Universidade do Futebol

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18/05/2013

Uma visão holística do futebol

Futebol… Um joguinho besta onde vinte e dois mandriões correm atrás de uma bola e, dando coices e cabeçadas, tentam fazê-la entrar numa "casinha"…

Quando assim acontece, uma multidão pula de alegria, vai ao êxtase! Outra multidão estremece de raiva ou, se abate de tristeza, se rebela, xinga, exaspera… Tem gente que chega a ficar doente… Tem gente que briga até com cônjuge, filhos, pais ou irmãos…

Alguns chegam ao extremo de, por ele, futebol, matar ou morrer e, ainda assim, na mais completa e absoluta irracionalidade, continuamos loucos por ele!!!

Fenômeno sócio cultural, meio de catarse coletiva que canaliza paixões e tensões para além das explicações cartesianas. Imagino até, que, sem ele, muito possivelmente, existiriam muito mais conflitos bélicos, até mesmo internacionais.

Paixão que gera grupos e facções com forte identidade e, naturalmente, o sentimento de pertencimento. Os soldados dispostos em campos de batalhas, como gladiadores modernos, usam todas as suas capacidades físicas e habilidades técnicas.

Os comandantes urdem suas estratégias e o espetáculo alterna aspectos marciais e lúdico-artísticos; força e técnica; inteligência e malandragem; lances lícitos e ilícitos representando de modo emblemático o grupo/facção/exército ao qual pertenço.

Complexidade

Entendendo o corpo humano como um sistema complexo em que o todo está interconectado, percebemos a importância de se analisar os detalhes, por mínimos que sejam, que possam vir a interferir no desempenho do atleta de futebol de alto rendimento.

Assim como o corpo individualmente é um sistema complexo, podemos fazer analogia também a uma equipe de futebol como sendo um corpo onde os onze atletas são os membrs/orgãos que compõem este sistema complexo chamado time. Ampliando para uma visão macro, tem-se que o time de futebol é o coração do clube, este, por sua vez: expressão e representação da paixão dos seus torcedores que, por sua vez, são a expressão de sua comunidade/bairro, de sua cidade, de seu estado, de seu país…

A quase saturação da era dos especialistas já está demandando cada vez mais por profissionais que possuam uma visão global e que entendam, ao mesmo tempo, os pequenos detalhes que, em sua somatória, facilitariam, em tese, a formação de atletas e equipes mais aptas ao êxito competitivo. Áreas e conceitos como Psicologia Esportiva, Treinamento Mental, Inteligência Emocional, Coaching, Midia Training, PNL, Desenvolvimento Pessoal e Liderança, Autoconhecimento, Wellness… Enfim, a formação/preparação global utilizando de estratégias mais afeitas ao ambiente empresarial/corporativo visando ao bem estar do atleta consigo mesmo e dentro de um grupo como forma de facilitar/maximizar a exploração de todo o seu potencial em benefício da equipe.

É o saber transdisciplinar, ou seja, aquele que busca o conhecimento abrangente da realidade levando em consideração todos os fenômenos complexos que envolvem o ser humano (cultura, etnia, ciência, religião, valores, intuição…), afinal, jogador de futebol também sofre, chora, sente medo, ira, desânimo, fica deprimido, se apaixona, tem problemas pessoais, familiares…

Ao contrário do que dizem alguns "entendidos", que de modo raso e simplório só enxergam problemas se houver falta de dinheiro (aquela conversa batida de algumas mesas redondas dos programas esportivos que mais parecem mesa de boteco: "O Fulano ganha milhões para jogar futebol… Não tem problema nenhum na vida a não ser jogar bola!”…).

Como preparador físico e gestor esportivo, acredito cada vez mais que a conquista da mente e do coração do atleta é o caminho para uma maior conscientização, doação e senso de profissionalismo.

Como estamos vivendo a era do conhecimento, da informação e do
relacionamento, percebo que tratar o atleta como um fornecedor (de serviços) de valor, precioso, torna a contrapartida do engajamento sólido do atleta aos projetos do clube uma possibilidade real.

Assim, o clube de futebol que conseguir demonstrar uma preocupação genuína com o desenvolvimento pessoal de seus atletas, oferecendo-lhes uma assessoria honesta que lhes proporcione oportunidades de crescimento pessoal extensiva aos seus familiares, certamente que terá mais do que uma profissional que se dedica em troca de seu salário. Terá um aliado, um fã, um homem com coração grato e feliz por fazer parte de seus projetos e consciente de cidadania, de pertencimento, de doação!

Em relação ao aspecto físico/atlético, o esporte de alto rendimento, como se sabe, não é sinônimo de saúde, pelo contrário, o corpo do atleta é submetido ao longo dos anos de sua carreira esportiva a uma intensa sobrecarga que, invariavelmente, poderá causar uma gama diversa de possíveis vícios posturais e de locomoção que acabam se fixando como padrões motores ou neurais prejudiciais à sua saúde.

Compensações anatômicas, desequilíbrios musculares e "overuses", se sobrepõem com o passar dos anos, tendendo a limitar sua capacidade funcional, gerando quadros crônicos de dores e, consequentemente, as lesões. O avanço das novas tecnologias aplicadas na área médica está tornando tanto possível quanto acessível algumas avaliações detalhadas e precisas que auxiliam na realização de trabalhos de prevenção e reabilitação mais eficientes e que, acredito, possam ser úteis para otimização do desempenho esportivo e até mesmo no prolongamento da vida útil dos atletas de futebol de alto rendimento.

Arrisco-me a sugerir que podemos estar vivendo um dilema nesta seara, senão vejamos: com os avanços das ciências e tecnologias aplicadas ao esporte, os atletas estão cada vez mais bem preparados fisicamente, em consequência, houve um aumento assombroso na intensidade dos esforços demandados nos jogos.

Pergunto: estaríamos então, dada esta alta intensidade, testemunhando uma era de abreviação na vida útil dos atletas, ou estes, cada dia mais aptos, poderiam prolongar suas carreiras no ambiente de alta performance?

Gestão Estratégica

Com os adventos da Copa das Confederações, Copa do Mundo-2014 e Jogos Olímpicos Rio-2016, a chamada "Década do Esporte" no Brasil, os investimentos na modernização dos clubes tem ganhado um grande impulso.

Reportagens e artigos diversos abordando as gestões deficientes e
ultrapassadas de grande parte dos clubes e das federações do futebol brasileiro têm sido publicados à exaustão assim como também é real a proliferação dos cursos de gestão esportiva.

Penso que é um momento propício para os clubes investirem na reestruturação de seus departamentos de futebol em busca de um nível de excelência em suas estruturas física, tecnológica, humana, científico – metodológica, de formação e de gestão.

Lesões

Um dos grandes desafios enfrentados pelos clubes de futebol são as lesões inerentes ao esporte, que podem afastar por longos períodos atletas importantes e que recebem altos salários, causando prejuízo técnico e financeiro ao clube. Daí a grande importância de se investir na prevenção de lesões.

Algumas técnicas alternativas relativamente novas tem se mostrado eficientes na abordagem pelo conceito das cadeias de músculos e fáscias musculares. Esta interconexão afirma o caráter global/sistêmico ao se tratar, por exemplo, algum ponto de um membro superior, mas, que repercute em uma dor no pé. Dentre essas novas tecnologias e metodologias que poderiam ser
adotadas, cito: a Mio Modulação Analítica (MMA) e a Posturografia Dinâmica Computadorizada.

Abstinência sexual antes dos jogos (Case Italiano)

Alguns clubes italianos estão instruindo seus atletas a evitarem atividade sexual 48 horas antes dos jogos como forma de prevenir lesões. Esta norma tem como objetivo muito mais a prevenção das distensões musculares, contrações ou inflamações do que a cura.

Devido ou não a esta medida, o plantel do Napoli foi pouco afetado por lesões na última temporada: Apenas 50 casos, contra 260 do Milan, 188 da Inter, ou 184 da Roma. Horários rígidos para tomar refeições, ingerir alimentos orgânicos, não beber álcool e dormir sempre que se queira são outras das regras sugeridas pela equipe médica.

O Napoli foi o segundo clube na última temporada a ter menos jogadores afastados por lesão, ficando atrás apenas da Juventus. O curioso é que os dois clubes foram campeões na Itália. O primeiro faturou a Copa Nacional e o segundo faturou a Séria A.

Além da notável filosofia de prevenção compartilhada por toda a comissão técnica, há de se considerar o elevado senso de profissionalismo dos atletas para seguirem à risca as recomendações médicas mesmo quando estão de folga.

A atividade sexual causa, no homem, o inchaço da próstata, o que pode interferir na circulação sanguínea desta região do corpo chamada Core (núcleo), onde se localiza o centro de conexões musculares responsáveis por estabilizar coluna, pélvis e dorso. É, por assim dizer, o centro de força, o centro de gravidade e o centro de sustentação, tendo influencia em todo o resto do corpo.

Assim, o fato de os dois clubes que foram campeões, Juventus e Nápoles, terem sido também os que menos lesões tiveram deve dizer alguma coisa sobre a importância destas medidas profiláticas.

Revoluções necessárias no futebol

Observa-se que o futebol está mudando e o Brasil, até então considerado o país do futebol, ficou para trás. O momento é de se correr atrás do tempo perdido em termos de metodologias de treinamento principalmente no aspecto do treinamento tático abordado de forma global.

Felizmente, novos profissionais estão surgindo com uma visão e formação mais científica do futebol em sua metodologia. Porém, alguns clubes continuam a efetivar como treinadores, desde a base, prioritariamente os ex – atletas, assim como, nas equipes profissionais são quase sempre os mesmos técnicos "medalhões" que atuam há décadas nos grandes clubes, fazendo com que fiquemos parados no tempo e na mesmice enquanto outros centros continuam avançando e até mesmo nos ultrapassando como é o caso, por exemplo, da Espanha.

Abro um parênteses para dizer que, em 2006, escrevi aqui mesmo na Universidade do Futebol o artigo "Qual é o Segredo do Futebol Brasileiro?".

À época, confesso, eu estava empolgado com o desempenho do Brasil antes da Copa da Alemanha e ainda com a performance que havíamos conseguido no Cruzeiro em 2003, onde tive a honra de trabalhar com Antônio Mello e Vanderlei Luxemburgo. Algumas das minhas colocações naquele artigo referentes aos profissionais que militam no futebol brasileiro não fazem mais sentido hoje em dia. É hora de mudar!

Nada tenho contra os ex – atletas, muito pelo contrário, sou amigo de muitos e alguns (poucos) deles se revelaram muito bons profissionais fora das quatro linhas. O problema está na grande maioria que não se prepara, não procura estudar, não se atualiza…

Alguns grandes clubes como o São Paulo estão investindo em profissionais capacitados com formação de mestres e doutores nas áreas da ciência do esporte para seus departamentos de futebol e de formação (base).

Outros, igualmente grandes e com um ótimo histórico de formação nas últimas décadas quando investiam em profissionais com formação adequada, estão retrocedendo e, talvez, por contingências econômicas ou, por influências de ídolos do seu passado que conseguiram cargos de comando nas categorias de base, estão dispensando os bons profissionais especialistas, mestres e doutores para dar lugar a ex-jogadores do clube.

São notórias no futebol algumas situações em que ídolos do passado de um clube são contratados simplesmente como uma forma de caridade por estarem, no presente, enfrentado dificuldades financeiras.

Entendo que há espaço para os ex – atletas nas comissões técnicas onde seriam muito úteis por sua experiência, liderança e vivência dentro de campo, mas para atuarem, por exemplo, como assistentes técnicos ou observadores técnicos.

Nas demais funções dentro da comissão técnica (treinador, preparador físico, preparador de goleiros…), a formação acadêmica é imprescindível. Seria mesmo ideal o ex – atleta que buscou também se preparar através dos estudos na área que quer abraçar extra-campo, mesmo assim não há garantias, pois o que conta é uma soma de competências como: conhecimento prático e teórico atualizado, experiência útil, liderança, honestidade, carisma, psicologia, capacidade de gestão/planejamento, visão global, inteligência emocional, raciocínio rápido, etc.

O futebol precisa também de uma revolução na questão gerencial. Vários dos clubes da Série-A já possuem gestores em seus staffs que entendem das questões de planejamento estratégico, estudando viabilidades econômico-financeiras sem se esquecer do investimento na modernização e nas questões ligadas às ciências do esporte. Outros nem tanto.

Grande parte das federações estaduais também não mudou muito ainda. Continuam sendo cuidadas como verdadeiros feudos por dirigentes eternizados no poder, sempre blindados e protegidos pelos emaranhados estatutários, bem como pelos conchavos políticos arcaicos em suas relações promíscuas e subservientes. Exceção talvez seja a Federação Carioca, de triste lembrança pelos desmandos do falecido sr. Eduardo Viana, mas que hoje em dia já conta com a figura de um competente gestor em seus quadros.

Para essa revolução acontecer é preciso coragem. Coragem para romper com a velha estrutura política de se ter que agradar aos conselhos deliberativos e/ou entidades esportivas afiliadas.

Coragem para abrir espaço para os novos gestores, para os novos treinadores, para a comunidade acadêmica e para os cientistas. Visão para investir em recursos materiais e em tecnologia de ponta. Determinação para bancar, dar suporte e autonomia a estes novos profissionais mesmo contra as forças oposicionistas e imediatistas de imprensa, de torcedores, de conselheiros, de ex – atletas, por exemplo, que quase sempre, de modo passional e incoerente, cobram resultados imediatos dos dirigentes dos clubes.

Mudar estruturas arcaicas como a do futebol brasileiro leva tempo, mas requer apenas gestão, planejamento estratégico e vontade política, nada mais!

*Preparador Físico de Futebol Profissional / Gestor Esportivo / Professor Universitário Diretor-Proprietário da CEPERF (Centro de Excelência em Performance de Futebol)

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