Universidade do Futebol

Artigos

22/08/2007

Uma abordagem prática da interdisciplinaridade

Uma das propostas da Cidade do Futebol é o aprofundamento das discussões em torno das práticas multi, inter e transdisciplinares e como elas podem se inserir no contexto do cotidiano dos clubes de futebol.

Podemos constatar na realidade atual do futebol brasileiro a presença de equipes multidisciplinares, se tanto. Às vezes, diante da falta de recursos, grande parte dos times do país são forçados a manter um corpo técnico profissional bastante reduzido.

A questão proposta está em descobrir até que ponto podemos “sonhar” em avançarmos nos clubes com o tema interdisciplinar, pois como é de conhecimento geral, essas instituições estão arraigadas de conservadorismo e de uma cultura que dificilmente aceita novos preceitos.

Por outro lado, também podemos observar que nas próprias universidades a estrutura organizacional é fragmentada em departamentos, mas que há uma concordância da importância da interdisciplinaridade dentro do funcionamento acadêmico.

A simples admissão de um professor de um determinado departamento numa área que não seja a dele, pouco tem a ver com a definição de interdisciplina como um conceito em comum, orgânico, entre várias disciplinas.

Universidades e futebol

Assim, se até em universidades o conceito de interdisciplinaridade ainda não está totalmente assimilado, apesar de termos uma discussão muito interessante, feita por FOLLARI*, é mais do que natural este assunto não ocorrer no mundo da bola.

Voltando ao caso das universidades, segundo FOLLARI freqüentemente se costuma abrir – onde a estrutura “natural” da Universidade não favorece a interdisciplinaridade – institutos cuja função é a pesquisa, com o propósito de suprir esta falta. Esta “saída” é obviamente marginal, visto que se abre assim uma estrutura ad hoc, extraordinária. Os resultados nestes casos também não parecem ser ótimos.

Ainda de acordo com FOLLARI, GYLLENBERG** sugere uma organização universitária por projetos, isto é, apresentar projetos de pesquisa específicos de operação sobre a realidade, a partir dos quais os pesquisadores são nucleados. Terminado o projeto, são redefinidos os lugares de adscrição. Isto, tratando-se da pesquisa (…), parece ser uma idéia forte, pois permite trabalhar em concreto sobre a realidade social e por os pesquisadores num plano de atividade comum.

A mim esta saída encontrada (trabalhar em torno de metas específicas) é bastante interessante, visto que não desarruma nenhuma forma de organização constituída (estejamos ou não de acordo), e permite uma introdução nas equipes de futebol, dado o imediatismo que caracteriza o esporte.

Desta forma, para FOLLARI há uma possibilidade de que em torno de um projeto comum se juntem portadores das diversas disciplinas, para construir um avanço no conhecimento, que está “por fora” e além de cada um deles, e só é construível em comum, através da contribuição do conjunto e do estrito apego de cada um ao rigor da disciplina própria.

O tema não se esgota aqui, é claro, e oportunamente novas abordagens serão tratadas aqui na Cidade do Futebol.

(*) “Algumas considerações práticas sobre interdisciplinaridade”, Roberto Follari, capítulo do livro “Interdisciplinaridade – Para além da filosofia do sujeito”, de Ari Paulo Jantsch e Lucídio Bianchetti (organizadores), Editora Vozes, 5ª edição, 2001.

(**) H. Gyllenberg – “Training of researchers and research´, do Seminar on pluridisciplinarity and interdisciplinarity, Helsinki, 1970.

Comentários

Deixe uma resposta