Universidade do Futebol

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12/09/2012

Uma análise crítica sobre a pesquisa científica aplicada ao futebol (parte I)

“Estamos em um momento de crise científica. Há a necessidade de descobertas ao invés de inventar sem o compromisso de inovar, investigando sempre sob um mesmo olhar, fechado dentro de um mesmo paradigma”

 

O avanço do conhecimento e de tecnologias de qualquer área ou segmento dá-se por meio da pesquisa científica. No Brasil, de modo geral, a produção científica cresce anualmente.

Segundo dados da Capes, no período de 2005 a 2009, o Brasil foi o sexto no ranking dos países que mais produziram artigos científicos, ocupando o 13º posto dos países com maior número de artigos científicos publicados (Dominguez, 2012).

Em contrapartida, quando se avalia o fator de impacto dos trabalhos produzidos no Brasil –pela média de citações em determinado periódico–, a representatividade do país muda, ocupando somente o 47º posto dos países com mais citações de seus trabalhos científicos (Dominguez, 2012).

Assim sendo, podemos detectar o primeiro problema relacionado à ciência feita no Brasil: grande parte dos estudos realizados não são “lembrados” nas discussões de trabalhos subsequentes da área.

Não diferente no futebol, o número de pesquisas científicas cresce a cada ano. Para ilustrar este fato, se fizermos uma busca no principal banco de dados de artigos científicos – PubMed – pelo descritor soccer, tendo em vista que a maioria da produção científica é divulgada em língua inglesa, encontraremos uma crescente no número de trabalhos publicados ao longo das décadas.

Nos anos 70, por exemplo, foram publicados 101 artigos científicos relacionados ao futebol; na década seguinte o número de trabalhos publicados cresceu, totalizando 348; o mesmo aconteceu na década de 90, somando 773 artigos; e de 2000 até o presente, foram publicados aproximadamente 3459 artigos, sendo, aproximadamente, 2110 nos últimos cinco anos. Isso sem contar os demais tipos de produção científica (teses, livros, etc.), em diferentes idiomas e que não estão contempladas na plataforma pesquisada.

Analisando os dados fornecidos acima, podemos considerar que estamos progredindo, já que o mundo todo está estudando mais futebol, certo?

“Não é bem assim! E explico.”

Apesar de um comportamento crescente na produção científica, ainda encontramos uma estagnação nos métodos de treinamento no futebol e um dos principais problemas é que nem sempre a pesquisa contempla os interesses e as necessidades dos profissionais que têm a função de ensinar/treinar o futebol. E isso é grave!

Mas o que acontece com o montante de artigos científicos publicados? Para quê servem? Tomando como base Khun (2003), o futebol passa por um período em que a maioria das pesquisas é dirigida a paradigmas já existentes (apesar de alguns avanços notados), com pouco interesse em produzir grandes novidades, o que o autor chama de “ciência normal”.

Desta forma, todo “conhecimento” produzido não passa de afirmações que se acumulam e que corroboram com o paradigma em questão. Isto está claro quando acompanhamos algum tema específico da área do futebol.

Por exemplo, quando os primeiros trabalhos apontaram que os jogos reduzidos (small-sided games) poderiam provocar o mesmo estímulo fisiológico que um treinamento aeróbio de corrida, contínua ou intervalada, foi comprovado que esse método de treinamento era eficiente, modificando assim a maneira de se pensar a preparação física dos jogadores de futebol por parte de alguns profissionais.

No entanto, aproximadamente dez anos depois, a cada número lançado de revistas da área, tem sido publicado algum artigo investigando o efeito agudo dos treinamentos com jogos reduzidos. Mesmo depois de algumas revisões serem publicadas atestando seus efeitos e mostrando as influências de algumas variáveis (Pasquarelli et al., 2010; Hill-Haas et al., 2011), continuam a publicar mais e mais artigos sobre o mesmo tema.

E os pesquisadores insistem em disfarçar seus trabalhos, mostrando pequenas modificações, geralmente utilizando amostras com diferentes níveis de competição e/ou idade, para tentarem aumentar a validade ecológica do seu estudo. Entretanto, nenhum dos estudos provou o contrário daqueles publicados há, aproximadamente, dez anos: “jogos reduzidos são intensos e podem provocar adaptações no condicionamento de jogadores de futebol”.

Ponto! É somente desta informação que precisamos para trabalhar. Doravante, deveremos realizar nossas pesquisas em direção ao avanço dos conteúdos relacionados à utilização do jogo como método de treinamento!

Daí então eu pergunto: “Para quê servem estes trabalhos? Para saber mais sobre o mesmo, talvez!” O problema detectado no exemplo citado acima pode ser visto em outros temas, como nos trabalhos que investigam o desempenho de jogadores de futebol em testes das capacidades biomotoras, na distância percorrida durante a partida, na realização de ações intermitentes de alta intensidade, entre outros temas, os quais existem inúmeros trabalhos mostrando resultados que, na essência, dão a mesma informação aos leitores.

Tendo em vista a problemática apresentada acima e o sistema de atribuição de mérito aos pesquisadores das mais diversas áreas, que nos educa a produzir em grandes quantidades, estamos em um momento de crise científica, embora os números apontem para um maior acúmulo de informações. Há a necessidade de descobertas, ao invés de inventar sem o compromisso de inovar, investigando sempre sob um mesmo olhar, fechado dentro de um mesmo paradigma.

No segundo texto da série será mostrado como um novo paradigma pode emergir em meio à crise e como podemos direcionar melhor a pesquisa aplicada ao futebol.

Até lá, vamos refletir um pouco sobre o que foi abordado no texto corrente.

Referências Bibliográficas

DOMINGUEZ, B. Ciência feita no Brasil. RADIS. Fiocruz. 117: 20-21 p. 2012.

HILL-HAAS, S. V. et al. Physiology of small-sided games training in football: a systematic review. Sports Med, v. 41, n. 3, p. 199-220, Mar 1 2011. ISSN 0112-1642 (Print) 0112-1642 (Linking). Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21395363 >.

KHUN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 7ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PASQUARELLI, B. N.; SOUZA, V. A. F. A.; STANGANELLI, L. C. R. Os jogos com campo reduzido no futebol. The Brazilian Journal of Soccer Science, v. 3, n. 2, p. 2-27, 2010.

 

*Professor universitário das disciplinas de futebol e bioestatística (Unip/São José dos Campos-SP). Mestre em Educação Física pela UEL e doutorando pela Unicamp. Coordenador pedagógico das categorias de base do São José EC.

Contato: brunopasquarelli@hotmail.com

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