Universidade do Futebol

Eduardo Fantato

04/01/2011

Treinador virtual! Como transmitir essa notícia ao treinador de verdade?

Olá amigos,

Uma das ideias de uma coluna semanal é discutir assuntos que foram ou serão discutidos. Pois bem, no último fim de semana o programa Fantástico da Rede Globo, numa reportagem sobre como a tecnologia vai influenciar o ser humano no futuro breve, apresentou uma breve parte relacionada a esporte. Como vemos o exemplo descritivo da reportagem disponibilizada no site do programa:

“No futuro, a torcida grita, mas o técnico não está nem aí. Não mesmo. Cientistas da Universidade Carlos III, em Madrid, estão abrindo caminho para a criação de um treinador virtual: um computador capaz de dirigir uma equipe sozinho.

O programa tem um visual muito simples e não inclui nenhum robozinho sentado no banco de reservas.

A máquina já consegue analisar os diferentes tipos de jogadas possíveis e decidir o posicionamento dos jogadores de acordo com o rendimento potencial de cada um.

Os cientistas ensinaram o computador a enxergar, a reconhecer cores, formas, distância e profundidade com uma precisão cada vez maior. O olhar da máquina já pode enxergar uma realidade que vai além do olhar humano e tomar decisões como se uma quadra de basquete fosse um tabuleiro de xadrez.

A realidade é captada por uma única câmera a laser. Distância e profundidade se transformam em cores na tela. É assim que funcionam também os videogames de última geração, que dispensam qualquer comando e leem os movimentos do jogador. Cientistas espanhóis querem ensinar o computador a ver melhor e a enxergar a realidade ao redor”.

Assim gostaria de sucintamente refletir sobre tal reportagem, discordando em como são colocadas essas inovações. A maneira de se debater a tecnologia proposta na reportagem ajuda a aumentar a resistência à adoção da mesma. Não julgo nem critico a reportagem em si, mas me refiro que essa forma de enxergar os impactos tecnológicos é muito comum no meio esportivo e ganha eco quando tem os seus receios e resistências ressoados.

O principal aspecto que gostaria de levantar para futuras reflexões é justamente o nome atribuído as tecnologias em questão: treinador virtual. O nome em si é mercadologicamente fantástico, porém, não reflete a realidade e tão pouco contribui para a aceitação da tecnologia no meio.

Afinal a ideia de substituição do homem pela máquina não é um receio exclusivo do meio esportivo, é universal e atormenta a humanidade desde os primeiros inventos. Desde a ficção cientifica de Julio Verne até as mais recentes descobertas genéticas.

Não discordo do recurso apresentado, de forma alguma, aliás, apresenta inovações que sempre defendo para o meio esportivo, porém, a sua divulgação deve ser revista, principalmente pela falta de compreensão do que pode ser feita com e a partir dela. Remetendo-nos mais uma vez a frase de Roger Revelle já utilizada neste espaço em outros momentos:

“Nossa tecnologia passou a frente de nosso entendimento, e a nossa inteligência desenvolveu-se mais do que a nossa sabedoria”.

Para quem já tem o receio de utilizar da tecnologia, seja pela falta de habilidade ou por mero capricho, a ideia de que a máquina substituirá o ser humano no comando de uma equipe assusta e vai com certeza interferir no processo digestivo do impacto tecnológico, conceito que discutimos anteriormente na coluna intitulada Teoria da Tecnologia Esportiva III: processo digestivo do impacto tecnológico.

Assim é necessário ter claro que essa capacidade de apresentar soluções, armazenar informações, deve num primeiro momento ser alimentada por alguém da área com conhecimento suficiente para mapear e identificar esses padrões e depois transferi-los ao computador (ensinar o computador a identificar o jogo).

Posteriormente, a tomada de decisões com base nas informações são alinhadas com outras formas de feedback que o ser humano possui , com seu feeling e habilidade de lidar com essas informações. Qual a diferença para o que se faz hoje pensando no tripé:



A diferença é a maior qualidade e precisão das informações de jogo, facilitando e destacando ainda mais o poder de intervenção do ser humano. Talvez ai esteja um possível receio, ampliar e dar mais visibilidade aos erros, afinal, errar é humano. O difícil é lidar com os erros.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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