Velocidade: o elo entre a vitória e a derrota no futebol

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A velocidade é observada em todos os esportes com diferentes formas de manifestação. Essa valência física pode ser caracterizada simplesmente como uma capacidade de realizar um movimento no menor espaço de tempo.
 
No futebol, destacam-se: velocidade de força, velocidade de percepção, velocidade de antecipação, velocidade de decisão, velocidade de reação, velocidade de movimento sem a bola (cíclica e acíclica), capacidade de aceleração, resistência de sprint, resistência de velocidade, velocidade de ação com bola e velocidade-habilidade.
 
A velocidade de força é a capacidade de executar com rapidez ações motoras contra resistências maiores – no futebol, por exemplo, as corridas com cordas de tração na areia. A velocidade de percepção se refere à capacidade que o jogador tem em estar sempre atento às ações que ocorrem durante o jogo, para estar pronto para perceber (identificar) o mais rápido possível as ações de seus companheiros e adversários para que em tempo hábil se posicione de maneira correta taticamente. Somente os jogadores mais experientes são capazes de perceber e escolher as informações mais relevantes durante o jogo. O jogador experiente não olha somente a trajetória da bola, ele olha o comportamento/posicionamento de seus companheiros e adversários podendo assim agir de modo rápido e eficiente. Esses jogadores possuem um campo visual desenvolvido e sempre agem no momento certo.
 
A velocidade de antecipação está relacionada com a capacidade de percepção, pois a partir do momento que o jogador é capaz de observar e perceber para onde a bola vai, a ação de seus companheiros e adversários, ele é capaz de antecipar uma ação ofensiva ou defensiva, uma jogada de contra-ataque e planejar precocemente sua reação. Ela também é maior no jogador experiente por ser capaz de se posicionar automaticamente no lugar certo e na hora certa, evitando qualquer tipo de jogada inesperada (PRADO, 1973; BARBANTI, 1997; WEINECK, 2004; HOLLMANN, HETTINGER, 2005).
 
A velocidade de reação é a velocidade com a qual o atleta é capaz de responder a um estimulo, é imprescindível ao goleiro de futebol. Se o atleta estiver aquecido, a velocidade de reação será mais rápida e, portanto, o tempo de reação é mais baixo. A velocidade de reação é influenciada negativamente pelo frio, pois o atleta com certeza estará com sua concentração mais baixa, por intervalos não habituais de estímulos e por fatores ambientais que atrapalham (chuva, vento, etc.). As reações podem ser simples ou complexas.
 
As reações complexas se subdividem em disjuntivas e diferenciadas. As reações disjuntivas são reações que não podem ser realizadas ao mesmo tempo – a reação do jogador de futebol que deve chutar a bola para o gol ou passá-la para seu companheiro.
 
As reações diferenciadas exigem muita atenção para que se decida rapidamente a ação mais adequada ao estímulo, à suspensão de uma resposta já iniciada ou à mudança do modo de agir. O jogador de futebol que ao estar atacando inicia a ação para o chute ao gol, mas percebe que a defesa mudou a posição e irá neutralizá-lo e decide passar a bola para seu companheiro que está em uma posição mais favorável, é um exemplo. Portanto, a velocidade de reação é importantíssima para a performance do jogador de futebol, precisa-se dela para acompanhar as sequências rápidas do adversário para tentar reagir às fintas, nas bolas divididas, nos deslocamentos em espaços vazios, para fugir da marcação ou em situações inesperadas como bolas mal passadas ou no rebate da bola na trave (TUBINO, 1979; PLATONOV, 2004).
 
No futebol, alguns gols são marcados porque o jogador demorou para chutar ou não decidiu o que faria com a bola. Isso mostra que ter somente uma boa velocidade de percepção e antecipação não são suficientes e que uma boa velocidade de decisão também é importante. Assim como nas velocidades de percepção e antecipação, aqui, o jogador experiente também leva vantagem sobre o inexperiente, pois suas decisões são direcionadas para ações efetivas que estão à sua disposição. Jogadores que recebem muitas orientações do seu treinador tomarão decisões mais rapidamente, porém previsíveis devido à falta de criatividade para se decidir sozinho. A velocidade de ação está relacionada com a quantidade de ações no jogo, pois a primeira depende em grande parte da velocidade e da correção dos processos de decisão. O jogador só conseguirá surpreender o adversário ao usar no menor tempo possível as informações importantes para o jogo. Jogadores de alto nível (experientes) conseguem fazer isso com poucas informações, ao contrário dos iniciantes, que necessitam de muitas informações. Para que o jogador tenha uma alta velocidade de ação, ele deve ter uma alta capacidade de percepção, antecipação, decisão, reação e movimentos de ação reunidos. A velocidade de ação está relacionada com a performance do jogador, onde aqueles com melhor performance possuem alta velocidade de ação e consequentemente um menor número de erros de performance.
 
O treinamento da reação é importante e deve ser especifico, ou seja, deve ser treinado de acordo com as situações do jogo. No futebol, estímulos visuais são mais propícios, pois assemelham-se ao jogo, onde observa-se o comportamento da equipe ou do adversário (ex.: passe e aceleração do companheiro ou finta do adversário com condução de bola). Estímulos acústicos (sonoros) que visam chamar a atenção do companheiro servem como componente auxiliar no treinamento, exemplo “vai”, “chuta” ou “passa a bola”, com diferentes entonações de voz (WEINECK, 2004).
 
Temos também a velocidade acíclica, que no futebol se manifesta nas ações sem a bola, como, por exemplo, os movimentos realizados em pequenos espaços (ações isoladas), movimentos de parada, fintas de corpo, saltos, giros, mudanças de direção.
 
A velocidade cíclica é representada por movimentos repetidos em velocidade ou corridas de velocidade, por exemplo, corrida para a bola, fugir da marcação do adversário, corrida com salto ou cabeçada, corrida do goleiro para saltar e defender o gol. A força do grupo muscular empregado é observada nas performances que exigem força explosiva, como o chute no futebol ou a cortada no vôlei. A eficiência do sistema neuromotor depende da predisposição genética da pessoa. Mas devido ao treinamento, há uma hipertrofia seletiva das fibras musculares devido à especificidade do treinamento (DANTAS, 1998).
 
A capacidade de aceleração é fundamental no futebol para que o ataque ou defesa sejam bem sucedidos na disputa de bola, para evitar lesões, fugir da marcação, fintar o oponente, nas arrancadas explosivas, corrida livre, realizar cruzamentos, dentre outros. Juntamente com a resistência aeróbia e anaeróbia, a capacidade de aceleração no futebol é a qualidade física mais importante. Alguns estudos demonstram que, no futebol, os jogadores chegam a realizar de 40 a 100 sprints em uma única partida, e a maioria dos sprints são de até 25 metros. No treinamento de velocidade devem ser treinados sprints com distâncias curtas de até 25 metros. Alguns fatores limitam a capacidade de aceleração, como, por exemplo, tipo de musculatura, força muscular, fornecimento de energia muscular, capacidade de coordenação neuromuscular, intramuscular e intermuscular, a elasticidade e descontração da musculatura, estado de aquecimento da musculatura e a fadiga (WEINECK, 2004).
 
A resistência de sprint é a capacidade de o jogador realizar vários sprints máximos sem diminuir a capacidade de aceleração. O jogo de futebol exige constante variação da velocidade com inúmeras acelerações máximas. A resistência de sprint está relacionada com a capacidade de recuperação do jogador. Quanto maior essa capacidade de recuperação, maior a resistência de sprint e, consequentemente, maior o número de sprints. A resistência de sprint pode ser melhorada com um treinamento integrado ao jogo ou dividido em séries de aceleração máxima. O método Fartlek ou Intervalado aumenta a resistência de sprint por ser um método de treinamento semelhante ao jogo.
 
A resistência de velocidade é a capacidade de manter por longo tempo a maior velocidade possível. No caso do futebol, o jogador realiza corridas com intensidade máxima com distâncias que não ultrapassam 30 ou 40 metros e a corrida do jogador de futebol caracteriza-se por movimentos com constantes trocas de movimentos de saída, sprint, frenagem e mudança de direção (dribles, disputas de bola, etc) (WEINECK, 2004).
 
A velocidade de ação do jogador com bola e a velocidade-habilidade são elementos que dependem da pressão do tempo, do adversário, do espaço em que se encontra, do ritmo de jogo, do ritmo com que se conduz a bola, precisão do drible (mais ou menos preciso). A velocidade de ação com bola depende também da capacidade de percepção, antecipação, decisão e reação. Porém, quanto maior a velocidade de ação, menor a precisão da ação.
 
A velocidade-habilidade deve ser controlada de modo que os processos cognitivos e motores das ações de jogo técnico-táticas sejam controlados emocional e motivacionalmente de diversas maneiras de acordo com as situações de jogo. Essa velocidade-habilidade seria uma ação rápida com alta performance e precisão. O jogo de futebol exige velocidade e fortalecimento corporal onde a maioria das ações de ataque e defesa obedecem à pressão do tempo e exige do jogador cada vez mais velocidade-habilidade.
 
Enfim, a velocidade-habilidade para o jogador de futebol é fundamental na sua performance durante a partida. Ao longo do processo de treinamento, devem-se adicionar elementos que exijam ações rápidas e precisas, como a pressão do tempo, espaço reduzido, adversários, comandos que alternam o ritmo de jogo, ou seja, condições que colocam o jogador em situações de percepção, antecipação muito exigentes, fazendo com que ele tome ações objetivas e adequadas ao jogo sob pressão, semelhante a condições de disputa.
 
Os fatores que influenciam a velocidade podem ser diferentemente observados em cada modalidade esportiva. O futebol possibilita a apreciação desses fatores, onde, segundo Berredek e Palfoi (1980), a velocidade dos jogadores de futebol é uma capacidade múltipla que depende da rápida reação, do manuseio da situação, da rapidez em iniciar o movimento e das sequências do mesmo, da aptidão com a bola, do drible e também do rápido reconhecimento e utilização das respectivas situações. Ao contrário da força muscular e da resistência, a velocidade depende menos do treinamento e está mais dependente de fatores hereditários. A velocidade pode ser melhorada, aperfeiçoada.
 
Para aperfeiçoar a velocidade de deslocamento, basta aperfeiçoar a força muscular, pois a relação entre velocidade e força muscular é positiva. A técnica de execução do movimento é outro fator que pode ser aperfeiçoado para aumentar a velocidade, onde a técnica de execução de saídas e chegadas, movimentação de pernas e braços, a posição do tronco, também contribuem para o melhor rendimento da velocidade de deslocamento (WEINECK, 2003).
 
Enfim, a velocidade é imprescindível para o futebol e seu treinamento é extremamente importante para tornar o jogador mais “veloz” e ágil ao mesmo tempo. A resistência bem desenvolvida, associada à velocidade, representa um fator determinante para a “performance”. Onde a capacidade de se percorrer uma distância no menor tempo possível pode muitas vezes determinar o resultado de uma partida de futebol, como acontece muitas vezes onde o jogador ao realizar um “sprint” fica em condições de fazer o gol. Por isso é necessário trabalhar a velocidade em suas diversas formas de manifestação dentro da modalidade em questão.
 
Bibliografia
 
BARBANTI, V. J. Teoria e Prática do Treinamento Esportivo. São Paulo: Editora Edgard Blücher LTDA., 1997.
 
DANTAS, E. H. M. A prática da preparação física. Rio de Janeiro: Editora Shape, 1998.
 
HOLLMANN, W., HETTINGER, T. Medicina do esporte: fundamentos anatômico-fisiológicos para a prática esportiva. Barueri, SP: Editora Manole, 2005.
 
PLATONOV, V. N. Teoria geral do treinamento desportivo olímpico. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004.
 
PRADO, A. C. M. Metodologia do treinamento desportivo. Itapetininga: Editora DEDALUS EEF – USP, 1973.
 

TUBINO, M.J.G. Metodologia cientifica do treinamento desportivo. São Paulo: Editora Ibrasa, 1979.

 
WEINECK, J. Treinamento ideal: instruções teóricas sobre o desempenho fisiológico, incluindo considerações especificas de treinamento infantil e juvenil. São Paulo: Editora Manole, 2003.
 
________. Futebol total: o treinamento físico no futebol. Tradução: Sérgio Roberto Ferreira Batista. Guarulhos: Editora Phorte, 2004.

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