Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

25/03/2018

Treinador sim, técnico não

Não foi a primeira vez que veio parar em minhas mãos um panfleto de uma grande franquia de metodologia de ensino de esporte alardeando aos quatro ventos que o professor não precisava mais perder tempo preparando aulas. A extraordinária metodologia já havia padronizado tudo, do currículo à aula, da seleção de materiais para cada unidade de ensino a como o professor deve utilizá-los, da vestimenta à forma com que o professor recebe seus alunos…

Uma organização exemplar; uma ordem admirável; uma otimização do tempo invejável; o professor deveria se preocupar apenas em ser legal e aplicar o método. Para que pensar? Bobagem! Alguém já pensou pelo professor/treinador. Assim além de ganhar tempo (podendo dar, literalmente, mais aulas), corre-se menos riscos de errar “no remédio e na dose”, é só seguir a bula, além do fato de que qualquer um pode aplicar, basta saber ler (e não precisa interpretar), independente de sua formação, dedicação, competências e anseios profissionais.

Será que podemos atribuir a denominação treinador ou professor para um indivíduo que, desvalorizando a profissão, é um mero instrutor e aplicador de técnicas pré-estabelecidas?

Paulo Freire, nosso maior pedagogo, patrono da educação brasileira, em seu livro, cujo o título inspira esta crônica: “Professor sim, tia não”, tece uma bela defesa e valorização do professor em decorrência de um cenário de quase execração pública e falta de respeito em todos os sentidos: do financeiro ao social, do científico ao profissional.

Concomitantemente, tenho me enriquecido muito com a leitura atenta do livro da professora Maria Amélia Santoro Franco, “Pedagogia como ciência da educação”. Muitas reflexões, questionamentos, afirmações, contradições, ressignificações surgem, permitindo-me a todo o momento defender a pedagogia do esporte, enquanto área sustentada pela pedagogia, e a construção e consolidação do processo de formação de treinadores esportivos, por sua vez equivalente à formação de professores e pedagogos.

Com a influência de Franco, penso a pedagogia como ciência da prática educativa, a qual tem como objetivo maior a humanização da sociedade, comprometida com a emancipação do homem – à medida que esse aprende a ler/interpretar o mundo -, e com a liberdade – ao passo que o homem aprende a viver e conviver com dignidade, sem os grilhões que o aprisiona na caverna de Platão.

A pedagogia, como ciência, tem por objeto de estudo a prática educativa, sendo a práxis educativa uma das suas principais preocupações. Práxis entendida enquanto a intencionalidade que dirige e dá sentido à ação. Ação reflexiva, consciente, que se efetiva na intervenção planejada, com pleno e seguro conhecimento sobre o objeto, visando à alteração da realidade e sua transformação.

A práxis educativa cabe ao professor crítico e reflexivo!

Por esse motivo que um instrutor nunca será um professor. Ele apenas é um aplicador alienado de tecnologias educacionais, um reprodutor de procedimentos didáticos, um controlador sustentado e apoiado pelo sistema, que prima pela manutenção do status quo (pois têm interesses). Imbuído por uma racionalidade técnica impõe a ordem, acreditando ingenuamente que o ser humano é uma máquina programável e o mundo um sistema fechado, linearmente controlado por quem detém o poder.

Essa mesma reflexão cabe e deve ser feita no âmbito da Pedagogia do Esporte.

Defendo que um treinador é um professor, logo sua formação é equivalente, e deve ser robusta o suficiente para que impregnado por teorias e enriquecido por experiências práticas, transforma continuamente sua atuação em práxis educativa.

Apoiado apenas em experiências nunca teremos um treinador, mas apenas um técnico, equivalente ao instrutor. Por não saber o significado de sua intervenção, muito menos o compromisso com a transformação da realidade, logo é usado para manter alguma coisa a alguém.

No futebol, muitas vezes esse técnico ganha muito dinheiro e prestígio, mas é apenas um técnico instrumental. Ao invés de práxis desenvolve a poiéses, ação que não modifica, apenas adestra, mantém.

Estabelece a ordem, mascarando-a em desordem, como, por exemplo, vemos no cenário futebolístico brasileiro a ciranda dos técnicos (e alguns poucos treinadores), que sobrevivem bem (e também ajudam outras “peças” nessa engrenagem), mudando continuamente de clubes, pois é interessante a muita gente (de diferentes áreas) que assim continue o progresso da comunidade ludopédica, caminhando do nada a lugar nenhum.

Infelizmente, no futebol brasileiro, o treinador é o diferente no sistema, o subversivo, o perigoso, pois pode acabar com o emprego dos técnicos e seus tratadores. Por isso precisa ser eliminado no ninho. O que justifica o quase total descaso em promover uma possível qualificada formação.

Contudo, minha esperança ainda persiste, pois consigo ver alguns treinadores sobrevivendo em meio aos muitos técnicos em nosso futebol. E digo, é muito fácil identificar e diferenciar um técnico de um treinador, quer seja no processo de iniciação, especialização e, mesmo, no futebol profissional, basta um olhar atento e um pouco de bom senso.

Por exemplo, o técnico dá treino de repetição de chutes; o treinador ensina a lógica do chute em diferentes contextos; o técnico adestra o gesto de passar; o treinador cria condições para o jogador aprender sobre as linhas de passes; o técnico se preocupa apenas com a execução do movimento; o treinador com a dinâmica do movimento em ambientes representativos de jogo; o técnico modela taticamente sua equipe; o treinador com os princípios táticos cria ambientes de aprendizagem, empoderando seus jogadores; o técnico prioriza atividades analíticas; o treinador valoriza o jogo; o técnico apenas vê o jogo; o treinador estuda o jogo; o técnico é intuitivo; o treinador é reflexivo; o técnico é submisso ao sistema; o treinador tende a ser subversivo; o técnico trata o jogador como objeto; o treinador como ser humano; o técnico é apenas prático-operacional; o treinador é teórico-prático ao mesmo tempo que prático-teórico; o técnico treina jogadores; o treinador forma seres humanos que jogam; o técnico cobra resultado; o treinador cobra empenho; o técnico reage; o treinador planeja e reflete; o técnico reproduz; o treinador cria e inova; o técnico entende o mundo de forma simples; o treinador de forma complexa; o técnico vive da rotina num mundo mecânico e linear; o treinador da imprevisibilidade advindo de um mundo complexo e não linear; o técnico habitua-se com fazeres; o treinador cresce e desenvolve saberes;  o técnico é impregnado de poiéses; o treinador é práxis imanente …

Desse modo, a práxis educativa desenvolvida pelo treinador se estabelece nas relações contínuas entre a familiarização e o estranhamento (dúvidas, conflitos…) de todo o processo de formação, entendendo que a formação é permanente, contínua e problematizada tanto para os treinadores quanto aos jogadores.

Essa formação exige constante reflexão sobre a prática e teoria, logo professores e treinadores podem ser ao mesmo tempo os pedagogos do processo (dependendo de formação para tal), ou podem receber o apoio de pedagogos do esporte. A função do pedagogo do esporte se perfaz na mediação entre a teoria e a prática (e vice-versa), gerando ambiência para emancipação do treinador.

Portanto, cabe ao pedagogo do esporte, para além de um coordenador metodológico, mediar toda essa reflexão-ação, ação-reflexão, por meio de sua práxis pedagógica (diferente da práxis educativa do treinador). Se estabelecendo enquanto agente crítico-reflexivo da práxis educativa, desenvolvida pelo treinador, auxiliando-o no processo de conscientização de suas teorias e aplicações didático-metodológicas, muitas vezes implícitas, das quais emergem saberes pedagógicos em meio aos contínuos constrangimentos provocados pelos processos de aprendizagem, treinamento e competição.

 

Comentários

  1. Rogerio Rosa Inacio disse:

    Professor penso que alguns fundamentos devem ainda serem aprimorados na forma analítica, tendo dentro da seção de treinamento uma sequência pedagógica que termine o treino em forma de jogo. Na formação principalmente a criança deve num estágio pensar somente no passe para entender toda ação corporal que ela pode executar que ainda não sabe. subindo de categoria ela com a evolução chega num ponto que consegue executar sem pensar, ai sim os treinos acontecem. Sem passe certo sem treino de qualidade.

  2. Gabriel Damasco disse:

    Ótimo texto!

  3. Luiz Mendes de Lima disse:

    Eis aí um intrépido D.Quixote! De conteúdo e visão da floresta! Mas não custa lembrar Norbert Wiener, um dos país da Cibernética: “O homem não é uma máquina mas tende a se comportar como tal”. De minha parte, prometo que vou pegar aquela lanterna que tomei emprestada do grego Diógenes e vou procurar este treinador de que fala o professor Alcides. Porque só vejo técnicos desfilando aqueles discursos de auto-suficiência e excelência, quando o time vence naturalmente, ou simplesmente culpando a “caixinha de surpresas” quando a equipe perde.

  4. Marco Antonio G. CARDOSO disse:

    Gostaria de saber quais conteúdos táticos sao selecionados nas categorias de base e como seria a progressão ?
    E como ,da onde são tirados os conceitos pata formatar os sistemas de jogo?

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