Universidade do Futebol

Entrevistas

14/02/2014

Tiago Ribeiro, presidente do Estoril Praia

Já algum tempo que se tem a necessidade de um novo modelo de gestão dos clubes de futebol no Brasil para se resolver os muitos problemas existentes, entre eles, o endividamento do setor.

Enquanto na Europa, lugar que reúne os clubes mais ricos e com maior faturamento do mundo, é cada vez mais frequente a opção pela transformação dos clubes em empresas, no Brasil, o modelo associativo ainda é o que impera em todas as divisões profissionais.

E a diferença de se fazer a administração de um clube que funciona como uma sociedade comercial é que se tem mais autonomia para se realizar investimentos, além da preocupação com a saúde financeira da instituição, explica Tiago Ribeiro, presidente do Estoril Praia.

Primeiro brasileiro a presidir um clube na Europa, o executivo da Traffic, grupo que administra atualmente o Estoril, tornou o modesto time de Portugal em um caso de gestão eficiente de recursos.

Desde que assumiu a presidência da equipe, em janeiro de 2010, Tiago Ribeiro conseguiu alavancar as receitas de marketing e direitos de transmissão, além de atrair novos patrocinadores. Ainda sanou uma dívida de 4 milhões de euros, voltou à Primeira Divisão, e levou o clube à Liga Europa, fato inédito na história da agremiação.

“Eu acho que o futebol brasileiro tem passado por mudanças, mas ainda precisa de mais. É necessário encarar o futebol brasileiro como uma empresa . Não se pode deixar contaminar por questões políticas. Devemos separar o futebol profissional do clube, pois envolve emoção, mas não pode misturar . É preciso responsabilizar os dirigentes pelos resultados”, apontou em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

Com graduação em Direito e mestrado em Direito e Economia do Esporte, Tiago Ribeiro tem apostado no marketing para conseguir a reconstrução da marca Estoril na comunidade do futebol local. Segundo ele, o nome da cidade ainda é famoso por outros esportes, como Fórmula 1 e golfe.

“No Brasil, ainda se faz gestão por paixão. Mas, é uma hipocrisia dizer que dirigente esportivo não pode ganhar dinheiro, não pode ser remunerado. Se um diretor de uma empresa tem direito a remuneração, a bônus por lucros, porque um dirigente esportivo não pode?”, questiona.

Nesta entrevista, concedida diretamente de Portugal, Tiago Ribeiro ainda falou sobre como funciona a gestão do estádio Coimbra da Mota e porque apostou no técnico Marco Silva para a equipe profissional do Estoril. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Quais são as principais funções de um presidente de um clube como o Estoril? Ela é igual a um grande clube ou tem diferentes demandas, por exemplo? Por favor, nos fale um pouco como é o seu cotidiano no clube, desde a sua chegada à sede até a parte executiva do trabalho?

Tiago Ribeiro – A minha função na presidência do Estoril é de coordenação de todo o projeto esportivo e de toda a área administrativa. Participo de assuntos ligados ao planejamento futuros, definições de orçamento, etc. E todas essas decisões são tomadas com o apoio da Traffic.

Também participo dos processos de avaliação e contratação de jogadores, além de definições da nossa estratégia na parte técnica, sempre estou em contato com a comissão técnica do clube. Todas essas responsabilidades estão sob o meus cuidados.

Além disso, desenvolvo todas as relações institucionais do Estoril, represento a entidade perante todos os nichos e públicos que o clube tem uma relação de forma oficial. Então, faço as relações com a Liga, patrocinadores, televisão, prefeitura, enfim. Somado a isso, é preciso também estabelecer uma interação com as pessoas do próprio clube, associados, etc.

Então, de uma forma geral como presidente, ou você lidera determinadas ações, delegando alguém para realizá-las, ou executa as tarefas diretamente. São muitos pontos, muitas variáveis que fazem parte da nossa rotina de trabalho. A gestão de um clube de futebol passa por uma série de assuntos: orçamentos, resultados, investimentos, e tudo isso não tem grande diferença entre exercer a presidência de um clube maior. Talvez, com menores valores, menos pressão de torcida e da mídia, mas o trabalho é o mesmo. O que muda é a proporção, a exposição midiática, e a cobrança.

Primeiro brasileiro a presidir um clube na Europa, Tiago Ribeiro é também executivo da Traffic, grupo de marketing esportivo no Brasil e que administra atualmente o Estoril

 

Universidade do Futebol – Quais são as principais metas da sua administração?

Tiago Ribeiro – A principal meta quando assumi a presidência era estabilizar o clube financeiramente. Era equilibrar as contas, reduzir gastos, aumentar receitas, e tratar do passivo . E conseguimos. Tivemos um incentivo nas receitas, um orçamento maior.

Na parte esportiva, o maior objetivo era subir para a Primeira Divisão, o que alcançamos na terceira temporada. Apesar de ter conquistado uma vaga na Liga Europa, não era o nosso objetivo. A meta era consolidar o Estoril na Primeira Divisão, manter a nossa filosofia de jogo e aumentar o nosso patamar de negócios.

O gestor brasileiro conseguiu sanar uma dívida de 4 milhões de euros, levou o clube à Primeira Divisão no seu terceiro ano de gestão, e viu o time chegar à Liga Europa, fato inédito na história do Estoril

Universidade do Futebol – Em Portugal, há um modelo de gestão consolidado que eles chamam de SAD (Sociedade Anônima Desportiva), na qual os clubes funcionam como uma sociedade comercial, podem ter capitais abertos na bolsa de valores, entre outras coisas. Com isso, quais são as principais diferenças que se tem em relação à administração de clubes que ainda funcionam somente como associações, como é atualmente no Brasil?

Tiago Ribeiro – Veja, aqui em Portugal não é obrigatório os clubes serem uma SAD. O Estoril não era o único clube a não ser uma sociedade comercial. E ainda há equipes que não fizeram essa mudança. E a diferença é a forma de gestão. Quando o clube adota esse modelo de administração, não depende de processos associativos, como eleição, aprovação de projetos, etc.

Funciona como uma empresa, tem um conselho de administração, e eu sou presidente desse conselho eleito em assembleia geral pelos acionistas. Eu sou um executivo remunerado, não sou presidente eleito como acontece no Brasil.

Então, como associação, você ainda está sujeito a todas as mudanças de política, questões de conselho, de eleição, você acaba tendo limitações até na esfera comercial, em minha opinião.

Hoje em dia, a gestão profissional é essencial. Os clubes que estão no modelo associativo têm de ter uma gestão profissional. Acho que o clube não pode abdicar de títulos, mas não pode deixar de lado a saúde financeira também.

Apesar de ter conquistado uma vaga na Liga Europa, esse não era o nosso objetivo. A meta era consolidar o Estoril na Primeira Divisão, manter a nossa filosofia de jogo e aumentar o nosso patamar de negócios, explica Tiago Ribeiro

Universidade do Futebol – Quais são as principais fontes de receitas do clube atualmente? E qual o planejamento de marketing para o curto e médio prazo para incrementar as receitas?

Tiago Ribeiro – O clube consegue gerar inúmeras frentes de receitas: televisão, patrimônio, publicidade, etc. No Estoril, no entanto, a principal receita é com os direitos de transmissão. Em seguida, os valores com o patrocínio, e depois, com as negociações de jogadores.

Já as receitas de bilheteria ainda são baixas se comparadas a estas outras fontes. Alguns prêmios desportivos também, às vezes, acabam gerando quantias importantes.

E, dentro desse cenário, o marketing é fundamental. Estamos passando por um momento de reconstrução da marca Estoril. O nome Estoril ainda é famoso por outros motivos, como Fórmula 1, golfe, e não por causa do futebol.

Então, estamos investindo no marketing para conseguir uma penetração na comunidade local. Muitas vezes, o Estoril era o segundo time dos moradores da região, pois torciam primeiro para Sporting, Benfica ou Porto. Queremos absorver uma nova geração de torcedor somente do Estoril.

No Estoril, a principal receita é com os direitos de transmissão. Em seguida, os valores com o patrocínio, e depois, com as negociações de jogadores, lista o gestor brasileiro

 

Universidade do Futebol – Como funciona a gestão do estádio Coimbra da Mota. Há, por exemplo, diferenças de tratamento em relação aos níveis de torcedores (VIP’s, comuns, organizadas)?

Tiago Ribeiro – Tem sim. Mas, em média, a quantidade de público no nosso estádio ainda é pequena. Em jogos contra os grandes clubes, até há uma presença maior. Mas, não é o comum. E não há problema de violência. Então, temos conseguido fazer uma boa gestão do nosso estádio.

A própria Uefa elogiou a gente quando organizamos os nossos jogos na Liga Europa. Recebemos em casa clubes como o Sevilha e não tivemos nenhum problema.

No estádio, temos uma área VIP, fazemos também a venda de camarotes, arquibancadas para sócios, como se fossem as cadeiras cativas. Promovemos também a comercialização do carnê, com os ingressos para o ano inteiro. Então, é mais ou menos igual o que acontece no restante dos clubes.

Eu acho que o futebol brasileiro tem passado por mudanças, mas ainda precisa de mais. É necessário encarar o futebol brasileiro como uma empresa . Não se pode deixar contaminar por questões políticas, afirma

Universidade do Futebol – Uma das soluções para uma revitalização do clube é a promoção de uma categoria de base bem estruturada. Como se dá o processo de detecção, seleção e também de captação de talentos para o Estoril? Existe um perfil que o clube pretende ou busca na formação dos jogadores? Ou até mesmo um modelo de jogador considerado ideal, algo que represente o Estoril de maneira geral?

Tiago Ribeiro – No começo da nossa gestão, tivemos muito trabalho fora de campo. Queríamos entender como funcionava o futebol português. Passado esse processo, buscamos estruturar as nossas categorias de base.

E acredito que a chegada do técnico Marco Silva foi fundamental nesse processo de captação de talentos para a equipe. O tipo de jogador do Estoril já era baseado nos mesmos pilares que a Traffic trabalhava com o Desportivo Brasil.

Buscamos um perfil europeu de jogador, concentrado, de entrega dentro de campo. Muitas vezes, trazemos um jogador do Brasil para terminar a sua formação aqui no Estoril. Mas, há um equilíbrio de jogadores portugueses e brasileiros no clube.

O Estoril possui garotos desde os 6 anos nas suas escolinhas, e isso está sob a visão que o clube pretende na formação de um atleta. Todo esse trabalho, porém, é feito em conjunto da parte técnica com a administrativa.

No futebol atual, eu acho que o dirigente amador pode até estar presente no quadro administrativo do clube, mas tem de ter menores responsabilidades. Ficar, por exemplo, somente em modalidades amadoras, aponta

Universidade do Futebol – E em relação aos treinadores? Há uma busca por um perfil específico de técnico e quais são as peculiaridades que a diretoria do Estoril procura para a escolha deste profissional?

Tiago Ribeiro – O nosso caso é particular, o treinador era nosso jogador. E, lançamos o Marco Silva por ter essa identificação com o clube. Mas, tem a questão prática de trabalho, na qual ele tem uma participação fundamental. Vemos que ele tem uma rotina diária de treinamento. E não vejo os treinadores brasileiros fazendo isso, passam muito essa parte para os auxiliares.

O trabalho do Marco Silva faz um trabalho muito intenso, a preparação física é muito dentro do campo, não usa tanto a academia. E os jogadores já estão acostumados aos métodos de trabalho.

Buscamos um perfil europeu de jogador, concentrado, de entrega dentro de campo. Muitas vezes, trazemos um jogador do Brasil para terminar a sua formação aqui no Estoril, conta Tiago Ribeiro

Universidade do Futebol – Na sua visão, quais seriam os principais aspectos estruturais do futebol brasileiro que necessitam de reformulação para se chegar a um futebol rentável em toda a sua cadeia (clubes grandes, médios e pequenos)?

Tiago Ribeiro – Eu acho que o futebol brasileiro tem passado por mudanças, mas ainda precisa de mais. É necessário encarar o futebol brasileiro como uma empresa . Não se pode deixar contaminar por questões políticas.

Acredito que o Corinthians conseguiu chegar a um patamar próximo a isso nos últimos anos. O Palmeiras também, nesta atual gestão, está implantando aspectos corporativos que são fundamentais para um bom andamento de um clube profissional.

Devemos separar o futebol profissional do clube, pois envolve emoção, mas não pode misturar . É preciso responsabilizar os dirigentes pelos resultados.

Universidade do Futebol – No futebol profissional atual, ainda há espaço para o dirigente amador?

Tiago Ribeiro – Não, não há. No futebol atual, eu acho que o dirigente amador pode até estar presente no quadro administrativo do clube, mas tem de ter menores responsabilidades. Ficar, por exemplo, somente em modalidades amadoras. O ideal é que ocupe funções com poucas responsabilidades, e não como as que ainda têm hoje em dia.

Ainda se faz gestão por paixão. Mas, é uma hipocrisia dizer que dirigente esportivo não pode ganhar dinheiro, não pode ser remunerado. Se um diretor de uma empresa tem direito a remuneração, a bônus por lucros, porque um dirigente esportivo não pode?

 

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