Universidade do Futebol

Entrevistas

17/02/2006

Walter de Mattos Júnior, presidente do jornal Lance!

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Mattos Júnior:jornalismo em prol
da boa gestão esportiva

O diário Lance! foi lançado em outubro de 1997 com as edições São Paulo e Rio de Janeiro. Criado por um economista, Walter de Mattos Júnior, nasceu junto com um discurso de mudanças no futebol que culminou na Lei Pelé, na entrada de investidores e no aparecimento de gestores para a administração dos clubes brasileiros. Como em relação a esse sopro de mudanças no futebol, o jornal também enfrentou problemas, graves crises e, em vários momentos, quase naufragou. 

Mesmo com todos os problemas, o Lance! foi se firmando no mercado como uma referência para o mundo dos esportes, apostando em um diferencial elementar: a paixão do torcedor. É essa fidelidade, certamente, uma das responsáveis pelo aumento de 34,4% das vendas do jornal registrada em 2005. De acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) de dezembro do ano passado, o jornal é o nono do país em circulação. É um caso de sucesso de vendas inegável.

O arquiteto desse empreendimento editorial, Mattos Júnior, apostou no jornalismo esportivo em um momento em que muitas mídias naufragavam. Ele também foi um dos primeiros a jogar suas fichas na Internet, tanto que o Lancenet surgiu até alguns dias antes da versão no papel. 

O projeto Lance!, ousado para a época da sua criação, captou inicialmente US$ 20 milhões junto a vários sócios. Atualmente, Mattos Júnior é o principal acionista da empresa, tendo comprado a parte de alguns parceiros. Na entrevista que segue abaixo, feita com exclusividade pela Cidade do Futebol, o empreendedor fala dos desafios do jornalismo esportivo, sendo o foco inegável no futebol.

As riquezas, na paixão do torcedor, no futebol-arte jogado no campo, e as misérias, na gestão “carcomida” pelas velhas estruturas da cartolagem também são pontos obrigatórios. E podem contribuir muito para reflexão às portas de uma nova Copa do Mundo.  

Cidade do Futebol – Dentro da sua percepção como empresário da mídia esportiva, como você vê esse segmento hoje? Qual é a visão que o Lance! tem do jornalismo esportivo?

Walter de Mattos Júnior – O Lance! é um jornal criado para celebrar a paixão do torcedor pelo seu esporte. Claro que nosso público majoritário é aquele apaixonado pelo futebol, mas damos um bom espaço para as demais modalidades. O nosso leitor quer acompanhar seu clube ou esporte preferido diariamente, saber tudo o que acontece. Aí, justamente, é que nos diferenciamos. A mídia fala muito do futebol, por exemplo, mas enfoca nas rodadas, nos jogos. Nós falamos do dia-a-dia do torcedor, alimentamos sua motivação diária com informações sobre treinamentos, contratações, além de outros aspectos. O Lance! acaba se tornando, como as revistas, uma companhia para o leitor.

 

Cidade do Futebol – Nesse contexto surge espaço para temas mais especializados, como os negócios do esporte, por exemplo. O jornal interessa-se por tais assuntos?

Mattos Júnior Os veículos do grupo, com exceção do Esporte Bizz são todos voltados para o torcedor. São publicações de audiência alta, mas todos são segmentados. Nós introduzimos essa questão dos temas mais áridos (mais especializados), como o dos negócios que movimentam o esporte, porque o Lance! nasceu com o compromisso de ajudar na profissionalização do futebol e do esporte em geral. Quadro que, nesses oito anos de vida do jornal, mudou muito menos do que esperávamos.

 

Cidade do Futebol – Então você acredita que os esportes, especialmente o futebol, não evoluíram nesse período?

Mattos Júnior As velhas estruturas, como a cartolagem, estão carcomidas, apodrecendo. Mas elas continuam aí no poder, gerindo tudo, do administrativo ao financeiro de todos os esportes. No futebol, essa situação é ainda mais grave e vale para o Clube dos 13, para a CBF, para a Fifa. Não há distinções. Existe hoje um sopro de uma nova mentalidade, mas que ainda não conseguiu romper essa estrutura. Não existe atualmente um único presidente de federação ou clube que se destaque por ser moderno, arrojado.

 

Cidade do Futebol – Pensando no futebol, não há nenhuma ação a ser elogiada?  

Mattos Júnior Alguns se destacam com gestões mais sérias, como o São Paulo, o Fluminense, o Santos, pois algumas das práticas desses clubes são melhores, mas não há ainda uma mudança de modelo. É preciso que vejamos alguém de dentro da estrutura do futebol se rebelar contra esse sistema. Ninguém foi à Justiça, por exemplo, para exigir um colégio eleitoral correto para a eleição da CBF, no ano passado. O que aconteceu lá foi uma eleição ilegítima, pois só contou com os votos dos times de Primeira Divisão.

 

Cidade do Futebol – De que maneira você vê a possibilidade de o Lance! colocar essa discussão para o público do jornal?

Mattos Júnior –  Nós fazemos isso com relativa freqüência. Eu brinco e digo que nós temos uma licença para “chatear” o leitor com matérias que podem interessar a apenas de 5 a 10% deles. Esses textos são mais aprofundados e sérios. Por exemplo, nós cobrimos por mais de um ano a Timemania, combatendo a aprovação dessa loteria. Queríamos que houvesse um compromisso de mudança dos clubes, tememos que a lei não promova isso. Mas não dá para fazer essa defesa exageradamente. De alguma maneira estamos criando um caldo de cultura nesses jovens leitores que leva a uma repercussão. A gente vê nesse tipo de temas, que são causas mais importantes, que parte dos leitores já se mostra bastante esclarecida.

 

Cidade do Futebol – Aproveitando, qual é o perfil do leitor de Lance!?

Mattos Júnior Muito jovem. Temos 55% de leitores entre 15 e 30 anos. Além disso, é muito masculino, 90% dele, e bastante qualificado, 60% na classe A-B e 92% na classe A-B-C, isso na versão em papel. Na Internet, muda um pouco, porque é uma mídia mais nacionalizada. O jornal impresso tem o foco em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

 

Cidade do Futebol – Quais são as perspectivas para o futuro do Lance!?

Mattos Júnior – São muito boas, principalmente levando em conta que a renda do brasileiro deve aumentar nos próximos anos, devido à aceleração da nossa economia. Isso já vem se mostrando em nossos números. E a venda em banca pode crescer alinhada com a necessária organização do futebol, que deve gerar um espetáculo melhor, aumentando o interesse do público. Nosso grande desafio, que está se cumprindo, é posicionar o Lance! como veículo de referência no jornalismo esportivo. Nunca houve antes uma publicação do esporte em papel que tivesse tanta publicidade. A Gazeta (Esportiva) morreu, ao menos na versão impressa, a Placar sempre foi instável e o Jornal dos Sports sempre sofreu com falta de anúncios.

 

Cidade do Futebol – E quais serão as próximas atitudes para incentivar esse crescimento?

Mattos Júnior Nosso principal objetivo hoje é a nacionalização do  projeto. Estamos estudando uma quarta redação no Paraná e uma impressão no interior de SP, levando nossa área de impressão de três unidades para cinco. A intenção é chegar em 2007 vendendo 200 mil exemplares por dia. Hoje temos picos na circulação, como nas finais de campeonato, quando a venda chega a quase 300 mil.

 

Cidade do Futebol – Qual é o mercado mais forte do grupo Lance!?

Mattos Júnior São Paulo é o nosso maior mercado, mas o Rio de Janeiro também tem vendido bem. Minas vem se estruturando, já estamos abocanhando mercado lá, mas os números ainda não são definitivos. Estamos em Manaus também, mas a impressão não é diária, são apenas duas edições semanais, aos domingos e segundas. Com esse quadro não dá para comparar com as demais praças.

 

Cidade do Futebol – Como é a relação do jornalismo esportivo e publicidade? Há uma aposta no esporte como gerador de negócios e oportunidades?

Mattos Júnior Essa é uma briga enorme, porque a mídia brasileira tem um alto grau de concentração. Os grupos Globo e Abril, por exemplo, concentram grande parte dos anunciantes nacionais. Nosso projeto não é apenas um jornal de uma cidade, que pode contar com anúncios do varejo local. Ele é mais parecido com uma revista – se olharmos para nossos anunciantes, eles são nacionais – e são poucos perto do que poderia ser de acordo com a nossa tiragem. O grande problema é a alta concentração de renda na compra de mídia no Brasil – temos poucos consumidores com poder de compra para esse segmento e os anunciantes dividem mal a venda publicitária. No futebol, por exemplo, o pacote de TV da Globo leva enorme parcela do mercado, pois é difícil convencê-los a apostar em um veículo especializado como o Lance!, que se dirige exclusivamente para o mundo do esporte. Mesmo com esse quadro desfavorável, nossa publicidade cresceu 60% em 2005, um excelente resultado.

 

Cidade do Futebol – Como foi a empreitada de erguer o projeto Lance! para alçá-lo aos patamares de hoje?

Mattos Júnior Eu vinha de uma experiência grande, tinha sido líder no processo de reestruturação do Grupo O Dia e minha ambição era fazer algo totalmente novo na mídia. A paixão que eu tenho por esporte uniu-se a uma oportunidade. Tive alguma oferta de recursos – mas eu sempre fui o maior investidor individual, dentre os cinco que iniciaram o projeto Lance!. Tivemos problemas sérios depois da Copa do Mundo de 98 e em 2002. Especialmente depois da conquista do pentacampeonato, a crise foi séria, causada pelas oscilações econômicas do período pré-eleição, quando não havia linha de financiamento para compra de papel, nosso insumo mais caro. Quase quebramos.

 

Cidade do Futebol – Nesse contexto quais são as perspectivas para a Copa 2006?

Mattos Júnior A expectativa com a participação do Brasil na Copa é muito boa. Para nós, particularmente, o quadro é bastante favorável. A economia está estável, a eleição não parece representar o perigo de quatro anos atrás. E uma Copa na Europa é muito mais interessante, os torcedores se empolgam mais. Hoje, já está garantido que o Mundial vai movimentar muito dinheiro e oportunidades.

 

Cidade do Futebol – A experiência de 2002 trouxe reflexões para essa nova empreitada?

Mattos Júnior Sempre traz. A Copa de 98 nos deu uma lição importante. Fizemos um mega investimento, montamos uma redação do Lance! na França e quase quebramos. Já em 2002 foi diferente, era um mundial muito caro de cobrir, por causa das distâncias, e colocamos o pé no freio até porque, naquele momento, a Internet já dava conta do factual. O desafio na Alemanha será cobrir a competição pelo Lancenet, pelo celular e até com outras mídias instantâneas e deixar para o jornal apenas o material que segura até o dia seguinte. E esse desafio é extraordinário.

17/02/2006

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