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13/07/2017

Uma aula de futebol, trabalho e sinceridade

Quem não viu a entrevista do técnico corintiano Fábio Carille após o dérbi paulista de ontem deve buscar o teipe ou o link. Para ouvir com atenção de quem gosta de futebol. Não com ouvidos de fanático e patológico.

Foi uma aula de humildade e coerência em um mundinho povoado por frescuras, máscara, oportunismo e prepotência.

Mais de uma vez o treinador do líder do Brasileirão utilizou-se do termo surpresa para falar do desempenho de seu time. Isso mesmo: surpresa. Afirmou que ele mesmo não esperava um rendimento tão impressionante, em especial do setor defensivo.

Carille, no início do Paulistão, era chamado de estagiário por alguns corintianos. Após a derrota em casa para o Santo André, muitos torcedores queriam sua cabeça. Muitos. Tenho pelo menos uns 15 amigos corintianos que hoje o chamam de gênio, mas que cobravam sua demissão se saísse derrotado do clássico com o maior rival no torneio regional e diziam que não era treinador para o Corinthians. Hoje deitam mimimi em rede social. Mas duvido que algum deles em janeiro tenha postado em suas redes de loucura que Carille seria o cara que levaria o Corinthians a uma campanha de exceção.

Mas torcedor pode. Analista não pode. Como não se pode falar em gestão ou projeto quando sabe-se que o Corinthians ficou com Carille apenas porque não tinha dinheiro para contratar e não conseguiu contratar outro treinador de mais nome.

Como citei ontem durante a transmissão do PPV, com Milton Leite, no início do ano, no jogo entre Corinthians e Audax, eu disse que o time corintiano era o mais bem treinado entre os grandes paulistas, mesmo tendo um elenco de qualidade limitada. Segue sendo o mais bem treinado, agora no Brasileiro. O elenco segue limitado. Mais méritos para o trabalho de Carille e sua comissão técnica.

Em sua entrevista, sem qualquer marra, Carille falou de trabalho, além de sua surpresa com o desempenho do próprio time, citando situações pontuais, como os jogos contra Palmeiras e São Paulo, no Paulistão. Falou de convicções e de entendimento e compromisso dos jogadores em relação a um sistema de jogo.

Carille será um grande treinador ao final da carreira? Só o tempo dirá. Tem tudo para sê-lo. Principalmente se mantiver a serenidade demonstrada ontem. Porque tem a informação, a formação e está sabendo transformá-la em conhecimento.

O Corinthians será campeão brasileiro de 2017? Tem tudo para sê-lo, mas deve ter a concorrência do Flamengo. Porque o Brasileirão de pontos corridos é quase sempre assim. Alguém dispara e somente um outro corre atrás. Raramente mais de dois times disputam, de fato, a taça.

Porque o Flamengo? Porque neste momento é o único dos postulantes mais próximos da parte de cima da tabela que pode tirar seis pontos do líder. Além de ter um bom time e um treinador competente com um perfil parecido com o de Carille. Obviamente que num futebol de perfil técnico médio como o nosso, no balanço das horas tudo pode mudar.

O que ameaça o Corinthians? Uma eventual saída de jogadores. O elenco é curto e continua sendo limitado. Sim, limitado. Esqueçam o mimimi dos fanáticos que atacavam Carille em janeiro e hoje o chama de semideus. Que desciam a lenha em Rodriguinho e hoje o querem na seleção. Que diziam que Cássio deveria ir para o banco e hoje o querem na seleção. Torcedor pode tudo, sempre.

A questão é que o Corinthians e Carille tiram desempenho excepcional de poucos recursos. Uma saída de jogadores importantes é a grande ameaça. Mais até do que os adversários.

Assim como a bipolaridade em relação a Carille não pode ser regra, quem hoje acusa de soberba os jogadores do Palmeiras me parece exagerar. Não me lembro de ver um atleta palmeirense dizer que o time era o Real Madrid das Américas. Posso estar enganado, mas não me recordo. Só vi jornalistas e torcedores dizerem isso. O elenco é bom, o grupo de jogadores é bom, mas não deu liga, não virou time. Cuca voltou em má fase, como muitos dos seus jogadores estão em má fase. Para pontos corridos não há perdão. Mas para mata-mata é outro jogo, outra pegada. Há espaço para salvar um ano. E fica a lição de que é preciso saber usar o dinheiro. Para quê comprar 50 camisas pólo se só se usa uma por dia? Pode faltar uma meia, uma cueca e sobrar camisa pólo no armário.

O futebol brasileiro hoje não tem craques ou grandes jogadores. Tem jogadores muito bons. Foi-se o tempo em que grandes jogadores salvavam a pele de times mal treinados. Temos bons treinadores, com perfis distintos, o que é enriquecedor. Taí o Luxemburgo, tão atacado por muitos, recuperando-se no Sport. Temos Carille, Jair Ventura, Zé Ricardo da nova geração. Temos Cuca, Abelão, Mano entre os vencedores recentes.

Mas a entrevista de Carille é emblemática. Quem não viu, veja. Com sabedoria.

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