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Publif

25/01/2008

Um modelo de inteligência do jogador de futebol

Este artigo inaugura uma série de textos sobre inteligência no futebol, que abordam o conceito e as suas implicações em pedagogia, tática, treinamento, planejamento, tecnologia e entretenimento. Este primeiro artigo apresenta um modelo para as ações inteligentes de um jogador em uma partida de futebol.

No restante deste texto, sempre que for usado o termo inteligência, o mesmo fará referência unicamente à inteligência no jogo de futebol. Adotaremos uma definição operacional do conceito de inteligência, suficiente para o desenvolvimento de técnicas pedagógicas e tecnologias associadas. Aproximaremo-nos progressivamente da idéia de inteligência analisando algumas situações.

Ao contrário das grandes jogadas dos atacantes, as melhores jogadas dos goleiros quase sempre passam despercebidas. Por exemplo, o professor Valdir Joaquim de Moraes parecia saber sempre onde a bola seria chutada. Outros goleiros mais modernos, como Leão, Raul e Taffarel, também tinham na colocação o seu grande trunfo. Como eles conseguiam prever a posição da bola com muita precisão, a técnica de defesa ficava simplificada. Assim, em geral, para executar a defesa não precisavam recorrer a um salto espetacular, mas a uma defesa quase estática.

Agora, vamos colocar essas observações sob uma perspectiva conceitual. Um goleiro é capaz de executar um conjunto de ações primitivas: caminhada, corrida, salto para cima, defesa na linha da cintura, defesa no alto, etc. As ações dos goleiros são concatenações dessas ações primitivas: defesa de um chute fraco à meia altura, que é decomposta em caminhada e defesa na linha da cintura; interceptação de cruzamento, que é decomposta em corrida, salto para cima e defesa no alto; etc. Assim, podemos interpretar as ações dos goleiros como se fossem frases de uma linguagem, na qual as palavras são as ações primitivas.

O processo de realização de uma defesa pode ser decomposto em três fases:

a) Previsão dos próximos movimentos do jogo;
b) Escolha de uma ação adequada à previsão (i.e., decisão);
c) Realização da ação escolhida, pela execução da seqüência de ações primitivas que a representam.

Na fase i, baseado na dinâmica do jogo (i.e., disposição dos jogadores no campo, posse de bola, velocidades dos jogadores e da bola, ângulo do chute, etc.), o goleiro prevê o estado do jogo nos próximos momentos. Na fase ii, escolhe uma ação que sirva para resolver o problema detectado na fase i. O sucesso da fase ii é dependente do sucesso da fase i, pois escolhe uma ação para o estado previsto, que não é necessariamente o verdadeiro.

Agora vamos analisar uma situação interessante, que ocorreu na disputa de pênaltis entre Alemanha e Argentina na Copa da Alemanha de 2006. O goleiro Lehmann, da Alemanha, acertou os cantos de todos os pênaltis batidos pelos argentinos. Tal proeza aconteceu não por alguma habilidade especial do goleiro em prever onde a bola seria chutada, mas porque ele tinha sido aplicado e estudado previamente a forma de bater pênaltis de cada jogador argentino. Enquanto o batedor caminhava do meio de campo até a grande área, Lehmann o reconhecia, consultava suas anotações guardadas na meia e, no momento do chute, pulava no canto certo.

Esse exemplo ilustra que os fatores usados para a previsão do próximo estado do jogo podem ser de múltiplos tipos, além da dinâmica do jogo. Na verdade, todas as informações conhecidas previamente podem ser usadas em conjunto com os dados da dinâmica para prever os próximos estados do jogo. Esses conceitos podem ser conhecimento técnico dos jogadores do seu time e do adversário, tática dos dois times, estado físico e emocional dos jogadores, etc.

Além de realizar defesas, o goleiro também tem a função de fazer a reposição de bola. O processo de reposição de bola pode ser decomposto nas seguintes fases:

a) Previsão do uso de cada uma das ações possíveis para a situação;
b) Escolha da previsão mais promissora (i.e., decisão);
c) Execução da ação correspondente à previsão escolhida.

Por exemplo, o goleiro pode decidir entre sair jogando com as mãos por um dos lados do campo ou tentar armar um contra-ataque rápido, com um lançamento longo com o pé. A previsão da situação mais vantajosa levará à escolha de uma das três possibilidades e determinará os próximos estados do jogo.

A defesa e a reposição de bola são dois processos diferentes. O processo da defesa é reativo, pois o goleiro essencialmente reage a um estado do jogo, enquanto o processo da reposição de bola é criativo, pois o goleiro praticamente determina quais serão os próximos estados do jogo. No primeiro caso, ele realiza uma única previsão imposta pela dinâmica prévia do jogo, a qual ele praticamente não influencia. No segundo caso, ele realiza várias previsões, que dependem dos estados prévios do jogo e das suas possíveis interferências, escolhe a que julgar mais vantajosa e essa será determinante nos próximos estados do jogo. Portanto, as ações criativas são mais complexas do que as reativas.

Modelamos a inteligência do goleiro pela sua capacidade de previsão e decisão, respectivamente, as fases i e ii do processo de ação reativa ou criativa. As ações primitivas também são compostas por aspectos importantes de controle em biomecânica, mas estão na última fase do processo de ação (i.e., execução da ação) e já são amplamente estudadas, por isso não estão no foco da nossa atenção.

O modelo apresentado, através do exemplo do goleiro, será adotado para modelar a inteligência de um jogador qualquer. Em geral, quando os jogadores exercem funções defensivas eles têm comportamento reativo e quando exercem funções ofensivas têm comportamento criativo. Um jogador com a posse de bola sempre tem comportamento criativo. A seguir, são recordados dois exemplos clássicos de criatividade no futebol.

No jogo de estréia da seleção brasileira na Copa do México de 1970, contra a Tchecoslováquia, Pelé, com a bola no meio-campo, percebeu que o goleiro Viktor estava na marca do pênalti e chutou para o gol por cobertura. A bola foi caindo e o goleiro recuando desesperadamente para tentar evitar o gol. No jogo contra o Uruguai, nas semifinais da mesma Copa, Pelé, sem chutar a bola, driblou o goleiro Mazurkiewicz e chutou para o gol. Essas bolas não entraram, mas as jogadas ficaram na história.

Agora, vamos analisar essas duas jogadas que exemplificam a genialidade do Rei. No primeiro lance, Pelé ergueu a cabeça e viu Viktor muito avançado. Ele previu que seria muito difícil para o goleiro chegar a uma bola que o cobrisse e caísse no gol, decidindo, assim, executar essa jogada. No segundo lance, Pelé visualizou a bola vindo de trás e Mazurkiewicz vindo no seu encalce. Então, previu que se ele corresse na mesma direção e sentido da bola e mudasse o seu movimento de direção perto do goleiro sem tocar na bola poderia enganá-lo, optando por essa jogada.

Com certeza, os craques têm grande capacidade de previsão e decisão. A capacidade de previsão e decisão é a inteligência que vai permitir usufruir das qualidades técnicas do jogador (i.e., ações primitivas). Habilidades fantásticas podem ser ineficazes se o sistema de previsão e decisão não for bom. Por outro lado, capacidades técnicas e físicas limitadas podem ser super valorizadas por um excelente sistema de previsão e decisão.

Por exemplo, o professor Valdir Joaquim de Moraes, que era um goleiro pequeno, compensava a sua baixa estatura com uma capacidade de previsão invejável, que o fez ser um dos melhores goleiros brasileiros da história. Outros exemplos são os jogadores que continuam atuando em alto nível, apesar da idade avançada, como é o caso do goleador Romário.

* Junior Barrera é membro do Publif

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