Essas obrigações são cumpridas?

Thais Toledo – Hoje, em grande parte, elas são cumpridas quando se trata dos grandes clubes que mencionei anteriormente. São clubes que têm fiscalização do Ministério Público, do Ministério do Trabalho e em alguns casos das federações por conta do certificado de clube formador, o qual os clubes buscam certificação. O próprio certificado já tem uma exigência com relação a boas práticas, inclusive algumas mencionadas como nas leis, o que facilita muito, mas a maioria hoje não o tem. Logo, ainda temos um trabalho árduo. Quando falamos de responsabilidade social, falamos de uma questão moral e ética, do esporte na sociedade. As etapas ou fases da responsabilidade social existentes nos ambientes de formação são as legais, econômicas e éticas. Vejo que o esporte ainda está no contexto da responsabilidade legal, que seria fazer o que deve ser feito por conta da fiscalização, ou na econômica, que seria fazer o que deve ser feito para ter um melhor resultado. Para mim isso não é ruim. Pensando em evolução ética e das condutas morais isso é um avanço. Saímos da responsabilidade legal e vamos para a econômica, e aí começa a haver um entendimento de que não vou fazer porque sou obrigado e sim porque vou ter melhores resultados. Acho que a gente caminha para uma próxima etapa, que seria a responsabilidade ética e futuramente discricionária, ou seja, fazer porque é o melhor para todos – seja para o individuo, para o esporte e para o ambiente social.

Pergunta 8 - Planejamento

Universidade do Futebol – Falando ainda de Brasil, o contexto de formação de jogadores e de jogadoras é bem diferente, dada a realidade também muito distinta entre os níveis profissionais dos ambientes competitivos para os dois gêneros. Quais as principais características e as demandas sociais nesses dois ambientes?

Thais Toledo – É fato. Concordo com a afirmação, mas não tive ainda a oportunidade de trabalhar no contexto feminino. Li a respeito e tive contato indireto com essa realidade, e é evidente que existe a diferença. Hoje, no masculino existe pelo menos a preocupação de garantir os direitos. No feminino o que percebo é que não existe o mínimo de garantias. Acho que é preciso haver movimentos. A gente pode estar se renovando nesse sentido, mas a luta é muito árdua. O feminino está muito atrás do masculino, e eu não tenho dúvida disso.

Mas, acredito que com a nova exigência do licenciamento, quanto aos clubes precisarem ter equipes femininas, é uma diretriz importante que irá contribuir para o crescimento da modalidade, bem como uma dedicação maior com relação a organização desta prática.

Universidade do Futebol – Como mensurar um bom trabalho de formação dentro da perspectiva social?

Thais Toledo – Um bom trabalho de formação é aquele que prioriza o desenvolvimento integral e sua relação com a sociedade. Nos aspectos físicos, intelectuais, emocionais, sociais, simbólicos, que são as representações presentes nesse meio esportivo e acabam influenciando o adolescente. Acredito também na autonomia como parte dessa leitura e investigação. Autonomia no sentido de dar voz e de entender que para construir algo bom para alguém esse indivíduo tem que estar inserido nas decisões. Gosto muito de trabalhar com construção coletiva. Se estamos falando de atleta, propondo o que é melhor para ele, então ele deve participar dessa construção. Nos clubes que atendo e nos ambientes em que tenho oportunidade de intervenção, uma das minhas principais frentes de trabalho é a colaboração. Não tem como pensar no que é melhor para um indivíduo sem envolvê-lo, sem envolver sua família e todos os atores que estão ali naquele ambiente. Então, além de dar atenção a todos os aspectos do desenvolvimento integral, é preciso incluir o jogador nesse processo.

Pergunta 10 - Envolver os atletas

Universidade do Futebol – Como você percebe que o trabalho está dando certo?

Thais Toledo – Percebo que está dando certo quando vejo a redução do impacto negativo. Quando vejo menos violência no esporte, atletas com decisões sábias, capazes não apenas de decidir por suas próprias vidas, mas de transformar ambientes. Quando vejo valores éticos sendo construídos e vivenciados nesses ambientes, seja pelos profissionais, seja pelos atletas. Acredito que esse seja o cenário positivo: quando é possível perceber que está acontecendo uma transformação, mesmo que pequena, mas que vai influenciar toda a cadeia, sendo benéfica para todos.

Universidade do Futebol -Atualmente, é possível convencer dirigentes de clubes e federações sobre a importância do investimento em um ambiente que favoreça o desenvolvimento integral dos jovens futebolistas, considerando os investimentos necessários?

Thais Toledo – Sim, sou muito otimista, acho que é possível e minha luta é essa. Claro, não é fácil, mas é possível. Acho que já teve uma mudança nos profissionais que trabalham com formação de atletas. Nos dez anos em que acompanho esse desenvolvimento, percebo que esses profissionais envolvidos na formação já melhoraram significativamente no que diz respeito à capacitação. Eles estão mais preparados para trabalhar com adolescentes, com formação. Isso já é um grande passo. Em relação aos dirigentes, já existem alguns com o olhar voltado para o desenvolvimento humano. Há dez anos isso era muito difícil de encontrar; atualmente, já faz parte do cotidiano.

Falando de investimento, tudo depende de como estamos trabalhando esse acesso. Como estamos levando a informação, fazendo o nosso trabalho com seriedade, se fazemos isso e trabalhamos coletivamente, com certeza eles entenderão o fundamento do trabalho. Como consequência, no futuro, a área só tende a crescer e conquistar mais espaços para que o trabalho seja mais completo.

Universidade do Futebol – Apesar de existirem exemplos de sucesso, a imigração de jovens futebolistas é um caso que merece atenção. A situação carece de uma discussão ampla com a definição de medidas e responsabilização pela violação dos diretos das crianças e adolescentes ao longo de todo o processo, iniciadas em pequenos clubes locais em países periféricos, mas que beneficia, entre outros, grandes equipes do futebol mundial como Barcelona e Real Madrid. Quais medidas ajudariam a solucionar essa questão?

Thais Toledo – Estamos falando de algo extremamente importante, mas ainda longe de nossa realidade. Não que o tema seja menos relevante e sim porque acho difícil pela longa estrada a percorrer. Em relação à garantia de direitos é necessário pensar no que é prioridade. Pensando em tudo que deve ser feito temos que escolher o que dá para fazer primeiro. Temos outras preocupações anteriores, como a responsabilidade com o adolescente que está no clube, no atleta que é dispensado e vai embora, e também com a comunidade. Então, é uma série de questões que a gente tem que colocar nos seus devidos degraus. Por exemplo: temos um movimento de clubes que querem reduzir a idade do jogador que é alojado. Você entende o que quero dizer? Então, como vou pensar em algo tão grande se uma coisa tão simples ainda está difícil de se cumprir? Se eu ainda tenho clubes que fazem de conta que não alojam atletas menores de 14 anos e pagam pensões, ou o que eles chamam de “mães sociais”, escondidos, para colocar garotos de dez, 12 anos, para residir sob a responsabilidade “de ninguém”? Tem muita coisa a se fazer, mas tenho que garantir primeiramente a segurança, educação, saúde, o mínimo de convivência familiar.

*Revisão: Guilherme Costa

Comentários

  1. O serviço social no esporte e, pelo alcance proporcionado em nossa sociedade, no futebol, é de extrema importância. Não só em relação as garantias aos direitos fundamentais, mas também ao desenvolvimento humano do atleta. Sim..o atleta não é um outro ser que não seja um ser humano como outro qualquer, que possui direitos e deveres, e necessita de condições para se desenvolver. Assim..a atividade de serviço social é muito mais que assistencialista, é estratégico. O jovem atleta mais educado, melhor informado e autonomo em suas decisões, será um cidadão consciente e um profissional competente. Parabéns a Thais Toledo, e a todos(as) que atuam no serviço social do esporte.

  2. Natália Merci da Silva disse:

    Mais do que nunca o serviço social no esporte se faz necessário para a garantia do pleno desenvolvimento da criança e adolescente na formação esportiva, trazer para o futebol discussões e preocupações que ultrapassam as quatro linhas é fazer do esporte algo responsável e completo! É desenvolver um atleta mais consciente e protagonista da sua própria história
    Não posso deixar de parabenizar a Thais Toledo e todas as minhas colegas da área.

  3. A área social ajuda e contribui na formação do atleta porque podemos conhecer do atleta como vive com quem se relaciona como vai os seus estudos quer dizer uma serie de aspeto que vai de encontro com a formação correta do jovem atleta e o mais importante dentro das dimensões no futebol e a parte cognitiva o pensar o ser inteligente temos que ter o nosso atleta para o treino e jogo bem predisposto então as áreas sociais pedagógica psicopedagógica psicossocial com os treinos e jogos não podem estar aislados separados tem que estar em mutuo relacionamento na formação do homem e atleta.

  4. audrey O de souza disse:

    Precisamos de contribuições dos profissionais que já estão atuando para academia urgentemente!!!!!!!!!

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