Washington, o Fluminense e o Sobrenatural de Almeida

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O futebol é uma caixinha de surpresas. Todo boleiro conhece essa frase, usada tanto por vencedores quanto por derrotados; talvez por isso Nelson Rodrigues, dramaturgo, jornalista e apaixonado pelo Fluminense, criou uma figura capaz de personificar fatos do esporte bretão.

Em outubro de 1968, Nelson Rodrigues escrevia no Jornal O Globo: “Amigos, dizia Horácio que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Esta aí uma clara alusão ao Sobrenatural de Almeida (…) Os idiotas da objetividade não vão além dos fatos concretos. E não percebem que o mistério pertence ao futebol. Não há clássico e não há pelada sem um mínimo de absurdo, sem um mínimo de fantástico (…) O curioso é que o Sobrenatural de Almeida andava sumido. Ou melhor dizendo: não tinha imprensa”.

A partida de volta entre Fluminense e São Paulo, no Estádio do Maracanã, pelas quartas-de-final da Copa Libertadores da América de 2008, é um bom momento para a reafirmação de Sobrenatural de Almeida, que, criado justamente para explicar certos “acasos”, pode nos ajudar a entender que essa partida tem um valor além da vaga às semifinais da competição, revelando então que fora das quatro linhas há muito mais em jogo do que se pode pensar.

Descrever o que aconteceu naquela quarta-feira no Rio de Janeiro é desnecessário, mas é necessário escrever que o time de Renato Gaúcho cravou seu lugar não só na história de seu clube, mas também no imaginário coletivo de uma legião de seguidores do Fluminense.

“Jogo, logo existo”, diria Eduardo Galeano; e Washington passou a existir na memória do torcedor carioca não só pelo gol da classificação, mas antes mesmo de entrar em campo.

Sem marcar nenhum gol havia oito partidas, o atacante apelidado de “Coração de Leão” – referência à superação após cirurgia cardíaca – recebeu uma carta de incentivo de um torcedor. Nela, a pessoa indicava a ele o filme “Desafiando Gigantes”, história de um treinador de futebol americano que, depois de enfrentar crises profissionais e pessoais é desafiado por um desconhecido a acreditar no poder da fé, descobrindo assim a força da perseverança para vencer.

O atacante, que tem essa questão religiosa viva dentro de si, mostrou a seus companheiros de equipe o filme na concentração horas antes do jogo. Por mais que muitos não acreditem em certas coisas, a história mexeu com seus companheiros, que passaram a acreditar que era possível vencer a outra equipe, considerada provável campeã do torneio continental.

É por isso que o imprevisível é uma singularidade do futebol, fazendo até que uma equipe considerada mais fraca consiga vencer outra supostamente mais forte. Assim, o evento futebol passa a ser uma narrativa na qual o que conta não é saber o que aconteceu, mas sim a essência do fato. E Nelson Rodrigues, em outro momento, escreveu: “E o Sobrenatural de Almeida estava ali, provando que o futebol é mais do que puro e simples futebol. Qualquer clássico ou qualquer pelada tem aura”.

E a aura desse jogo foi caracterizada pela superação técnica e física de um homem que, em 90 minutos, transformou-se no herói da partida: Washington Stecanela Cerqueira, um brasiliense de 33 anos, que fez história na Ponte Preta, clube paulista, depois se transferiu para Atlético-PR e para o Japão e voltou ao futebol brasileiro para ser ídolo.

Quanto ele precisou percorrer e acreditar que chegaria a um momento como esse? Quantas foram as negações sobre sua qualidade no momento em que se descobriu cardíaco e diabético? Quantas foram as lágrimas no gramado mais conhecido do mundo, após o último gol do Fluminense, gol da classificação de seu time pela primeira vez a uma semifinal de Libertadores?

O adjetivo de ser herói (guardião ou protetor do time) ou ídolo (imagem da divindade a ser respeitada) nesse momento não importa. O que vale é o que o placar não confessou após o apito final do jogo: o renascimento de um homem, que com seus problemas de ‘humano’ superou palpites técnicos e táticos.

E, em uma partida como essa, considerada épica pelos cronistas do futebol, nem Nelson Rodrigues (o torcedor) nem Sobrenatural de Almeida (o jogador) poderiam deixar de entrar em campo.

* Jornalista, pesquisadora do tema “Crônica Esportiva”, membro do Gief/USP e do Memofut.

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