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14/10/2013

Viajando com a equipe: o papel do psicólogo do esporte

Os compromissos esportivos, no decorrer de um campeonato, fazem com que uma equipe ou atleta estejam em constantes viagens, longas ou não. Estas viagens necessárias podem se transformar em peças importantes para os resultados esportivos, desde que bem planejadas ou analisadas com antecedência.

Tal planejamento deve levar em consideração alguns elementos decisivos para o trabalho que se executa. Portanto, é necessário que o psicólogo do esporte saiba como lidar com o estresse e com os demais eventos específicos que possam ocorrer no decorrer desse período .

O conhecimento prévio da saúde psicológica e emocional do atleta passa a ser um elemento de grande importância, neste momento. Na proposta deste conhecimento, ora apresentado, entram questões, tais como: treinamento das habilidades mentais e plano ideal para o rendimento psicológico, gerenciamento dos riscos, o uso adequado das informações da mídia e intervenção em momentos decisivos.

Treinamento das habilidades mentais

Em linhas gerais, a atividade esportiva se distingue por vivências emocionais fortes e intensas que exigem que o atleta saiba dominar e dirigir suas emoções para a solução das tarefas esportivas, sem perder o domínio de si mesmo. Estas emoções podem exercer uma influência positiva ou negativa sobre os processos orgânicos e a conduta do desportista. O aumento do estresse nas competições, por exemplo, pode fazê-lo reagir física e mentalmente de maneira negativa e isto irá afetar seu desempenho.

O psicólogo do esporte deve poder detectar e avaliar as necessidades psicológicas dos atletas; planificar, de acordo com o regime de competições, o trabalho psicológico para que os atletas desenvolvam e aperfeiçoem as habilidades psicológicas que correspondem à fase competitiva: a) segurança em suas possibilidades, grau de entusiasmo e esforço e desejo de participação; b) concentração na atividade, atenção e tenacidade; c) espírito competitivo, qualidades combativas, decisão, vontade de vencer e, d) estabilidade psíquica e vontade de autodomínio.

Gerenciamento dos riscos

Saber como lidar com os riscos que possam surgir em uma viagem cobra do profissional da Psicologia do Esporte um plano de desenvolvimento que atenda aos itens acima, reforçando a resistência psicológica de seus atletas.

Em uma viagem, os riscos são das mais variadas formas e ordens. Vários são os casos de atletas que chegam ao aeroporto sem seu passaporte sendo, portanto, impedidos de viajar. Ou de técnicos que chegam ao campo sem a devida documentação para iniciar a partida. Em ambos os casos, temos um estresse demasiado que poderia ser evitado e que necessita ser administrado adequadamente para que não venha a interferir no resultado final do trabalho.

Outra questão desconfortante, que vem a ser um risco sério, é a interferência exercida pela família, seja por necessidades econômicas ou emocionais, que entram no ambiente esportivo às vésperas de competições decisivas.

Ao contatar o atleta, a família transfere para ele o clima instável existente no interior da mesma, "contaminando-o" com problemas que poderão alterar seu estado de humor e de concentração, exatamente na fase em que todo esforço deve estar centrado na busca dos objetivos individuais e coletivos. Esta sensibilização merece atenção e perícia em sua abordagem pelo psicólogo do esporte, uma vez que a família representa um universo relativamente intocável para o atleta, e isto significa que qualquer notícia recebida da família tem um alto poder de alterações emocionais e comportamentais, tanto positivas quanto negativas, e necessitam, portanto, ser bem trabalhadas.

A segurança, a alimentação, a temperatura ambiente e os aspectos culturais são outros riscos aos quais se deve ter atenção com a mesma seriedade. A existência de conflitos regionais, de conflitos graves entre equipes ou mesmo da possibilidade de conflitos de maior grandeza, como um ataque ou risco de sequestros, tiros, etc. são elementos que contribuem para a instabilidade emocional dos atletas, merecendo um planejamento adequado realizado com antecedência da viagem: o conhecimento da situação geográfica, das relações humanas envolvidas e das possibilidades de conflitos devem ser analisados com bastante atenção pelo profissional da Psicologia do Esporte, para que possa fazer uma adaptação adequada dos atletas em função do momento e local para onde se dirigem.

Diante dos aspectos culturais, temos duas situações diferentes e igualmente importantes: uma diz respeito ao aspecto cultural do local da partida, em especial quando o atleta não tem noção da regionalidade e cultura daquela população: pode haver situações de conflito ao se comportar e falar de uma maneira contrária àquilo que ali se costuma fazer, podendo parecer um insulto, quando se trata apenas de desconhecimento. Esse cuidado é básico para que o preparo psicológico esteja integrando o indivíduo ao grupo, à situação de jogo e à comunidade na qual acontecerá o espetáculo esportivo.

Já a segunda situação, entendemos como mais séria: a da religiosidade. Este aspecto cultural, atualmente, vem atingindo um grupo cada vez maior de atletas que professam uma determinada crença e a manifestam em locais públicos, expondo-se aos olhares, juízos e aceitação dos presentes. Os mais "fundamentalistas" correm riscos maiores de aceitação pública, mas situações práticas têm demonstrado que o atleta será aceito também de acordo com um conjunto de outras habilidades sociais demonstradas no decorrer de sua carreira.

Uma das questões que também podem estar por trás das limitações dos atletas são suas crenças pessoais e suas superstições: algumas delas, do dia a dia, são relativamente inofensivas, chegando, até mesmo, a colaborar com o bom andamento das coisas; outras, entretanto, são crenças limitantes que podem atuar como situações que conduzam indiscriminadamente ao sucesso ou ao azar, mas precisam ser conhecidas e analisadas, em suas práticas, para que possam ser devidamente trabalhadas.

Para que as crenças sejam consideradas como fatores irrelevantes ou como hábitos que favoreçam ao sucesso, será necessário que o psicólogo do esporte respeite a crença do atleta, mas tenha um conhecimento de sua origem para saber de sua aplicação e uma maneira para se tentar "dessensibilizá-lo" de modo a que não crie maiores conflitos.

Uso adequado das informações da mídia

Outro risco que atualmente vem demandando cada vez mais atenção em viagens com a equipe diz respeito à mídia. Qual o real poder de risco da mídia? Como tratá-la? O que oferecer de informação? O que ocultar? A globalização e a velocidade de transmissão das informações, permitida pelo acesso crescente às novas tecnologias de comunicação, vem fazendo da mídia o mais poderoso das componentes sociais que interferem no espetáculo esportivo.

A mídia, muitas vezes, tem sido dura e ácida com atletas, de qualquer modalidade, quando estes, por exemplo, perdem sua forma física e ganham peso, no decorrer de uma temporada. Ou mesmo quando se tem conhecimento de algum problema de relacionamento, quer seja pessoal (no âmbito familiar, amoroso) ou no âmbito do terreno esportivo, com o treinador ou algum colega de equipe. Tais situações, de ordem pessoal, podem ser usadas de duas maneiras: a primeira é aquela em que se torna totalmente negativa, com a total incompreensão da notícia por parte do atleta. A mídia, com sua "tsunami" de informações, reforça a "desgraça" e leva o centro da informação a uma direção desconhecida: pode ser sair mal ou pode se sair muito bem. Aí está a posição do psicólogo do esporte, que deve manejar o fluxo de informações, entre o canal de mídia transmissor de informes e seu público, em especial ao objeto da notícia, reinterpretando a situação de forma favorável ao atleta.

Intervenção em momentos decisivos

Quando os atletas competem eles podem encontrar uma gama de estressores em potencial, incluindo: dor, medo, falta de confiança, demandas psicológicas, estresse do treinador e as demandas da própria competição esportiva.

A intervenção psicológica em momentos de crise vem, portanto, a socorrer e propor um novo plano de ação para os atletas, de forma a garantir que se encaminhem para a busca de seus objetivos de maneira adequada.

Uma lesão, a perda da forma física, problemas de relacionamentos, intromissão dos jornalistas a aspectos da vida íntima e uma derrota inesperada são momentos especiais para uma intervenção.

O ato de viajar com os atletas leva o psicólogo do esporte a ter um plano de atuação bastante objetivo e direto; tem que estar sempre "antenado", como se fosse portador de dois olhos e duas orelhas, captando cada gesto e ação que possa estar sendo dirigido aos atletas ou pelos atletas. A capacidade de antecipação é uma das atribuições profissionais do psicólogo que partilha das viagens.

Atuar como uma opinião independente, sem tomar partido, é uma maneira de poder transitar com igual desenvoltura, tanto entre atletas quanto entre dirigentes e staff técnico. Essa atitude também favorece a ser ouvido e a poder partilhar de conversas em qualquer dos grupos por onde passe, sem que seja visto com cautela ou medo e possibilitando a emissão de seus comentários precisos e pertinentes, nas ocasiões em que forem precisos. Esta atitude é um elemento favorável para que o psicólogo possa atuar com autonomia e esperar por mudanças necessárias, já que é descompromissada de opiniões tendenciosas.

Este comportamento facilitará a ajudar ao treinador e demais membros do staff, que também busquem por posições independentes e outros olhares, sem os vícios de quem está contaminado por uma situação. Além disso, são estas opiniões autônomas que influenciam na crença e na manutenção dos psicólogos do esporte junto aos atletas: emitidas para clarear os papéis que cada um deve desempenhar e na busca da meta planejada, que é um resultado de trabalho em conjunto.

É função do psicólogo que viaja com a equipe facilitar que novos olhares sejam lançados para novas situações-problemas e potencialize o desempenho de cada um. A possibilidade de antecipar e compreender cada parte do problema que se forma, além de planejar, em conjunto, as estratégias a serem tomadas na concretização das mesmas, de modo autônomo e independente, certamente favorecerá um estilo de trabalho em grupo, encorajador e direcionado para o sucesso.

Caso isso não ocorra, terá plenas condições de entender onde houve negligência ou erro e saberá re-planejar para uma nova leitura e um recomeçar de seu trabalho, com igual independência e autonomia, promovendo-o, mais uma vez, junto aos seus atletas.

*Regina Brandão é uma das mais experientes psicólogas do esporte, especializada em futebol, e expert em traçar perfis psicológicos desportivo do atleta de futebol.

Ela Já trabalhou nas principais equipes do futebol brasileiro, como São Paulo, Palmeiras, Santos, Internacional, etc., com passagens pelas seleções nacionais do Brasil e de Portugal – foi uma das referências da comissão técnica de Luiz Felipe Scolari nas duas ocasiões.

Hoje, compõe o corpo docente da Universidade São Judas Tadeu.
 

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