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Diversos fatores, da evolução das técnicas de condicionamento físico ao advento de novas metodologias de tratamento de lesões, proporcionaram uma evolução na longevidade dos atletas, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX. Mas será que a condição em que se dá esse acréscimo de tempo no currículo dos esportistas é estudada? Será que o desenvolvimento do corpo possibilita a prática de atividades físicas até que fase da vida?
 
A ciência que estuda o envelhecimento dos seres humanos é a gerontologia. Especialista na área, o médico Wilson Jacob Filho obteve seu título de livre-docência com um trabalho que falava sobre o papel da atividade física para um envelhecimento saudável. Em sua pesquisa, procurou mostrar como o esporte pode ser um agente fomentador de uma vida livre de problemas físicos.
 
No entanto, Jacob faz uma ressalva importante sobre os efeitos do exercício: a despeito de a prática ser fundamental para um envelhecimento saudável, os exageros podem ser prejudiciais para a situação das pessoas. Por isso, o médico reforça a importância de um acompanhamento e de um planejamento para que o esporte seja apenas um fator positivo.
 
Formado em medicina pela Universidade de São Paulo em 1976, Jacob se especializou em geriatria em 1982. Desde 1999, dirige o serviço de geriatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e desde 2006 é professor titular da disciplina de geriatria na instituição.
 
Em entrevista exclusiva, Jacob aborda os efeitos do esporte para o envelhecimento e os efeitos do envelhecimento para os praticantes do esporte. Confira a íntegra do bate-papo com o médico:
 
Cidade do Futebol – Seu principal objeto de estudo é o papel da atividade física no processo de envelhecimento ou o papel do envelhecimento para a realização de atividades físicas?
Wilson Jacob – Nosso principal enfoque é usar o esporte para que as pessoas envelheçam com mais saúde, mas é lógico que o efeito contrário também é verdadeiro. Quanto mais saudável for o indivíduo, melhor será seu desempenho físico em qualquer faixa etária. As duas coisas se complementam, mas como médico geriatra eu me preocupo mais com a saúde do que com o desempenho.
 
Cidade do Futebol – Diante dessa preocupação, qual é exatamente o papel do esporte? Trata-se de um requisito para um envelhecimento saudável ou também pode ser uma ameaça à saúde?
Wilson Jacob – O volume de treinamento deve ser programado para as condições do indivíduo e os objetivos de curto, médio e longo prazo. Nesse sentido, comparo o esporte com a prescrição de um antibiótico. Se o indivíduo tiver a dose certa ele será um agente promotor da saúde, mas uma dose excessiva é um agente deletério da saúde. Tanto para fins terapêuticos quanto para fins de saúde, a idéia de “quanto mais, melhor” é falsa.
 
Cidade do Futebol – Uma quantidade excessiva de exercícios pode ser prejudicial, mas uma quantidade mínima é essencial para a promoção da saúde?
Wilson Jacob – O exercício é bom para o indivíduo e não há dúvidas sobre isso. Mas há outro conceito errado aí, que é o “fazer qualquer coisa é melhor do que não fazer nada”. Isso não é verdadeiro. Se o indivíduo não estiver preparado e se dedicar a um esporte, corre um risco maior do que se ficasse parado.
 
Tomemos como exemplo um jogo de futebol entre casados e solteiros em um fim de ano. O sujeito pensa que é melhor jogar do que ficar parado e não considera a falta de preparação para a atividade. Ele corre um risco muito grande de sofrer uma lesão.
 
Cidade do Futebol – O histórico de prática esportiva é determinante para a definição da qualidade do envelhecimento ou as pessoas que começam tardiamente reúnem as mesmas condições para a atividade física?
Wilson Jacob – Se o indivíduo começa jovem e continua a praticar atividades físicas até se tornar idoso, é inegável que ele será muito apto do ponto de vista músculo-esquelético, assim como o lado motivacional e do ponto de vista cardiocirculatório. Em uma suposição, o irmão gêmeo dessa pessoa que nunca praticou exercícios terá uma condição muito pior.
 
Entretanto, o grande risco contido aí está no indivíduo que pratica esportes em alto nível na fase jovem e depois pára. Se tenho alguém que fez muitas atividades físicas dos 20 aos 30 anos, por exemplo, e esse alguém ficou parado até os 60 anos, em geral ele corre um risco maior de lesão do que uma pessoa que nunca tenha praticado esportes.
 
Em comparação, o ex-esportista que ficou parado e o indivíduo que nunca foi atleta estão igualmente destreinados, mas aquele que desempenhou essa atividade quando era jovem acha que pode repetir a alta performance porque tem memória daquilo. Ele acha que pode correr ou nadar rapidamente, que pode levantar muito peso. Assim, se expõe mais ao risco.
 
Cidade do Futebol – Mas as pessoas que iniciam tardiamente uma rotina de prática esportiva têm condições de atingir cargas tão altas quanto as usadas por quem é atleta há mais tempo?
Wilson Jacob – Temos estudos de caso com indivíduos de 80 anos que se propõem a iniciar uma atividade física. Se respeitarem as cargas e as metas impostas pelo treinamento, tanto essas pessoas quanto as que foram atletas e ficaram paradas podem atingir cargas infinitamente altas. Temos exemplos de indivíduos de 80 anos que praticam musculação e conseguem pegar 80 kg no leg press ou 40 kg no supino, que são cargas consideradas altas até para os mais jovens.
 
Cidade do Futebol – A partir de certa idade, é comum vermos as pessoas que praticam esportes dizendo que o corpo não acompanha a velocidade do pensamento. Isso mostra uma diferença na velocidade de envelhecimento do preparo físico e do cognitivo?
Wilson Jacob – As evoluções do cognitivo e do físico tendem a ser homogêneas na medida em que o indivíduo não possua limitações. Ele sempre entenderá seus limites e criará adaptações. Em determinado momento, a pessoa perceberá que subir uma escada de dois em dois degraus a coloca em risco porque ela começa a tropeçar e ficar ofegante. Então, passa a subir degrau por degrau.
 
O que pode acontecer é uma doença que agrave a condição. Uma demência, por exemplo, que não permita ao indivíduo uma avaliação do risco. Aí pode haver uma desconexão entre o que a pessoa quer e o que seu corpo permite fazer e isso cria um risco adicional.
 
Cidade do Futebol – O limite de condições para a prática esportiva muda de pessoa para pessoa ou há uma imposição de acordo com a faixa etária?
Wilson Jacob – Isso é individual. Quanto às faixas etárias, existem apenas estimativas. Entre os 50 e 60 anos, as pessoas têm uma diminuição de força muscular de 10% em relação aos números que apresentam quanto têm 20 ou 30 anos. Isso é uma média, mas eu não posso generalizar. Um atleta não terá aos 50 ou 60 anos a mesma potência que tinha quando era nov
o, mas pode compensar muito com treinamento.
 
O que notamos é que a partir dos 30 anos acontece uma nítida diminuição do trabalho muscular. Em parte, a diminuição da potência é explicada também pela redução no treinamento. Se o indivíduo mantiver as cargas que tinha quando jovem, só terá uma queda relevante em sua performance máxima.
 
Cidade do Futebol – Quanto ao desempenho, o envelhecimento é mais sentido nos esforços de explosão do que na resistência?
Wilson Jacob – Sem dúvida. O indivíduo de 70 anos pedala 100 km a cada fim de semana. Você pergunta quanto ele pedalava quando era jovem e ele diz 120 km. A diminuição de 20 km em 40 ou 50 anos não é tão expressiva, mas o tempo tem uma diferença contundente. O desempenho normalmente declina com a idade, mesmo em indivíduos mais treinados. E isso é mais evidente em saltadores ou corredores de curta distância, por exemplo, do que em maratonistas.
 
A principal explicação para isso é que o envelhecimento interfere mais nas fibras rápidas, que são as responsáveis pela explosão, do que nas fibras vermelhas, que trabalham para a manutenção na atividade. A resistência não sofre tanto com o passar do tempo.
 
Cidade do Futebol – Essa explicação dá margem a um paradoxo no futebol atual: o esporte tem uma exigência cada vez maior de esforços rápidos e concentrados, mas também vê a longevidade dos atletas crescer a cada ano. Por que o senhor acha que isso acontece?
Wilson Jacob – Há três fatores que contribuem para esse aparente paradoxo. O primeiro é que falamos de indivíduos que hoje se cuidam mais. Atletas de 35 ou 40 anos têm lesões menos freqüentes do que no passado e o que se tornava rapidamente um problema impeditivo antes é mais bem cuidado atualmente.
 
Além disso, o desenvolvimento dos métodos de treinamento tornou possível a manutenção do alto desempenho por mais tempo. Eu vi há alguns dias uma discussão sobre quanto um jogador de vôlei salta e o Tande, que estava no meio da conversa, disse que um determinado atleta sempre pulou 80 cm durante a carreira. Como ele consegue manter isso? Com atividades e treinos específicos, além de um cuidado com as articulações que não existia antes.
 
Outra coisa é que, quando falamos de atletas de futebol, a realidade é bem diferente de pessoas idosas. Embora analisemos a idade, não estamos falando de alterações tão contundentes. Os indivíduos antes encerravam a carreira por volta dos 30 anos e hoje essa média está perto dos 40 anos. Ele mal começou a envelhecer nessa faixa.
 
Cidade do Futebol – Qual é o papel das lesões para a definição dessa longevidade no esporte? Existe algum tipo de problema físico que deva ser mais temido pelos atletas?
Wilson Jacob – As principais razões para o atleta interromper a carreira são as lesões ou o fato de ele não suportar mais a carga de treinamentos. Não é que ele não tenha condições de se manter no mesmo nível dos outros atletas, mas ele acaba diminuindo o rendimento nas atividades cotidianas.
 
As lesões são um problema muito grande, principalmente quando elas acometem os ligamentos. Isso geralmente leva o indivíduo a interromper a prática de exercícios ou ter uma queda de desempenho. Um problema muscular é menos traumático porque temos uma reserva muscular muito grande, uma fratura é corrigida porque é possível o osso voltar para a posição normal. Já os ligamentos ou tendões normalmente precisam de cirurgia.
 
Hoje em dia, a principal preocupação com praticantes de esporte de alto nível ou com indivíduos muito debilitados é cuidar dos ligamentos. Vou citar um exemplo oposto: um senhor ou uma senhora com problema na perna recebe a orientação para usar uma bengala. Depois de algum tempo, corrige o problema do membro inferior e desenvolve uma dor crônica no ombro, que tem tratamento muito mais complicado.
 
Em contrapartida, se eu souber que o paciente vai passar por uma cirurgia no joelho e tiver um ou dois meses para prepará-lo, posso trabalhar esse arcabouço ligamentar de uma forma que ele tenha força suficiente para não sentir o trauma de usar a bengala.

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