Universidade do Futebol

Geffut

19/08/2009

Velocidade: simples ou complexa?

“Não é mais rápido quem corre mais ligeiro, mas sim quem resolve antes”
Sr. Menotti
 
“Quando vemos um jogador a fazer um sprint em campo, é porque ele arrancou tarde demais”
Cruyff
 
O futebol é considerado um desporto eminentemente perceptivo-cognitivo, uma vez que no decorrer do jogo os jogadores encontram-se absorvidos pelas alterações que se processam no envolvimento, através do movimento dos companheiros, dos adversários e da bola (ROMERO CEREZO, 2000).
 
Atualmente, o desporto-rei requer um ritmo muito mais elevado e cobra dos jogadores um empenho permanente, pelas exigências crescentes que os sistemas defensivos cada vez mais pressionantes acarretam aos processos ofensivos (GARGANTA, 1999).
 
Essa inevitável evolução do jogo tornou o desporto mais rápido e intenso, diminuindo o espaço para jogar. Em cima disso, a velocidade tornou-se um fator determinante para obtenção de um rendimento elevado.
 
Muito discutida por especialistas, essa valência ainda é perspectivada por conceitos tradicionais encontrados em livros, onde seus aspectos são gerais e descontextualizados daquilo que é o futebol.
 
Nesse panorama de velocidade clássica, englobam-se apenas os aspectos motores e fisiológicos. Assim, treinam-se sprints lineares constantes de 10, 20 e 35 metros; ou seja, sua compreensão volta-se apenas para o tempo de movimento.
 
Sendo o futebol um esporte perceptivo-cognitivo, conforme citado anteriormente, questiona-se se essa única velocidade, puramente física, é tão imprescindível para o futebolista.
 
Se fizermos uma análise da estrutura do futebol, fica evidente que várias são as suas velocidades (velocidade de percepção, velocidade de antecipação, velocidade de decisão, velocidade de reação, velocidade de movimento sem bola, velocidade de ação com bola e velocidade de ação de jogo). Além disso, os atletas nunca repetirão 50 tiros nas mais variadas distâncias em linha reta sem lidar com trocas de direção, a trajetória da bola, as armadilhas ou dificuldades impostas pelo adversário e outras variáveis pertencentes a lógica interna do futebol.
 
Desse modo, a velocidade no futebol não deve ser apenas perspectivada em relação a questões de ordem fisiológica, mas através da complementaridade das capacidades perceptivas, decisionais e motoras. Então, enfatiza-se a importância da leitura e velocidade de jogo, entendendo-a como uma dimensão táctico-técnica, perceptiva e informacional. Ou seja, a expressão da velocidade decorre não apenas da brevidade de reação aos estímulos ou da velocidade gestual, mas também do tempo necessário à identificação, ao tratamento rápido da informação e ao reconhecimento e avaliação das situações complexas de jogo (GARGANTA, 1999).
 
Corroborando essa ideia, Schellenberger (1990) afirma que uma ação pode ser executada em diferentes velocidades, de acordo com as necessidades tácticas.
 
A partir desse entendimento, fica nítido que a dimensão estratégico-táctica reveste-se de um papel determinante, onde o conceito de velocidade ultrapassa claramente a concepção que a define como a capacidade de executar ações motoras no mais breve tempo possível (GARGANTA, 1999).
 
Sustentando esse conceito, o autor supracitado assegura que será de grande importância não só ser mais rápido a chegar ou a realizar, mas também a pensar, a encontrar a resposta, a identificar o erro e a descodificar o envolvimento. Resumidamente, “mais rápido e melhor a perceber, a pensar e a executar”.
 
Nessa perspectiva, Vieira (1998) afirma que o treino da velocidade complexa compreende a formação dos componentes cognitivos, devendo incidir no processo de percepção e análise da situação.
 
Dessa forma, de nada adianta o atleta ser o mais veloz em todos os testes e treinos físicos, se o mesmo não consegue transferir essa velocidade para o jogo. Simplesmente poderá ser menos efetivo que um atleta lento na dimensão física, mas mais veloz nas respostas decisionais.
 
Nesse contexto, torna-se claro que para a velocidade ser especifica, é imprescindível colocá-la no ambiente do jogo. Se a mesma está relacionada com o jogar, é inevitável planificar treinamentos que proporcionem a análise das situações-problemas, o entendimento dos espaços e principalmente a antecipação das ações e a percepção do que o adversário poderá fazer.
 
Portanto, a velocidade no futebol ultrapassa sua forma simplista, como é entendida, partindo para uma proposta sistêmica, sendo desenvolvida no contexto do jogo. Abranger apenas os aspetos motores e fisiológicos é esconder a sua real face; é não perceber que, antes disso, vêm o decidir rápido, o tomar decisões.
 
Após essas breves colocações, acredito que estamos em condições para reflexionarmos sobre qual orientação metodológica devemos adotar em nossos treinamentos de velocidade no futebol, sobretudo após sabermos que muitos profissionais que trabalham com a velocidade complexa estão tendo fantásticos resultados.
 
Para finalizar, trago uma declaração de Luis Figo ao jornal Publico: “Não tenho uma jogada premeditada. Não posso dizer: bom, hoje vou fazer isto. Os jogos são diferentes e os movimentos também. Não tenho uma jogada preferida: nem o gol, nem a assistência, nem me considero apenas um passador. Não tenho um repertório para fazer uma coisa e outra. Associo o futebol à rapidez. O importante é pensar rápido, executar rápido, entrar rápido no jogo e isso não depende apenas de mim, mas tenho que tentá-lo, procurar que a mente seja mais veloz que as pernas”.
 
 
Bibliografia
 
FIGO, L. Sem a bola, fico louco (Entrevistado por Ramon Besa e Angels Pinol). In Jornal PÚBLICO de 15/11/99.
 
ROMERO CEREZO, C. Hacia una concepción más integral del entrenamiento en el fútbol. Educación Física y Deportes. Rev. Digital, n.19. 2000. Disponível em: .
 
GARGANTA, J. O desenvolvimento da velocidade nos jogos desportivos colectivos. Rev. Treino Desportivo (1999).
 
SCHELLENBERGER, H. Psychology of team sports. Sports Book Publisher. Toronto (1990).
 
VIEIRA, J. Estudo do fator físico desportivo. In Metodologia do treino desportivo: 353-404. Ed. FMH. Lisboa (1998).

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