Geaf

15/08/2007

Velocidade aplicada ao futebol

O conceito de capacidade de velocidade, normalmente empregado na forma cíclica e acíclica, tem como uso comum e mais difundido o potencial de deslocamento de uma atleta de um ponto a outro, como no primeiro caso, ou associado ao termo rapidez (mudança de direção), como no segundo.

De acordo com Weineck (2000), “a velocidade acíclica trata de movimentos em pequenos espaços, ações isoladas, enquanto a velocidade cíclica compõe-se de movimentos repetidos e velocidade ou corridas de velocidade”.

Tratando o treinamento de futebol sob uma perspectiva diferente da tradicional é importante que se produza outro emprego do conceito de velocidade e assim verificar com mais eficácia este aspecto.

O treinamento de velocidade, muitas vezes dissociado do trabalho com bola, merece uma intervenção mais ampla e abordagem totalmente associada ao componente tático. As manobras ofensivas coletivas e individuais são todas realizadas com alta intensidade, bem como a movimentação defensiva para evitá-las que se tornam necessárias.

As execuções dos gestos motores exigidos em cada fundamento técnico executado devem ser feitos com a rapidez exigida em cada jogada. Com isso, três aspectos relacionados ao aprimoramento das capacidades táticas são exigidos: Percepção, antecipação e tomada de decisão.

Em outra definição Weineck (2000) define que “a velocidade do jogador de futebol é uma capacidade verdadeiramente múltipla, as quais pertencem não somente o reagir e agir rápido, a saída e a corrida rápida, a velocidade no tratamento com a bola, o sprint e a parada, mas também o reconhecimento e a utilização rápida e certa da situação.

Neste contexto, o treinamento de velocidade isolado perde sua importância no que se refere ao volume empregado para desenvolvê-la de forma pura e neste sentido passa a atuar como ativador de fibras rápidas desenvolvendo esta valência dentro das limitações individuais de cada jogador, principalmente considerando o futebol profissional (quem é veloz é sempre veloz, quem é lento é sempre lento).

Assim o objetivo do treinamento de velocidade não se limita a aprimorar a velocidade de um atleta, mas também aprimorar a velocidade da equipe, ou seja, a velocidade de jogo. Isso implica em se enfatizar nos treinamentos situações de jogo em velocidade em que são exigidos execuções de fundamentos com rapidez e manobras intensas de acordo com a proposta tática geral da equipe. De forma que os atletas possam trabalhar dentro de uma percepção mais efetiva e dinâmica do jogo.

A adaptação pelo treinamento vai acontecer especificamente à carga imposta, ou seja, os efeitos do treino de velocidade vão ocorrer sobre os componentes técnicos, táticos, físicos e também psicológicos (o pensamento de uma equipe que joga com rapidez, por parte dos atletas interfere nos estados mentais de jogo de equipe). De acordo com McArdle, Kacth e V. Kacth “para maior simplicidade, o exercício específico desencadeia adaptações específicas que criam efeitos específicos do treinamento”, por este aspecto entende-se que o aprimoramento de um jogo rápido ofensivamente e/ou defensivamente vai surtir efeitos pretendidos no aspecto tático coletivo e individual.

É importante reforçar que a aplicação modelo de jogo pretendido pela comissão técnica vai nortear as adaptações físicas necessárias, portanto, um time que joga com rapidez e resultado de treinamento tático com ações rápidas que ocorrem dentro dos conteúdos trabalhados para tal comportamento da equipe. Precisamos exercitar o pensar futebol com esta síntese dos conceitos físicos, técnicos e táticos além e claro trabalho mental que cada treinamento pode exigir.

Reforçando este conceito, Mourinho (2006) defende que “não se confunda velocidade de jogo com velocidade do jogo. A primeira está intimamente ligada à velocidade mental, à capacidade de antecipar o que vai acontecer e decidir pela resposta mais adequada, levando-nos para o treino qualitativo, contextualizado. A segunda está, na maioria das vezes, associada a muito deslocamento, a correria, ao jogar à pressa… a uma obsessão pela velocidade! E leva-nos para o treino quantitativo, abstrato!”

Isto nos sugeriu que o processo de organização de treinamento de futebol seja revisto e realizado mediante a especificidade da modalidade e principalmente da preparação tática geral e específica. Provavelmente o caminho mais correto vai ser, mais uma vez, o exercício desta síntese de conceitos de treino com direção para esta modalidade.

*Preparador Físico do Clube Atlético Mineiro e membro do GEAF

Bibliografia consultada:
MOURINHO, por quê tantas vitórias? – Oliveira, Amieiro, Resende, Barreto- Gradiva – 2006
FISIOLOGIA DO ESPORTE E DO EXERCÍCIO – Wilmore e Costill, segunda edição – Manole – 2001
FUTEBOL TOTAL , WEINECK – PHORTE EDITORA – 2001

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