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30/07/2015

Treinamento específico

Jesualdo Ferreira, conhecido treinador português, argumenta que a esfera de influência do treinador junto aos seus jogadores veio diminuindo ao longo dos anos. Antigamente o treinador, além das questões do jogo, orientava o jogador em questões relacionadas aos investimentos financeiros, à compra de imóveis e até aos seus relacionamentos pessoais. No livro de Maurício Noriega, “Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro”, é possível encontrar citações sobre grandes treinadores como Oswaldo Brandão, Telê Santana, Ênio Andrade, entre outros, que exerciam este tipo de influência.

Nos dias de hoje, toda uma estrutura se desenvolveu em torno do jogador. Assessor de imprensa, consultor financeiro, empresário, preparador físico particular, todo um conjunto de profissionais com os quais o jogador divide o seu tempo, além da família e amigos. Pessoas que acabam, de alguma forma, influenciando suas decisões e comportamentos, dentro e fora de campo.

O treino e o jogo sempre foram as principais ferramentas que os treinadores tiveram para modular comportamentos de jogadores e equipes. Treinar com qualidade é fundamental, pois como diz o próprio Jesualdo Ferreira (ANTF, 2014): “no final, o que conta no futebol são as decisões que os jogadores tomam a cada segundo do jogo”.

Desenvolver uma mentalidade de aceitação e entrega ao treinamento é um dos desafios das comissões técnicas. Cachito Vigil, ex-treinador da equipe argentina de hóquei feminino – as Leonas, comenta que “a vida mais intensa, profunda e transformadora se dá no treinamento”. Também comenta que “é importante que o atleta saiba desfrutar as horas de treinamento para romper qualquer limite, alcançar seus níveis máximos de crescimento e aproveitar ao extremo todas as suas possibilidades”.

Bernardinho, vitorioso treinador da seleção brasileira de vôlei, diz que a maior motivação deve estar voltada para o dia-a-dia do treinamento. No seu livro – Transformando suor em ouro – Bernardinho cita uma frase do famoso treinador americano Colonel Red:

“Quanto mais você sua nos treinamentos,
menos sangra no campo de batalha”. (pg. 57)

Quanto mais específico for o treinamento, maiores são a motivação e o envolvimento por parte dos jogadores. Para alguns esportes a preponderância do treinamento se concentra nas melhorias fisiológicas e técnicas como o atletismo e a natação; para outros esportes, gira em torno do aprimoramento técnico, casos da ginástica artística e dos saltos ornamentais. Já no futebol, o treinamento técnico-tático assume papel fundamental.

O conceito de Periodização Tática de Vítor Frade estabelece diretrizes para o planejamento da temporada no futebol. Segundo ele, é a ideia de jogo do treinador, ou seja, o componente tático que deve orientar todo o processo de treinamento. Os outros componentes do rendimento esportivo flutuam em torno desta variável maior! Sem entrar no mérito da ideia de jogo do treinador, José Mourinho se tornou a principal referência na propagação deste conceito.

Os pequenos jogos têm sido utilizados como meios de treinamento para dar praticidade à periodização tática. A possibilidade da repetição de situações técnico-táticas específicas faz desta proposta de treinamento mais adequada às exigências do futebol atual, diferentemente do tradicional 11×11. Esta metodologia produz mais intensidade de treino, mais melhorias no processo de tomada de decisão, mais motivação e propicia um melhor aproveitamento do tempo de trabalho.

Em 2011, quando no Curso da Licença Internacional da FA, agradou-me a classificação da metodologia de pequenos jogos apresentada:

TREINO TÉCNICO (SKILLS) – pequenos jogos que não possuem uma direção de jogo orientada (exemplo: 5×5 com manutenção da posse!).

SITUAÇÃO RELACIONADA AO JOGO (GAME RELATED SITUATION) – atividades que possuem uma direção de jogo orientada (exemplo: 8×8 + 2 goleiros, sem posicionamento tático definido!).

FASE DO JOGO (PHASE OF PLAY) – atividades que utilizam toda a amplitude do campo, tendo uma direção de jogo orientada, com posicionamento tático definido e com profundidades de campo variáveis (exemplo: ataque x defesa + 1 goleiro!).

Os principais fatores que determinam a distribuição dos conteúdos de treinamento ao longo da temporada são o calendário; o entrosamento prévio da equipe; a condição física e o nível técnico e de cultura tática dos jogadores. Quanto mais cedo se puder buscar a organização tática, mais rapidamente aparecerão boas performances e bons resultados. Na busca dessa organização tática, os componentes físico e técnico serão desenvolvidos, paralelamente, dentro do contexto do jogo.

À medida que se adentram as competições, o treinamento voltado para as fases do jogo deve ser intensificado. O treino voltado para a estratégia de jogo também é incorporado ao microciclo semanal. Baseado em minuciosa observação, a equipe busca desenvolver comportamentos técnico-táticos em função dos detalhes do adversário, tanto nas situações de bola em jogo, como nas situações de bola parada.

Com as dificuldades do calendário e com o equilíbrio das competições, é imperativo que os treinamentos estejam especificamente ligados às reais necessidades de jogadores e equipes. É preciso planejamento específico, execução detalhada e monitoramento constante. 

 

Referência bibliográfica:

REZENDE, Bernardo Rocha de. Transformando suor em ouro. Sextante, 2006. Rio de Janeiro, Brasil.

SAGARNA, Juan Pablo. Líderes del deporte – Líderes de la vida. Editorial Grijalbo, 1a Edição, 2012. Buenos Aires, Argentina.
Forum Treinador Futebol/Futsal. Associação Nacional dos Treinadores de Futebol (ANTF). De 24 a 25 de março de 2014, Maia, Portugal.

NORIEGA, Maurício. Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro. Editora Contexto, 2009. São Paulo, Brasil.

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