Utopia ou realidade invisível: o trabalho do RH no futebol

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Não existe entre os grandes clubes de futebol atualmente uma instituição que tenha um departamento de recursos humanos estruturado e atuante. Com raras exceções em toda a história, aliás, atividades desse setor nunca encontraram espaço no cotidiano da atividade física de alto rendimento. Mas será que isso é suficiente para concluir que os conceitos de RH não podem ser aplicados nas entidades esportivas?

As análises sobre esse tema se dividem em duas vertentes aparentemente dicotômicas. Para alguns, o RH não tem e nunca terá o espaço devido no contexto do esporte competitivo e isso acontece porque os resultados são alcançados sem um trabalho específico desse setor. Essa tese é contestada pelos que acham que o RH já atua diariamente no futebol, mas faz isso de forma empírica e tem como agentes profissionais que não são necessariamente da área.

A contratação de profissionais para equipes de futebol, por exemplo, não segue uma lógica parecida com o que acontece no mercado corporativo. Não há entrevistas individuais ou análises de perfil para o posicionamento estratégico dos postulantes à vaga. Falta de RH? Como justificar, então, o trabalho de avaliação individual que é feito pelos olheiros?

De uma forma empírica, esses profissionais fazem as vezes do RH no processo de contratação de atletas. Ainda que esse modelo não seja aplicado para todas as esferas dos clubes, é inegável que as equipes tenham uma definição clara do perfil dos jogadores que procuram antes de iniciar uma triagem de mercado.

O problema é que essa lógica nem sempre é aplicada em outros setores além da formação do elenco. Os jogadores são definidos a partir da perspectiva que o treinador tem sobre a montagem do grupo. Mas quem estabelece o perfil do treinador? Normalmente, a definição do nome contratado é tomada por um diretor do clube e não considera exclusivamente um tipo de profissional.

Quando procuram técnicos, as equipes costumam olhar entre os nomes que estão em alta no mercado ou que têm histórico vencedor. E nem sempre a metodologia desses profissionais e a visão que eles possuem sobre a montagem do elenco é condizente com o que a diretoria pretende.

Mas quem define a diretoria? Novamente, esse processo mostra uma lacuna que poderia ser preenchida com a atuação do RH no ambiente esportivo. Os gestores do futebol na maioria das equipes são definidos por bom relacionamento com os dirigentes eleitos e muitas vezes não possuem o perfil ideal para a vaga.

Independentemente do perfil, porém, os gestores – sejam eles diretores, técnicos ou até capitães de equipe – precisam estar preparados para assumir tarefas diárias de recursos humanos. E isso é feito, muitas vezes, de uma forma totalmente intuitiva.

“Só o fato de existir a relação humana já faz do futebol um campo vasto para o trabalho do RH. Os clubes hoje funcionam como empresas e são cobrados como tal. Por isso, devem ter atenção especial com esse setor para maximizar os resultados”, diz Suzy Mary Pregnollato, pedagoga e professora do curso de especialização em educação e gestão de pessoas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

O problema é que esse trabalho de RH no futebol é realizado por profissionais que não são preparados para atuar nesse setor. “Alguns times formam pessoas internamente, e não apenas atletas. Eles estão fazendo um modelo de gestão estratégica, mas não necessariamente precisam ter um profissional para isso. As coisas acontecem, mas não do jeito mais adequado”, explica Joel Souza Dutra, doutor em administração de empresas pela Universidade de São Paulo e coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas (Progep).

Souza Dutra vê incidência de práticas de RH na função dos treinadores, por exemplo: “Eles usam muitas estratégias com os comandados que são parte do trabalho de recursos humanos e de gestão de pessoas. Isso acontece na motivação e na preparação para alcançar os objetivos”.

A idéia do trabalho empírico de RH nos clubes é corroborada pelo discurso de João Serapião de Aguiar, psicólogo do esporte que trabalhou no futebol por 31 anos. “Há pessoas que cuidam da parte administrativa e das funções derivadas, mas não como um departamento específico de recursos humanos”, diz ele, que complementa: “Nunca vi algo feito especificamente com os jogadores”.

Bibliografia

NISEMBAUM, Hugo. A competência essencial. Editora Inifinito, 2001.
KATZEMBACH, Jon. Desempenho máximo – unindo o coração e a mente de seus colaboradores. Editora Negócio, 2001.
SHINYASHIKI, Roberto; FRANCO, Simon; NISEMBAUM, Hugo & XAVIER, Paulo R. Manual de gestão de pessoas e equipes. Editora Gente, 2003.
CARVALHO, Antônio. Administração de recursos humanos 1. Editora Pioneira, 2000.
BANOV, Marcia Regina & FIDELIS, Gilson. Gestão de recursos humanos tradicional e estratégica. Editora Erica, 2006.

* Colaboraram Bruno Camarão e Rubem Dario

Leia mais:

Quem é o patrão dos jogadores?
Sem ser oficial, RH no futebol se aproxima de empresas

A transposição de conceitos de mercado para o futebol
Prazo exíguo: um problema que une empresas e clubes

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Mais conteúdo valioso