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19/08/2008

Treino é jogo, jogo é treino

Treino é treino, jogo é jogo. Esse é um dos ditados mais conhecidos no futebol. Jornalistas, técnicos, jogadores, torcedores… Já escutei essa frase de todos eles. Contudo, o problema não se resume em reproduzir o ditado, mas em acreditar nele.

Essa máxima popular, se levada ao pé da letra, me permite concluir que não tem sentido treinar. Se o treino serve apenas para treinar, sem qualquer relação com o jogo, passa a ser apenas ocupação de tempo livre antes do jogo, pois o mesmo não prepara os jogadores para enfrentar os problemas do jogo.

No futebol, os treinos e seus objetivos são, na maioria das vezes, banalizados (repetidos porque sempre foi assim). Pode-se dizer isso no sentido de que os mesmos não se preocupam necessariamente em manter uma relação com o acaso e as exigências presentes no jogo. Por exemplo: nos treinos reina a previsibilidade; no jogo impera a imprevisibilidade.

Explico: desde a rotina da semana, passando pelo aquecimento, treinos físicos, treinos técnicos, treinos táticos, até a nutrição antes do jogo, são previsíveis, no sentido de sempre se repetirem, enquanto que o jogo é marcado por situações inesperadas e inevitáveis. Logo, nunca uma mesma jogada se repete, uma mesma ação é reproduzida, ou mesmo, um gol igual ao outro é convertido.

Na imensa maioria dos clubes, a preparação física acontece separadamente das demais preparações (técnica, tática e emocional), longe do campo de jogo, sem bola, e ainda mais, por incrível que possa parecer, com a imposição autoritária do técnico impedindo o preparador físico de literalmente colocar as mãos na bola.

Já no jogo os atletas usam o físico, a técnica, a tática e o emocional de forma integrada. Não há possibilidade de no jogo de futebol separá-los em partes, reduzi-los a momentos em que as valências físicas possam ser isoladas dos demais componentes do jogo, sem ser influenciada pelos mesmos.

Os treinos técnicos são analíticos, repetem-se movimentos de forma descontextualizada do jogo. Quando se treina a reprodução de movimentos fechados, padrões gestuais são preestabelecidos. Adestra-se uma habilidade fechada. Desse modo, formam-se exímios malabaristas com a bola nos pés (preparados para o circo) e inaptos jogadores (jogadores não inteligentes).

No jogo são exigidas habilidades abertas, pois as exigências de execução são sempre variadas e requerem constantes adaptações, ajustes inesperados. Logo, se os jogadores nos treinos não são estimulados a potencializar suas respectivas capacidades adaptativas (sua inteligência para o jogo), eles se apresentam como inadequados, ou até contraproducentes na perspectiva de altos rendimentos (ficam limitados).

Outro exemplo são os treinos táticos, pois, na maioria deles, os marcadores fazem sombra aos atacantes titulares, ou seja, apenas acompanham a jogada. Fala-se aos quatro cantos do mundo da bola que estes treinos táticos, ensaiados e coreografados já foram alvo de crítica de um dos paradoxais gênios do nosso futebol brasileiro. Diz-se que Garrincha certa vez, depois de participar de um desses treinos, perguntou ao técnico se já haviam combinado também com o time adversário, pois só assim a jogada daria certo.

Garrincha foi e é motivo de piadas e chacotas no meio futebolístico em relação a sua hipotética limitação intelectual. Será que ele estava errado ao fazer essa colocação?

O jogo sempre tende ao caos, à desordem. Até os treinos coletivos, que se caracterizam como jogo, muito raramente acontecem levando em conta fatos que são corriqueiros, como, por exemplo, a desigualdade numérica. Uma equipe dirigida por um treinador tecnicista nunca treina como jogar com um ou dois jogadores a mais ou a menos, porém se depara inevitavelmente com essa situação quase que em todos os jogos.

Portanto, adentrar ao século XXI é entender que uma inovadora metodologia de treinamento no futebol deve modificar a máxima popular de que treino é treino, jogo é jogo, e essa passaria a ser: “Treino é jogo, jogo é treino”.

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