Universidade do Futebol

Entrevistas

06/02/2015

Vandrigo Lugarezi, educador e membro da ONG Ação Educativa

Muitas das pessoas que acompanham o futebol de alto rendimento atual, com frequência, se esquecem ou não têm o conhecimento que este esporte pode ser utilizado também na formação e na educação de novos cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores no Brasil.

Além da possibilidade de ser um meio importante para se ensinar disciplinas como matemática, história, geografia, entre outras, o futebol pode ser utilizado como meio educativo e socializador, proporcionando benefícios como senso coletivo, solidariedade, responsabilidade, superação, valores que fazem as crianças desenvolverem a cidadania desde cedo.

Pensando nisso, foi criado o projeto Fútbol Callejero, ou Futebol de Rua, uma prática esportiva e sociopedagógica idealizada por Fabian Ferraro, ex-jogador de futebol argentino, que busca usar o futebol como uma estratégia para gerar processos de aprendizagem e impulsionar o desenvolvimento de lideranças nos praticantes.

Atualmente, esta rede latino-americana já tem participação em 12 países e mais de 200 organizações em todo o mundo que praticam o Futebol de Rua, mobilizando cerca de 100 mil crianças, adolescentes e jovens.

Com isso, surgiu a ideia do Mundial de Futebol de Rua, evento que teve a sua terceira edição em São Paulo no ano passado, entre os dias 1 e 12 de julho, concomitantemente ao período que ocorreu a Copa do Mundo no Brasil. Neste evento, dois times mistos entram em campo, mas não há um juiz, e sim um mediador. Além disso, há três tempos técnicos: no primeiro, os times e o mediador definem as regras básicas do jogo. No segundo, a bola rola levando em conta as regras que foram definidas anteriormente, enquanto a terceira etapa é dedicada à reflexão, em que os participantes conversam sobre a partida. Também é neste momento em que ocorre um diálogo sobre os valores e a atribuição de pontos.

“O Futebol de Rua oportuniza a formação de cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores. Procuramos sempre contextualizar os acontecimentos da sociedade e do futebol, mostrar para eles histórias de sucesso, mas também o outro lado da moeda, como os casos do Adriano, Garrincha, Heleno, Paul Gascoigne, entre outros”, relata Vandrigo Lugarezi, educador e membro da ONG Ação Educativa, um dos polos que desenvolve o Futebol de Rua no país.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, ele ainda fala sobre como enxerga o papel dos clubes sobre a responsabilidade social do futebol e como o projeto poderia ajudar na formação dos jogadores. Confira:

 

Universidade do Futebol – Como e por que você decidiu trabalhar com o futebol na sua carreira?

Vandrigo Lugarezi – O futebol sempre foi meu esporte e minha brincadeira favorita desde criança. Ainda em minha adolescência, eu tentei ser jogador e cheguei jogar federado no futsal, mas não deu certo. Hoje, vejo que tudo tem seu tempo, pois consegui conciliar a minha carreira profissional na área da Educação com uma das atividades que mais me dá prazer.

Comecei a trabalhar como educador universitário no Programa Escola da Família, em 2005, quando iniciei com turmas femininas e masculinas. Neste período, participava de capacitações oferecidas pelo Programa, inclusive do Premier Skill (projeto em parceria com a Barclays Premier League). Depois, quando terminei a minha primeira licenciatura, já assumi a coordenação de uma escola para realizar projetos pelo Programa Escola da Família e mantive esse contato forte com o futebol, mas sempre focando muito mais na formação pessoal dos participantes do que a formação de atletas.

A partir destes projetos, foram aparecendo outras oportunidades para trabalhar no terceiro setor, até conhecer a metodologia do Fútbol Callejero, que complementou os meus ideais, um casamento de poucos anos, porém de muitas conquistas.

As partidas não têm juiz, os participantes constroem as regras no primeiro tempo em uma roda de conversa organizada por dois mediadores. Estes precisam estabelecer o diálogo das equipes em caso de idiomas diferentes e possuem uma planilha na qual são anotadas as regras propostas para a realização do jogo

Universidade do Futebol – Por favor, nos descreva como é desenvolvido o seu trabalho no Mundial de Futebol de Rua? E na ONG Ação Educativa?

Vandrigo Lugarezi – Meu primeiro contato com a Ação Educativa foi em uma reunião das parceiras que foram convidadas a formar polos do Futebol de Rua em suas respectivas comunidades. Nesta reunião, eu conheci o Rodrigo e o Eleílson quando estava representando o CEDECA Sapopemba. Demonstramos interesse em participar do projeto, mas para mim seria apenas como oficineiro de um polo. No entanto, após as visitas nas oficinas, o Rodrigo me convidou para fazer parte da equipe responsável, tanto pela formação da delegação brasileira quanto dos preparativos para o Mundial de Futebol de Rua. Assim iniciei minha trajetória na ONG, na qual realizo as visitas nos polos para realizar o acompanhamento das turmas, a formação dos adolescentes mediadores e a organização dos encontros dos polos.

Durante o Mundial, eu fiquei junto com as duas delegações de São Paulo que representaram o Brasil, meu papel foi muito além de um técnico para o grupo, pois formamos as duas equipes com jovens de seis polos em um período de quinze dias. Até então, eles praticavam o Fútbol Callejero em suas comunidades, não tinham jogado juntos, as rodas de conversas eram constantes para podermos controlar esse lado competitivo e individual de cada um. Acredito que formamos uma família, na qual há brigas, sorrisos e muitas emoções.

Com certeza, a maior dificuldade é encontrar parceiros que acreditem na ideia, hoje eu garanto que muitos que deixaram de apostar nesse projeto se arrependeram, pois a visibilidade do Mundial foi o máximo. Durante quinze dias, estávamos na cobertura de todos os telejornais, recorda Vandrigo Lugarezi

Universidade do Futebol – Por favor, explique um pouco mais sobre o Mundial de Futebol de Rua, suas regras, sua história, e como acontece a disputa.

Vandrigo Lugarezi – O Mundial foi um desafio que a Ação Educativa, junto com a FUDE e suas parceiras, realizou em São Paulo simultaneamente a Copa do Mundo. Vejo como uma conquista de todos que lutaram para que esse sonho se tornasse realidade, foi o primeiro Mundial independente, sem a participação da Fifa. As organizações conseguiram participar sem depender das promessas, que nem sempre eram cumpridas da instituição máxima do futebol. Mostramos que, com um bom planejamento, é possível realizar um evento em âmbito internacional.

Foi posto em prática a metodologia que propicia a interação dos participantes dos quatro cantos do mundo e a equipe vencedora provou que, para ser campeã, é preciso equilibrar a vontade de vencer com os valores que são pautados no terceiro tempo. As partidas não têm juiz, os participantes constroem as regras no primeiro tempo em uma roda de conversa organizada por dois mediadores. Estes precisam estabelecer o diálogo das equipes em caso de idiomas diferentes e possuem uma planilha na qual são anotadas as regras propostas para a realização do jogo.

No segundo tempo, a bola rola durante vinte minutos e, após o fim do jogo, a partida tem continuidade no terceiro tempo, quando são discutidos os valores que pontuam mais três pontos para cada equipe. Respeito: se a equipe cumpriu as regras propostas e respeitou os participantes. Cooperatividade: se houve o trabalho em grupo e se todos participaram do jogo ativamente. Solidariedade: este item não nos dá regras específicas para avaliar, pois a solidariedade deve ser uma atitude espontânea do ser humano e esse momento depende muito mais do que cada um sentiu durante a partida individualmente ou como um grupo.

A responsabilidade social deve começar dentro da sua própria casa, temos bons exemplos na Europa como o Barcelona e o Porto, eles não promovem apenas ações sociais externas, o trabalho inicia dentro do clube, dando aos atletas das categorias de base toda estrutura para sua formação pessoal. Isso é ter um compromisso com a sociedade, independente se o garoto ou a garota será jogador ou não. O papel dos clubes é fundamental para o futuro desses jovens, aponta o educador

Universidade do Futebol – Quais as principais dificuldades para se organizar um evento deste porte? Quais as contribuições e incentivos que tiveram?

Vandrigo Lugarezi – Com certeza, [a maior dificuldade] é encontrar parceiros que acreditem na ideia, hoje eu garanto que muitos que deixaram de apostar nesse projeto se arrependeram, pois a visibilidade do Mundial foi o máximo. Durante quinze dias, estávamos na cobertura de todos os telejornais.

Aqueles que procuraram formar uma parceria apenas para promover suas marcas não tiveram as portas abertas, não era essa a nossa intenção. A equipe da Ação Educativa criou diversas estratégias para capitalizar recursos para que o Mundial acontecesse e ainda viabilizar as viagens de algumas delegações que não tinham condições de vir para o Brasil. O Sindicato dos Trabalhadores da Volkswagen e a Petrobras foram algumas parceiras que ajudaram, além de todo apoio que recebemos da vice-prefeita de São Paulo e algumas secretarias.

Se um atleta tem o suporte necessário fora dos gramados, a tendência é a sua carreira deslanchar. Eu insisto muito em dizer que é preciso preparar esses jovens para a sociedade e não para o clube, pois a vivência no clube é passageira, já a sociedade é permanente em suas vidas, afirma Vandrigo Lugarezi

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais as características que um esporte como o futebol possui que são mais benéficas para um projeto social?

Vandrigo Lugarezi – O futebol, em nosso país, é cultural, há toda uma atmosfera que envolve essa modalidade esportiva. Mas não basta construir quadras e campos espalhados pelas cidades, o espaço por si só não promove a atividade, é preciso se apropriar desses espaços para fazer algo diferente que deixa uma semente plantada na comunidade.

E é por isso que eu acredito no Fútbol Callejero, o projeto não tem uma visão assistencialista e sim busca a transformação, o futebol torna o pretexto para reunirmos um grupo e, a partir disso, discutirmos valores e direitos.

É preciso focar na transformação, não podemos dar o peixe pra pessoa comer, temos de ensinar a pescar. Esse ditado é tão velho quanto à falta de estratégia de alguns órgãos e instituições que se autorrotulam defensores de direitos, porém não conseguem contribuir de maneira positiva para o protagonismo dos jovens brasileiros, avalia

Universidade do Futebol – Já o Futebol de Rua tem valores fortes em relação à cidadania e ao respeito. Infelizmente no futebol profissional não vemos muito esses valores. Você acha que o Futebol de Rua poderia ajudar na formação dos nossos jogadores, trabalhando esses valores que são fundamentais na vida de um profissional?

Vandrigo Lugarezi – Isso é fato, se um atleta tem o suporte necessário fora dos gramados, a tendência é a sua carreira deslanchar. Eu insisto muito em dizer que é preciso preparar esses jovens para a sociedade e não para o clube, pois a vivência no clube é passageira, já a sociedade é permanente em suas vidas.

Quantos jovens ficam no anonimato das categorias de base e veem seus sonhos não se realizarem? E aí vem a questão do quer adiante. O Brasil ainda está atrasado em relação à infraestrutura oferecida aos jovens que buscam essa carreira, e não podemos acusar os empresários porque muitas vezes são eles que assumem o papel do clube em dar um suporte aos atletas fora de campo.

O Futebol de Rua oportuniza a formação de cidadãos sem retirar o sonho de meninos e meninas que pretendem ser jogadores. Procuramos sempre contextualizar os acontecimentos da sociedade e do futebol, mostrar para eles histórias de sucesso, mas também o outro lado da moeda, como os casos do Adriano, Garrincha, Heleno, Paul Gascoigne, entre outros.

No terceiro tempo, são conversados sobre três valores. Respeito: se a equipe cumpriu as regras propostas e respeitou os participantes. Cooperatividade: se houve o trabalho em grupo e se todos participaram do jogo ativamente. Solidariedade: este item não nos dá regras específicas para avaliar, pois a solidariedade deve ser uma atitude espontânea do ser humano e esse momento depende muito mais do que cada um sentiu durante a partida individualmente ou como um grupo

Universidade do Futebol – A Lei de Incentivo ao Esporte é favorável ou não para a utilização do futebol como promoção de desenvolvimento social no Brasil? Por que?

Vandrigo Lugarezi – Acredito que [é favorável] sim, porém as instituições precisam cumprir o que está no papel. É preciso ter um acompanhamento do governo para ver se realmente o investimento trará bons frutos. Os projetos devem ser analisados com coerência para atender a demanda conforme a realidade. Se for tratada com seriedade, a Lei de Incentivo contribui para o desenvolvimento social.

Universidade do Futebol – No esporte, de que modo pode-se trabalhar a questão social sem decair no mero assistencialismo?

Vandrigo Lugarezi – Como disse anteriormente, é preciso focar na transformação, não podemos dar o peixe pra pessoa comer, temos de ensinar a pescar. Esse ditado é tão velho quanto à falta de estratégia de alguns órgãos e instituições que se autorrotulam defensores de direitos, porém não conseguem contribuir de maneira positiva para o protagonismo dos jovens brasileiros.

O esporte possibilita essa aproximação dos profissionais com os jovens, porque alguns não têm uma referência, mas para isso acontecer, esses profissionais devem estar aptos a abordar temas que ultrapassam o ambiente esportivo e que ajudam na formação social.

Por onde passamos, identificamos que essa metodologia contagia. Somos cientes que temos muito trabalho pela frente e precisamos adequar e inovar para não deixar o Fútbol Callejero cair no marasmo. A intenção agora é formar uma Rede de Futebol de Rua para que os jovens mediadores possam se apropriar ainda mais do projeto e multiplicar essa semente, prevê o membro da ONG Ação Educativa e organizador do Mundial de Futebol de Rua 

Universidade do Futebol – Como você enxerga o papel dos clubes sobre a responsabilidade social do futebol?

Vandrigo Lugarezi – Leio muito sobre as ações sociais que os clubes brasileiros promovem, entretanto, vejo isso mais como uma autopromoção. A responsabilidade social deve começar dentro da sua própria casa, temos bons exemplos na Europa como o Barcelona e o Porto, eles não promovem apenas ações sociais externas, o trabalho inicia dentro do clube, dando aos atletas das categorias de base toda estrutura para sua formação pessoal. Isso é ter um compromisso com a sociedade, independente se o garoto ou a garota será jogador ou não. O papel dos clubes é fundamental para o futuro desses jovens.

O futebol, em nosso país, é cultural, há toda uma atmosfera que envolve essa modalidade esportiva. Mas não basta construir quadras e campos espalhados pelas cidades, o espaço por si só não promove a atividade, é preciso se apropriar desses espaços para fazer algo diferente que deixa uma semente plantada na comunidade, analisa Vandrigo Lugarezi

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual o perfil profissional adequado para pessoas que desejam trabalhar com projetos sociais como o de vocês?

Vandrigo Lugarezi – Precisam ser pessoas que acreditam que, por meio do futebol, é possível formar cidadãos capazes de serem protagonistas de suas próprias vidas dentro da sociedade, profissionais que buscam desafios que vão além do futebol por rendimento, que estejam dispostos a encontrar o equilíbrio do espírito competitivo com a empatia pelo próximo.

Por onde passamos para relatar um pouco desse projeto, identificamos que essa metodologia contagia. Somos cientes que temos muito trabalho pela frente e precisamos adequar e inovar para não deixar o Fútbol Callejero cair no marasmo. A intenção agora é formar uma Rede de Futebol de Rua para que os jovens mediadores possam se apropriar ainda mais do projeto e multiplicar essa semente.  

 

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