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06/11/2017

Treinar pra que?

Não se faz sentido treinar por treinar (Júlio Garganta)

Começo esse artigo aproveitando a famosa frase do artilheiro genial Romário: “treinar pra que, se eu já sei o que fazer?”.

Por mais que pareça engraçada essa frase e em especial a forma como ele a citava, podemos nós profissionais do futebol, abrirmos espaço para uma análise desde conceitual até metodológica.

Cada vez mais o futebol moderno com sua alta demanda de competitividade e o pouco tempo de treinamentos e preparação para jogos e campeonatos, necessita de treinos pontuais relacionados à forma da equipe atuar.

Se treina para resolver um problema. Essa solução de problemas vem desde os aspectos individuais, tanto coletivos. O treino descontextualizado com o modelo de jogo caracteriza apenas desgaste para os jogadores e uma perda de tempo para a equipe e o ambiente que a cerca.

Até ai nada de novo, todos nós já lemos e estudamos isso há algum tempo…

O desafio é como detectar quais são os problemas que a equipe técnica quer resolver, e dai em diante modular as sessões de treino pautadas nessa diretriz.

Definição de modelo de jogo

O primeiro passo para pensar em elaborar as sessões de treinamento é definir como a equipe irá atuar, quais são os princípios estruturais e operacionais e com eles definir os aspectos metodológicos da sua equipe.

Como pretendo atacar o adversário?

Qual será minha postura defensiva?

Como irei transitar do ataque para a defesa no momento em que perder a bola? 

Como farei a transição defesa/ataque no momento em que minha equipe recuperar a bola do adversário?

Essas questões devem ser respondidas pelo treinador e sua equipe técnica antes de se pensar em elaborar sessões de treinamento. Definir a postura do time nas quatro fases do jogo é o primeiro passo quando se imagina alinhar o modelo de jogo a ser adotado.

Para entender melhor…

Se a definição do modelo de jogo, dentro da fase ofensiva da sua equipe for um time que procura o gol utilizando passes verticais, no corredor, com ataques rápidos em velocidade, treino de posse de bola, com passe apoiado e troca de corredores buscando a superioridade numérica para infiltração e finalização, terão pouca transferência com o modelo de jogo escolhido.

Com isso, se o treinador buscar nos treinos atividades que priorizam a posse de bola e circulação através de passe apoiado, no momento do jogo, dificilmente a equipe conseguirá atuar com passes rápidos, verticais como foi definido e certamente solicitado aos jogadores.

A forma da equipe atuar será um reflexo dos treinos aplicados pelo treinador e sua equipe técnica.

O mesmo exemplo vale na organização defensiva.

Se pretender que minha equipe marque pressão, em bloco alto, buscando recuperar a bola do adversário o mais rápido possível, meus treinos devem estar voltados para essa característica.

Treinar a marcação zonal em bloco baixo com o balanço defensivo e suas respectivas coberturas e ocupação de espaço, não irá gerar uma adaptação individual e coletiva para a marcação pressão que havíamos definido anteriormente.

A montagem dos treinos é a ferramenta mais importante na criação e transformação de sua equipe.

Conceitos de jogo.

Além das fases do jogo, um detalhe é fundamental para estarmos atentos na elaboração dos treinos: os conceitos que se pretende trabalhar na equipe.

Os conceitos são a base de sustentação do jogo e também devem estar relacionados com a forma como os jogadores e a equipe reagem durante as partidas.

Se quiser que minha equipe marque em bloco alto, dependo de uma série de conceitos que devem ser treinados para que os jogadores consigam de forma sincrônica atuar dessa maneira.

Ao definir e aplicar os conceitos que seus jogadores e equipe pretendem atuar, isso estará vinculado à forma que os mesmos se comportarão no treino e por consequência no jogo.

Se pretendo que minha equipe circule a bola de forma dinâmica e agrida o adversário com infiltrações, triangulações (através de superioridade numérica) e finalizações de fora da grande área, os conceitos no treino devem estar modulados a essa forma de atuar.

Essa sintonia fina entre ideia de jogo e metodologia é a base para elaboração e aplicação dos treinamentos.

Efetividade no treinamento

Um erro muito comum é pensar em elaboração de treino visando apenas o dinamismo da atividade e alta complexidade de regras e pormenores.

O treino deve ter um porque, uma tarefa a ser cumprida.

Por vezes, a alta criatividade e a busca por atividades cada dia mais complexas, geram um grande problema a sua equipe, pois se não treinar da forma como pretende atuar, não existirá transferência para o modelo de jogo, e possivelmente não gerará assimilação àquilo que propõe o treinador.

Primeira pergunta que o treinador deve fazer antes de elaborar o treino: Qual o objetivo da sessão do treino?

Após entender esse objetivo, os exercícios devem estar relacionados para essa pergunta pois, treinar sem objetivo é apenas desgastar sua equipe sem atingir os resultados esperados.

O treino é a principal arma que o treinador tem para modular sua equipe, quanto mais ele for aproveitado e otimizado, maior será a chance dos jogadores e da equipe evoluírem e se adaptarem ao modelo de jogo pretendido.

Comentários

  1. marcelo vitor froeder chrispiniano disse:

    Grande Professor Sandro Sargentim, qual tive a honra de conhecer um dia, excelente Preparador Físico e hoje um excelente Treinador de Futebol, professor parabéns pelas palavras, excelente colocação ao atual futebol moderno.

  2. Concordo com o pensamento de ter objetivos em todos os trabalhos e também sobre os treinamentos com alto nivel de complexidade e poucos efetivos em todos os aspectos. Creio que de forma simples e objetiva os resultados aparecem, como diz o ditado ” Não precisa enfeitar o pavão para perceber a sua beleza”.

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