Universidade do Futebol

Rodrigo Barp

18/02/2013

Você não conhece Bo

Seria possível alguém ser tão bom em dois esportes simultaneamente? E ainda, em nível profissional de atuação? Como se, por exemplo, no Brasil, um atleta de vôlei jogar de centroavante ou zagueiro num clube da Série A do futebol?

Você deve se perguntar se isso já existiu alguma vez, em algum lugar do mundo. Eu também tive esta reação: duvidar, até com certo riso de ironia, se isso seria possível em um mundo de limitações ao talento, particularmente em tempos de competitividade acirrada.

Pois saiba que esta história existe e o personagem ainda vive para incontáveis horas de reflexão, deleite e perplexidade. Vincent "Bo" Jackson foi um garoto-prodígio dos EUA. Desde adolescente, era um fenômeno no atletismo do colégio na mesma proporção em que rebatia bolas no beisebol e corria centenas de jardas no futebol americano.

Sua trajetória está muito bem retratada no documentário da ESPN Films intitulado You don’t know Bo (Você não conhece Bo).

 

Dentre seus feitos, foi o único até hoje a figurar em All-Star Game de dois esportes diferentes nos EUA; ganhou o troféu Heisman como melhor jogador universitário do país e o recorde de 100 m em menor tempo no futebol americano.

Intercalava sua atuação entre temporada de beisebol e de futebol americano, mantendo o mesmo nível físico e técnico. Foi um dos primeiros garotos-propaganda da Nike, ao estrelar uma campanha famosíssima que brincava com o fato de que Bo sabia fazer tudo (Bo knows), além de estrelar videogames.

Sua carreira foi prejudicada e dirigida ao final após uma grave lesão no quadril, quando estava no auge e tudo indicava que iria quebrar muitos recordes. Talento puro, pois os treinadores e ele mesmo diziam que não precisava treinar, ou somente muito pouco, para absorver os fundamentos dos dois esportes.

Hoje, outro ícone do esporte mundial, Michael Jordan, completa 50 anos de idade. Todos os números e feitos de Jordan são superlativos e inesquecíveis.

Jordan, de fato, também desfrutava de um talento inato. Porém, ao contrário de Bo, alguns episódios de insucesso em sua infância e juventude forjaram sua obsessão pela dedicação, treinamento, persistência e convicção que errar era preciso.

Sim, errar era preciso, pois isso o fez buscar sempre a evolução. Seu irmão mais velho era também o mais talentoso em casa. Isso lhe impulsionava a treinar mais para não ficar atrás. Suas mais irmãs estudavam mais do que ele.

No colégio, foi cortado do time. Na faculdade, seu colega de quarto foi escolhido o jogador do ano – embora ele discordasse. Nem entrou na lista de prováveis promessas da universidade.

Em 14 temporadas na NBA fez a história se lembrar dele como o melhor de todos. Porque, em todo treino, levava todos do grupo ao limite, inspirando-lhes vontade de competir e avançar.

"Um dia você pode olhar e me ver jogando aos 50. Não riam. Nunca diga nunca. Porque limite, assim como medos, frequentemente são apenas ilusões", afirmou Jordan.

E como diz Jorge Valdano, um dos fatores mais importantes para o talento evoluir é que se lhe dê e se lhe tenha confiança. Seja para Bo ou para Jordan.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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