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26/07/2007

Um olhar sobre a motricidade humana

O movimento não compreende apenas uma ação física. Cada ação de um animal, por exemplo, é guiada pela percepção que ele possui do ambiente e tem como objetivo uma melhora nessa interação. Portanto, ainda que instintiva, qualquer ação depende de uma soma de conhecimentos sensoriais e de uma bagagem psicomotora. Quando toda essa realidade começou a ser aceita, estudar os movimentos apenas com um olhar para o que acontece no corpo do ser humano tornou-se algo extremamente superficial. Então, a motricidade surgiu como uma perspectiva para transcender esse ponto limítrofe e buscar uma visão do movimento em uma ótica holística.

A visão da motricidade caracteriza como desenvolvimento toda a possibilidade de ascensão dos seres humanos, de uma forma ampla, e não apenas uma evolução na medida em que existe um acúmulo de conhecimentos no profissional. Essa perspectiva é fundamental não apenas para o entendimento da disciplina, mas para a formatação do ideal de qualquer setor diante das exigências competitivas do século XXI.

Com o desenvolvimento tecnológico da sociedade a partir da segunda metade do século XX, a fragmentação do saber tornou-se um empecilho gigantesco para a obtenção de uma visão holística de cada ação. O processo de humanização de todas as profissões esbarra muitas vezes na especialização. Durante anos, acreditou-se e pregou-se que o melhor profissional era o que sabia mais sobre um determinado assunto. Esses valores sociais permearam a concepção social do esporte de alto rendimento.

A motricidade surgiu como uma forma de acabar com essa visão extremamente segmentada e especializada, dando lugar a um paradigma calcado na complexidade. A motricidade é um estudo do movimento a partir dos conhecimentos básicos sobre o homem, mas considerando uma definição em um contexto extremamente maior.

Durante anos, o ensino da educação física foi fundamentado no ensino de técnicas e movimentos inerentes à prática esportiva. A realidade de especialização foi incorporada, dividindo o ensino de acordo com modalidades e até por posições. O trabalho individualizado criou atletas cada vez mais afeitos a suas funções no campo de jogo, mas cada vez menos preparados para uma concepção global do que acontece na partida.

A motricidade é uma forma de compreender não apenas o movimento, mas o não-movimento. A preparação para as ações do jogo é importante, mas o relaxamento também faz parte da disciplina de educação física e compreende a razão exatamente oposta à tensão imposta pela prática esportiva de alto nível competitivo.

Todo esse desenvolvimento no olhar e na perspectiva da educação física é o ponto de origem da motricidade humana, baseada amplamente no conceito de episteme. “É qualquer coisa como uma visão do mundo, um corte na história comum a todos os conhecimentos e que imporia a cada um deles as mesmas normas, os mesmos postulados, um certo estágio geral da razão, uma certa estrutura do pensamento à qual não saberiam como escapar os homens de uma certa época. (…) o conjunto de relações que pode unir, numa dada época, as práticas discursivas que dão lugar às figuras epistemológicas, às ciências e, eventualmente, a sistemas formalizados”, disse Michel Foucault no livro “A arqueologia do saber”, publicado em 1965.

Diante dessa nova proposta de abordagem antropológica, com uma visão introspectiva e complexa, admitiu-se que o movimento é uma ação incessante, já que o ser humano nunca deixa de estar em movimento.

Portanto, a preocupação do ser humano deve transpor a barreira do ser para o dever ser. O corte epistemológico nessa matéria, que surgiu como uma nova ciência para estudar o homem, recebeu o nome de motricidade.

Além disso, deve-se entender que a visão da complexidade não é uma barreira e tampouco um subterfúgio diante do estudo do homem, mas uma característica inerente ao próprio ser.

Essa soma de conhecimentos deu origem à matriz teórica da motricidade. A partir daí, o estudo do movimento – e do homem, por assim dizer – deixou de ter como foco única e simplesmente a ação física e passou a considerar ação de ergomotricidade (relação com o meio), reflexo (ação condicionada pelo histórico de interação entre o homem e o ambiente) e gênero (o campo em que a ação acontece), por exemplo.

Diante de tudo isso, a motricidade surgiu como uma nova abordagem para a educação física. Antes, a disciplina se preocupava com o desenvolvimento do físico dos praticantes, pura e simplesmente. Não há como dissociar essa evolução, contudo, do crescimento de uma forma complexa e completa, em uma perspectiva holística, sem esquecer o acompanhamento minucioso.

Além disso, a motricidade humana pressupõe uma nova realidade de percepção corporal, com um grau de interação totalmente diferente do que foi preconizado por anos pela educação física tradicional. Existe uma relação evidente entre possibilidade e temporalidade, e isso fica claro no estabelecimento paradigmático da disciplina.

Entretanto, por conta de pregar uma ruptura paradigmática tão contundente, a motricidade ainda não conseguiu se estabelecer como uma ciência inerente à prática da atividade física. Trata-se de um modelo emergente e, mais do que isso, de um espaço para a reflexão. A investigação social dessa área é muito complexa, já que admite visões da biologia, da fisiologia, da física e de outras áreas. Portanto, trata-se de uma abordagem sempre complicada e muitas vezes rechaçada pela mentalidade tecnicista vigente no esporte de alto nível atualmente.

O desenvolvimento da motricidade é extremamente recente. A tese sobre o tema foi apresentada pela primeira vez pelo filósofo português Manuel Sergio em 1986, no Instituto Superior de Educação Física de Lisboa (que hoje é a Faculdade de Motricidade Humana). Em poucos anos, a motricidade foi aceita no meio acadêmico como uma evolução do ensino de educação física, pressupondo uma realidade diferenciada em relação ao paradigma vigente. Contudo, essa nova tendência ainda encontra muita resistência no histórico e na carga cultural dos profissionais da área.

Bibliografia

FREIRE, João Batista. Educação de corpo inteiro – teoria e prática da educação física. Editora Scipione, 1989.
FOUCAULT, Michel. L´archéologie Du savior. Editora Gallimard, 1969.
SERGIO, Manuel. Motricidade humana: um paradigma emergente – in Educação Física & Esportes – perspectivas para o século XXI. Papirus Editora, 2002.
SERGIO, Manuel. A pergunta filosófica e o desporto. Compendium, 1991.

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