Universidade do Futebol

Entrevistas

20/03/2015

Vinicius Munhoz, técnico do Grêmio Osasco

Apesar de o futebol ainda ser um esporte com grande prestígio no Brasil, as categorias de base no cenário nacional ainda estão muito aquém da importância que merece e do glamour que vemos dos times profissionais na televisão, nos jornais ou em revistas.

E, na atual realidade, na qual os clubes brasileiros tem sofrido ainda mais com a falta de dinheiro, a infraestrutura e as condições de trabalho oferecidas para quem atua direta ou indiretamente na formação ou no desenvolvimento de novos talentos influenciam muito no jogo praticado pelas jovens promessas.

Mas, para Vinicius Munhoz, atual treinador do Grêmio Osasco, esta organização ruim vai muito além dos clubes e a base em geral do futebol brasileiro precisa de uma reformulação, em todos os seus aspectos.

“Eu acredito que poderíamos sim ter mais competições organizadas pelas federações e também pela CBF. O processo de formação de atletas de futebol somente acontecerá na sua plenitude se competições de nível forem oportunizadas aos atletas em formação. Assim, minha sugestão seria organizar uma quantidade maior de competições desde que distribuídas em diferentes faixas etárias, por exemplo, competições para atletas de 20 anos, competições para atletas de 19 anos, competições para atletas de 18 anos”, exemplifica o jovem treinador em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

“Competições sub-20 que concentram as três faixas etárias da categoria, com 20, 19 e 18 anos, acabam por não proporcionar uma quantidade de jogos significativa para aqueles atletas com 18 anos, por exemplo, que acabam muitas vezes sem experimentar as competições de forma significativa durante um ano ou mais na categoria sub-20 devido à utilização de atletas de 19 ou 20 anos, considerados mais experientes”, completa.

Natural de Santa Maria, Vinicius Munhoz começou a carreira como preparador físico e foi vice-campeão paulista da categoria sub-20 no final do ano passado, quando foi derrotado pelo Corinthians somente na segunda partida da decisão. Antes, atuou como assistente técnico da seleção feminina olímpica, medalha de prata em Pequim. Trabalhou com a Marta, Cristiane, a goleira Hope Solo, entre outras estrelas do futebol feminino.

Mas, depois, retornou ao futebol masculino, no qual trabalha até os dias atuais. Por isso, Munhoz sabe identificar as principais carências para o futebol brasileiro se desenvolver nos próximos anos.

“O investimento muitas vezes é alto, mas a política de aproveitamento é muito baixa e, às vezes, inexistente. Creio que temos de seguir o Barcelona, por exemplo, que tem um aproveitamento muito grande de suas categorias de base. Precisa-se chegar a um meio termo. Dar sequência ao treinador de cima, para na base saber como formar, o que ensinar. Porque você forma um jogador para uma filosofia, o treinador é demitido, chega outro treinador, com outros ideais, aí complica todo o processo”, aponta.

Nesta entrevista, Vinicius Munhoz ainda falou sobre como é o modelo de jogo das categorias de base do Grêmio Osasco. Confira: 

Universidade do Futebol – Conte-nos um pouco sobre sua formação, trajetória profissional e sobre seu interesse pelo futebol feminino.
 
Vinicius Munhoz – Sou licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Minhas primeiras experiências profissionais aconteceram no Internacional de Santa Maria no ano de 1999, quando atuei por quatro anos como preparador físico nas categorias de base e também na equipe profissional.
 
Posteriormente, nos anos de 2003/2004, atuei como assistente de Preparação Física na equipe profissional do Grêmio. Já a partir de 2005, iniciei minha trajetória na seleção brasileira de futebol feminino. Nos anos de 2005 e 2006,  atuei como preparador físico e assistente técnico da seleção brasileira de futebol feminino sub-20. Já nos anos de 2008 e 2012, trabalhei na seleção brasileira de futebol feminino olímpica. Tive ainda a oportunidade de atuar como preparador físico do Clube Esportivo de Bento Gonçalves (Masculino) em 2007, durante a participação do clube na Série C do Campeonato Brasileiro.

Já nos anos de 2009/2010, a convite do ex-treinador da seleção brasileira de futebol feminino Jorge Barcellos, atuei como assistente técnico do Saint Louis Athletica, equipe de futebol feminino da cidade de St Louis, nos Estados Unidos, participando da Womens Professional Soccer (WPS), considerada na época a principal Liga de Futebol Feminino Profissional do Mundo.
 
Na volta ao Brasil, nos anos de 2010/2011, atuei também como assistente técnico da equipe sub-20 do Grêmio, no masculino. Tive a função de coordenador técnico do Fragata FC, clube localizado na cidade de Pelotas, onde permaneci até receber o convite para ser o treinador do Osasco sub-20 no ano de 2013 e, posteriormente, para ser o treinador do Grêmio Esportivo Osasco na temporada 2014/2015. 
 
Mas o interesse pelo futebol feminino começou a partir do convite da Confederação Brasileira de Futebol(CBF) para ser o preparador físico da seleção brasileira feminina sub-20. 

O entendimento do clube é que o processo de formação não se encerra quando o atleta completa 20 anos. O jogador precisa ter sequência de trabalho e apostar na metodologia e nos conceitos de jogo que hoje são comuns à base e à equipe profissional do clube, afirma o técnico Vinicius Munhoz
 

Universidade do Futebol – Você poderia nos falar um pouco como ingressou na seleção brasileira feminina de futebol e como desenvolveu o seu trabalho durante este período?
 
Vinicius Munhoz – Ingressei na seleção brasileira de futebol feminino como preparador físico e assistente técnico a convite da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no ano de 2005. O período com a seleção brasileira foi de grande aprendizado já que, até ter esta oportunidade, jamais havia trabalhado com futebol feminino. 
 
Minha atuação na seleção brasileira de futebol feminino sub-20, juntamente com a comissão técnica, foi de auxiliar no processo de captação e formação de atletas para integrar a seleção adulta que já contava com o grupo de atletas remanescentes da participação nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 (medalha de prata), mas que precisava ser renovada tendo em vista o encerramento do ciclo na seleção de algumas atletas. O objetivo da renovação era de encontrar e preparar atletas visando a participação nos Jogos Pan-Americanos Rio-2007, quando fomos campeões, além da Copa do Mundo de Futebol Feminino, na China-2007, onde o Brasil ficou em segundo lugar, e nos Jogos Olímpicos Pequim 2008, quando conquistamos novamente a prata.
 
Na seleção adulta, tive a oportunidade de participar apenas dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, onde perdemos a final olímpica para os Estados Unidos e fomos prata. Ainda na seleção adulta realizamos a preparação e participação para os Jogos Olímpicos Londres 2012, onde fomos eliminados pela seleção do Japão nas quartas de final. 

Competições sub-20 que concentram as três faixas etárias da categoria, com 20, 19 e 18 anos, acabam por não proporcionar uma quantidade de jogos significativa para aqueles atletas com 18 anos, por exemplo, que acabam muitas vezes sem experimentar as competições de forma significativa durante um ano ou mais na categoria sub-20 devido à utilização de atletas de 19 ou 20 anos, considerados mais “experientes”, avalia
 

Universidade do Futebol – E como se deu essa sua mudança para o futebol masculino? Quais as principais diferenças no trabalho da preparação física para estas duas modalidades distintas?
 
Vinicius Munhoz – Na verdade, iniciei no futebol masculino e posteriormente recebi a oportunidade de atuar com a modalidade feminina. Porém, não entendo como "mudança" o fato de atuar ora no futebol feminino ora no futebol masculino e sim como uma excelente oportunidade de atuação e, principalmente, de aprendizado e desenvolvimento profissional. Durante minha passagem pelo futebol feminino, pude vivenciar, tanto na preparação quanto na participação em competições internacionais, diversas situações de aprendizado sobre a modalidade na qual até então havia experimentado apenas dentro do Brasil.
 
As principais [situações] no que diz respeito a concepções de jogo e organização do processo de treinamento, etc (jogar como se treina e treinar como se joga). Sigo a busca pelo conhecimento e aperfeiçoamento profissional agora no masculino. Sobre as principais diferenças na preparação de homens e mulheres atletas de futebol, entendo que não há grandes diferenças e tão pouco se tratam de modalidades distintas a não ser no gênero.
 
Principalmente, se levarmos em consideração que ambos, através do processo de treinamento, precisam atender ao modelo de jogo estabelecido. Assim, a busca por exercícios e atividades que contribuam para o desenvolvimento do modelo parece ser o melhor caminho para construção do jogar com efetividade. Do ponto de vista físico, tanto para mulheres quanto para homens, a busca pelo desenvolvimento das capacidades físicas (força, velocidade, resistência) é o foco, porém, precisamos estar atentos para desenvolver tais capacidades sempre tendo como pano de fundo o modelo de jogo.

Cada treinador do clube tem uma particularidade, mas procuramos ter uma padronização de alguns conceitos, como a valorização de posse de bola, a circulação dela nas fases do jogo, e também o uso do goleiro no trabalho com os pés, como vimos na última Copa do Mundo, com a campeã Alemanha, diz

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre as equipes de base e o departamento de futebol profissional no Grêmio Osasco?
 
Vinicius Munhoz – A integração é total. Fui o treinador da equipe sub-20 em 2014 e, em 2015, fui promovido a treinador da equipe profissional. No ano de 2014, tivemos a oportunidade de disputar o Campeonato Paulista sub-20, no qual fomos vice-campeões após uma derrota nos pênaltis na final para o Corinthians. Além disso, disputamos durante o segundo semestre de 2014 a Copa Paulista, competição profissional que jogamos também com nosso elenco sub-20 em paralelo ao Campeonato Paulista sub-20 e que teve como objetivo proporcionar aos atletas desta categoria, em sua maioria no último ano sub-20 (1994), a experiência de uma competição profissional. 
 
No mês de dezembro de 2014, após o encerramento das competições previstas para o ano, iniciamos o processo de avaliação do trabalho realizado, em conjunto com a direção do clube. Avaliada como positiva pela direção e comissão técnica, tendo em vista os resultados obtidos e a necessidade de sequência na formação de nossos atletas, ficou estabelecido que, para a competição profissional prevista para o primeiro semestre de 2015, Campeonato Paulista – Série A-3, o elenco seria formado principalmente por atletas da categoria sub-20.
 
Assim, temos hoje no elenco profissional do Grêmio Osasco, que disputa o Campeonato Paulista 2015 – Série A-3, 20 atletas vindos da categoria de base. O entendimento do clube é que o processo de formação não se encerra quando o atleta completa 20 anos. O jogador precisa ter sequência de trabalho e apostar na metodologia e nos conceitos de jogo que hoje são comuns à base e à equipe profissional do clube.

O Grêmio Osasco tenta ter o vínculo do atleta com a própria instituição, e não fatiado nas mãos de vários empresários. A grande maioria dos garotos pertence ao clube e isso é muito positivo. Temos boas condições de treino, alojamento de qualidade, refeições, além de profissionais em outras áreas dando todo suporte necessário aos atletas, aponta Munhoz

Universidade do Futebol – Como é organizado o calendário anual da equipe sub-20 do Grêmio Osasco? Quantos jogos e competições são disputados ao longo do ano? Você acredita que falta uma melhor organização neste quesito por parte das Federações e da Confederação Brasileira de Futebol?
 
Vinicius Munhoz – Normalmente, a equipe sub-20 do Grêmio Osasco inicia suas atividades no mês de fevereiro e tem no seu calendário de competições a previsão de disputar as competições organizadas pela Federação Paulista de Futebol para a categoria sub-20, ou seja, Paulista sub-20 e Copa São Paulo de Futebol Júnior. Porém, no ano de 2014, foram disputados 45 jogos divididos em Copa São Paulo de Futebol Jr (5 Jogos), Campeonato Paulista sub-20 (26 jogos), e Copa Paulista (14 jogos).
 
Eu acredito que poderíamos sim ter mais competições organizadas pelas federações e também pela CBF. O processo de formação de atletas de futebol somente acontecerá na sua plenitude se competições de nível forem oportunizadas aos atletas em formação. Assim, minha sugestão seria organizar uma quantidade maior de competições desde que distribuídas em diferentes faixas etárias, por exemplo, competições para atletas de 20 anos, competições para atletas de 19 anos, competições para atletas de 18 anos.
 
Competições sub-20 que concentram as três faixas etárias da categoria, com 20, 19 e 18 anos, acabam por não proporcionar uma quantidade de jogos significativa para aqueles atletas com 18 anos, por exemplo, que acabam muitas vezes sem experimentar as competições de forma significativa durante um ano ou mais na categoria sub-20 devido à utilização de atletas de 19 ou 20 anos, considerados mais “experientes”.

O investimento muitas vezes é alto, mas a política de aproveitamento é muito baixa e, às vezes, inexistente. Além disso, dar sequência ao treinador de cima, para na base saber como formar, o que ensinar. Porque você forma um jogador para uma filosofia, o treinador é demitido, chega outro treinador, com outros ideais, aí complica todo o processo, analisa o treinador da base

 
Universidade do Futebol – O modelo de jogo das categorias de base do Grêmio Osasco é o mesmo para o sub-15, sub-17 e sub-20? Existe alguma preocupação neste sentido, ou cada treinador determina o modelo que pretende jogar?
 
Vinicius Munhoz – Na verdade, nós temos três equipes aqui. O Osasco Audax, nas categorias profissional e sub-20, o Grêmio Osasco, minha equipe e que também disputa o profissional da Série A-3, e Osasco FC, que tem as categorias de base. Cada treinador tem uma particularidade, mas procuramos ter uma padronização de alguns conceitos, como a valorização de posse de bola, a circulação dela nas fases do jogo, e também o uso do goleiro no trabalho com os pés, como vimos na última Copa do Mundo, com a campeã Alemanha.

Quem trabalha com base tem uma responsabilidade grande, pois tem de organizar o pensamento, com uma lógica, de uma forma tática. Além disso, acredito que precisamos superar o fato de não termos uma política de aproveitar melhor as categorias de base. Seria ideal dar mais oportunidades e sequência para os garotos, afirma

Universidade do Futebol – Como o as categorias de base do Grêmio Osasco lidam com a presença, muitas vezes nociva, de empresários de futebol?
 
Vinicius Munhoz – É uma situação difícil de retirar esta relação por completo, mas o clube aqui tenta ter o vínculo do atleta com a própria instituição, e não fatiado nas mãos de vários empresários. A grande maioria dos garotos pertence ao clube e isso é muito positivo. Temos boas condições de treino, alojamento de qualidade, refeições, além de profissionais em outras áreas dando todo suporte necessário aos atletas.

Universidade do Futebol – Na sua avaliação, os clubes de formação do Brasil, de maneira geral, sabem que tipo de atletas querem desenvolver? Explique, por favor.
 
Vinicius Munhoz – É uma situação complicada de responder. Tem-se muita dúvida quanto a isso. O investimento muitas vezes é alto, mas a política de aproveitamento é muito baixa e, às vezes, inexistente. Creio que temos de seguir o Barcelona, por exemplo, que tem um aproveitamento muito grande de suas categorias de base.
 
Precisa-se chegar a um meio termo. Dar sequência ao treinador de cima, para na base saber como formar, o que ensinar. Porque você forma um jogador para uma filosofia, o treinador é demitido, chega outro treinador, com outros ideais, aí complica todo o processo.

A busca por exercícios e atividades que contribuam para o desenvolvimento do modelo parece ser o melhor caminho para construção do jogar com efetividade. Do ponto de vista físico, tanto para mulheres quanto para homens, a busca pelo desenvolvimento das capacidades físicas (força, velocidade, resistência) é o foco, porém, precisamos estar atentos para desenvolver tais capacidades sempre tendo como pano de fundo o modelo de jogo, explica

 
Universidade do Futebol – Para você, quais os principais desafios a serem superados nas categorias de base no Brasil?
 
Vinicius Munhoz – Tem que se acreditar na concepção do jogo, apresentar o trabalho de base, apresentar o jogar para os atletas assim como suas variações. Quem trabalha com base tem uma responsabilidade grande, pois tem de organizar o pensamento, com uma lógica, de uma forma tática. Além disso, acredito que precisamos superar o fato de não termos uma política de aproveitar melhor as categorias de base. Seria ideal dar mais oportunidades e sequência para os garotos.

 

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