Universidade do Futebol

Entrevistas

28/11/2014

Thiago de Sá, pesquisador da USP

A diminuição, ao longo do tempo, da quantidade de jovens talentos que vemos nos gramados do principal campeonato do país ou nas seleções brasileiras das diversas categorias ganhou mais uma explicação contundente para este cenário: menos brasileiros estão jogando futebol.

É o que mostra uma pesquisa do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS), da USP, com dados do VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas), um questionário anual produzido pelo Ministério da Saúde.

Entre os anos de 2006 e 2012, o número de praticantes de futebol caiu de 9,1% para 7,2% entre a população adulta e foi ultrapassado pela quantidade dos adeptos da musculação/ginástica, que cresceu de 7,9% para 11%. Em primeiro lugar no ranking continuou a caminhada, com 18%.

O doutorando Thiago Hérick de Sá, integrante do NUPENS e um dos autores do estudo, aponta que a diminuição de espaços adequados para o esporte, a falta de tempo e de companhia para realizar a prática são algumas das hipóteses para explicar a queda de 2% entre praticantes de futebol.

“Esta diminuição é consequência da recente intensificação de um processo de urbanização baseado no privilégio para carros e especulação imobiliária nas capitais brasileiras. Esta lógica também contribui para reduzir o tempo livre para o lazer, os espaços de convívio social e do senso de comunidade, o que dificulta a organização de qualquer atividade de lazer envolvendo, pelo menos, dez pessoas, como no caso do futsal”, afirma em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Para o pesquisador, enxergar a modalidade apenas sob o ponto de vista mercadológico ou de alto rendimento, desconsiderando a importância cultural e social da prática do futebol, gerou também certamente um impacto negativo nos números apresentados na pesquisa.

“É no mínimo um contrassenso que tenhamos encontrado estas tendências de redução do futebol nos anos que antecederam a Copa realizada aqui mesmo no Brasil e temo que algo não muito diferente aconteça agora com as Olimpíadas. Sem uma Política Nacional de Atividade Física e Esporte, sem uma articulação intersetorial em torno desta matéria, pouco ou nada mudará nos próximos anos”, completa.

Nesta entrevista, Thiago de Sá ainda fala sobre como a carência de ídolos jogando no futebol brasileiro por um longo período e o distanciamento da seleção brasileira influencia neste cenário. Confira a íntegra:  

Universidade do Futebol – Explique os pilares da metodologia na estruturação da pesquisa, por favor.

Thiago de Sá – O estudo que realizamos sobre os principais tipos de atividade física praticados no lazer usou os dados obtidos pelo VIGITEL, que é um excelente sistema de vigilância do Ministério da Saúde para fatores de risco e proteção para as doenças crônicas não transmissíveis em todas as capitais brasileiras.

Este levantamento é feito por meio de entrevistas telefônicas e contempla questões sobre a atividade física. Nossa análise levou em conta os dados colhidos entre os anos de 2006 a 2012, totalizando uma amostra de aproximadamente 380 mil pessoas.

Houve uma queda no número de praticantes de futebol pois houve uma redução de espaços para prática deste esporte nas zonas urbanas, em virtude da diminuição dos campos de várzea, dos terrenos baldios ou desocupados e mesmo do uso da rua, afirma Thiago de Sá

Universidade do Futebol – Que fatores você apontaria como os principais causadores da expressiva redução na prática de futebol no período estudado?

Thiago de Sá – A principal hipótese com que trabalhamos é a redução de espaços para prática do futebol nas zonas urbanas, em virtude da diminuição dos campos de várzea, dos terrenos baldios ou desocupados e mesmo do uso da rua.

Esta diminuição é consequência da recente intensificação de um processo de urbanização baseado no privilégio para carros e especulação imobiliária nas capitais brasileiras.

Esta lógica também contribui para reduzir o tempo livre para o lazer, os espaços de convívio social e do senso de comunidade, o que dificulta a organização de qualquer atividade de lazer envolvendo, pelo menos, dez pessoas, como no caso do futsal.

Esta diminuição é consequência da recente intensificação de um processo de urbanização baseado no privilégio para carros e especulação imobiliária nas capitais brasileiras. Esta lógica também contribui para reduzir o tempo livre para o lazer, os espaços de convívio social e do senso de comunidade, o que dificulta a organização de qualquer atividade de lazer, contextualiza  

Universidade do Futebol – Em sua opinião, por que entre os principais tipos de práticas esportivas não estão outras modalidades como basquete ou vôlei, e sim caminhadas, corridas, musculação/ginástica e até hidroginástica?

Thiago de Sá – Em parte pelas mesmas razões apresentadas anteriormente para o futebol. Por serem atividades que demandam uma estrutura específica para a sua prática e um maior número de participantes, é necessário um esforço maior de articulação e gestão para a promoção destes tipos de atividade física, a começar pelos mais jovens.

E, sem dúvida, a falta de uma política nacional de esporte e atividade física contribui para este cenário [de migração das modalidades coletivas para as outras atividades citadas].

Entre os anos de 2006 e 2012, o número de praticantes de futebol caiu de 9,1% para 7,2% entre a população adulta e foi ultrapassado pela quantidade dos adeptos da musculação/ginástica, que cresceu de 7,9% para 11%. Em primeiro lugar no ranking continuou a caminhada, com 18%

Universidade do Futebol – Ao trocar o futebol e outras modalidades coletivas por academias e corridas (atividades de predominância individual) estamos privando as crianças de um convívio social através do esporte. Você acredita que isto pode ter impactos na formação dessas crianças?

Thiago de Sá – Infelizmente, o VIGITEL não traz dados específicos sobre as crianças, de modo que nosso estudo não as contempla. Entretanto, o convívio social também é importante para adultos e em sua formação como cidadãos. Embora sejam tipos individuais de atividade física, é possível socializar-se a partir deles, o que pode ser visto claramente nos inúmeros grupos de corrida espalhados pelo país.

O problema, acredito, não está na ‘fuga’ das pessoas para atividades mais individuais, mas sim à falta de diversidade de opções para a prática de atividade física de lazer. No Brasil, quase 80% de toda a atividade física de lazer é baseada em apenas três tipos: caminhada, ginástica/musculação e futebol.

Assim como variar uma alimentação de uma pessoa com diferentes comidas a faz mais saudável, precisamos de uma sociedade que pratique diversos tipos de atividade física.

O futebol, por ser uma atividade que demanda uma estrutura específica para a sua prática e um maior número de participantes, é necessário um esforço maior de articulação e gestão para a promoção destes tipos de atividade física, a começar pelos mais jovens, explica Thiago de Sá 

Universidade do Futebol – Muitas vezes, a discussão sobre a iniciação ao futebol é direcionada apenas para a necessidade de se formar novos "craques" para o alto rendimento, desconsiderando a importância cultural e social da prática do futebol no nosso país. Você acredita que isto gerou algum impacto nos números apresentados nesta pesquisa?

Thiago de Sá – Enxergar uma modalidade esportiva apenas sob o ponto de vista mercadológico ou de alto rendimento é certamente um tiro no pé, tanto para o país quanto para a própria modalidade. No caso do futebol, isto é ainda mais grave, pois ele é parte da alma do brasileiro, da construção da identidade de um povo e um patrimônio imaterial da nação.

É no mínimo um contrassenso que tenhamos encontrado estas tendências de redução do futebol nos anos que antecederam a Copa realizada aqui mesmo no Brasil e temo que algo não muito diferente aconteça agora com as Olimpíadas. Sem uma Política Nacional de Atividade Física e Esporte, sem uma articulação intersetorial em torno desta matéria, pouco ou nada mudará nos próximos anos.

A falta de uma política nacional de atividade física e do esporte repercute severamente não apenas no esporte e no lazer, mas também na educação, na saúde, no desenvolvimento social, na cultura, na integração nacional e na riqueza material de um país, aponta o pesquisador da USP

Universidade do Futebol – A carência de ídolos jogando no futebol brasileiro por um longo período e o distanciamento da seleção brasileira, com jogadores que atuam, em quase na sua totalidade, no exterior, contribui de alguma forma para que os jovens prefiram outras atividades atualmente?

Thiago de Sá – Ídolos nacionais em determinada modalidade servem como excelente oportunidade para sua promoção, embora a existência deles, por si só, não seja condição suficiente para que isto ocorra. O [tenista] Guga e tantos outros são exemplos claros disto. Além disso, o esporte não pode e não deve ser apenas um negócio, ele tem um papel muito maior do que este em uma sociedade.

Agora, mesmo se olharmos apenas sob o ponto de vista comercial, não parece muito inteligente no longo prazo sacrificar a paixão do torcedor e sua conexão com o esporte, pois ele acabará migrando para outros clubes, como já acontece com os clubes europeus no Brasil, para outras modalidades ou mesmo para outras formas de lazer.

Enxergar uma modalidade esportiva apenas sob o ponto de vista mercadológico ou de alto rendimento é certamente um tiro no pé, tanto para o país quanto para a própria modalidade. No caso do futebol, isto é ainda mais grave, pois ele é parte da alma do brasileiro, da construção da identidade de um povo e um patrimônio imaterial da nação, diz Thiago de Sá

Universidade do Futebol – É possível mensurar o quanto prejudica o futebol a falta de uma política nacional perene de promoção da atividade física e do esporte?

Thiago de Sá – Mensurar este prejuízo é difícil, embora tenhamos certeza que ele é enorme, infelizmente. A falta de uma política nacional de atividade física e do esporte repercute severamente não apenas no esporte e no lazer, mas também na educação, na saúde, no desenvolvimento social, na cultura, na integração nacional e na riqueza material de um país.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais as ações que poderiam ser tomadas para que os esportes coletivos, entre eles o futebol, voltem a ser as atividades físicas preferidas de crianças e jovens?

Thiago de Sá – Não acredito que tenhamos de trabalhar para que os esportes coletivos sejam os preferidos entre os brasileiros. O foco deve estar na diversificação das atividades físicas, para que crianças, jovens e adultos possam, em qualquer lugar do país, escolher entre o futebol, o vôlei, o judô, a canoagem, o frisbee, a dança afro, a peteca, o tai chi, a escalada, a bocha, enfim.

E isso só ocorrerá a partir da constituição de uma efetiva Política Nacional de Atividade Física e Esporte, envolvendo diversos órgãos ministeriais, movimentos sociais, escolas, unidades de saúde, entidades esportivas, e, por que não, um pacto federativo entre União, estados e municípios, como já acontece em outras esferas fundamentais para a sociedade, como a saúde.

A partir da massificação e de uma rede integrada, não só promoveremos a atividade física entre todos os brasileiros, da criança ao idoso, como também facilitaremos a identificação de talentos para o alto rendimento, a partir das vocações regionais do país.

O problema, acredito, não está na ‘fuga’ das pessoas para atividades mais individuais, mas sim à falta de diversidade de opções para a prática de atividade física de lazer. No Brasil, quase 80% de toda a atividade física de lazer é baseada em apenas três tipos: caminhada, ginástica/musculação e futebol, afirma

Universidade do Futebol – Tendo em vista a restrição de espaços públicos para a prática espontânea, qual a importância dos profissionais estarem capacitados para promover bons ambientes de aprendizagem para a prática do futebol nos dias de hoje?

Thiago de Sá – Promover bons ambientes de aprendizagem para a prática do futebol ou de quaisquer outros tipos de atividade física é dever de todos os profissionais envolvidos nestas ações. Não podemos, entretanto, nos contentarmos apenas com isto.

É necessário ir além, precisamos também nos envolver diretamente na luta para reverter as mudanças macro que tornam as cidades lugares piores para uma vida em comunidade, ativa e saudável.

 

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