Universidade do Futebol

Eduardo Barros

29/11/2014

Transformações para o futebol brasileiro

Estamos próximos do encerramento de mais uma temporada. Já conhecemos, antecipadamente, o campeão da Série A, dias atrás foi conhecido o campeão da Copa do Brasil e, neste ano, assim como na Copa Libertadores, não teremos nenhum representante brasileiro na final da Copa Sul-americana.

Na perspectiva dos resultados, valorizado e priorizado a qualquer custo em nossa cultura, os alcançados este ano nos torneios internacionais (considerando também a Copa do Mundo) deveriam, no mínimo, proporcionar reflexões profundas na maneira como pensamos e gerimos o nosso futebol.

Sustentabilidade, categorias de base, calendário, evolução sistêmica do jogo, planejamentos de curto, médio e longo prazo, torcida, iniciação esportiva e fair-play financeiro são apenas alguns dos temas que precisaremos avançar nos próximos anos se um dia pretendemos retomar a hegemonia do futebol mundial.

Porém, como o momento da temporada é, para muitos profissionais, de recesso, ou então, de início de pré-temporada dos estaduais 2015, deixaremos estas discussões mais amplas para outra oportunidade. Será proposta, então, uma reflexão no âmbito da nossa atuação profissional e o quanto ela impacta positiva ou negativamente no todo em que estamos inseridos e, é claro, em nós mesmos.

Abaixo, alguns questionamentos:

Você foi proativo ao longo da temporada?

Você defendeu os interesses da instituição em que você trabalha?

Você agiu com ética profissional?

Você contribuiu na construção de um ambiente de trabalho enriquecedor?

Você aprendeu com os profissionais que estão ao seu redor?

Você ouviu os profissionais que estão inseridos no seu contexto profissional?

Você assumiu as responsabilidades que lhe são devidas ou você é adepto da máxima: “Eu venci, nós empatamos e vocês perderam”?

E, por fim, você compartilhou conhecimento ou preferiu “esconder” informações importantes para o desenvolvimento do trabalho de modo a utilizá-las num momento mais favorável a você?

Muitas pessoas podem classificar estas perguntas como de cunho pessoal, logo, impertinentes no contexto de atuação profissional. É preciso ter ciência, no entanto, que o relacionamento humano é a chave de processos essenciais de um clube de futebol.

Alguns exemplos podem evidenciar como os itens supracitados refletem com grande magnitude no dia-a-dia dos clubes. Na sequência, serão apresentados cenários hipotéticos:

Um preparador físico com baixa pró-atividade pode desperdiçar minutos importantes da sessão de treino ao deixar de explorar diversos conceitos de jogo desde o aquecimento.

Um treinador de resultados pode buscar a vitória a qualquer custo e ir na contramão dos objetivos de um clube-formador.

Um auxiliar técnico sem ética, pode denegrir a imagem do treinador “queimando-o” perante outros profissionais.

Os grupos de estudos podem alavancar o alinhamento conceitual dos profissionais do clube.

Um técnico de uma categoria pode se reunir formalmente com o técnico de outra e “dissecarem” o Modelo de Jogo de suas equipes e onde estão as suas principais dificuldades.

Num momento de derrota, um treinador traz a responsabilidade para si, “protege” o grupo e cria uma reflexão coletiva sobre os motivos do fracasso.

E, para terminar, aquele auxiliar que, com um olhar de fora, mais privilegiado e menos pressionado, “esconde” informações que seriam muito úteis para o sucesso do trabalho, pois, na verdade, o que ele quer ver é o fracasso.

Ao longo de minha ainda curta trajetória profissional tem ficado cada vez mais evidente que se pretendemos mudar o futebol brasileiro, precisamos, primeiramente, mudar a nós mesmos. Muitas vezes, agimos a partir de nossos interesses, sem preocupações com o todo e com transcendência de nossos objetivos pessoais.

Quem sabe um dia, com o predomínio de atuações profissionais éticas, sérias, proativas, conscientes, ouvintes e coletivas, invariavelmente, transformaremos o nosso futebol?

Certa vez, ouvi de um professor que somos permanentemente avaliados. Com o tempo aprendi, no entanto, que mais importante do que a avaliação dos outros é a minha própria. Então, a partir do que foi discutido hoje, como você se avalia?

Abraços e até a próxima coluna. 

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