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Saúde
27/08/2014 12:39:31
A mentalidade vencedora - parte 2
Segunda parte desta série mostra como desenvolver a mentalidade de crescimento
Marcelo Augusto Antonelli

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primeira parte desta série de artigos sobre a mentalidade vencedora explica as mentalidades fixa e de crescimento. Claramente, a mentalidade de crescimento é aquela que permitirá a um atleta desenvolver todo seu potencial.

Este artigo desenvolverá respostas às seguintes perguntas: “é possível modificar a mentalidade de uma pessoa para a mentalidade de crescimento?” e “como isso pode ser feito?”.

Tanto a mentalidade fixa como a de crescimento são ideias no “subconsciente” de uma pessoa. E ideias podem ser sempre modificadas, mas não necessariamente é um processo fácil. Não basta simplesmente dizer “eu acredito nisso” para realmente acreditar e, como consequência, modificar as ações de uma pessoa.

O filme de ficção “Inception” – apesar de, até onde vai meu conhecimento do assunto, não ser fundamentado em fatos científicos – trata do conceito de que uma ideia é “implantada” no subconsciente de uma pessoa. Claro, na vida real as ideias não são implantadas no cérebro da mesma forma que ocorre no filme. Contudo, desde que nascemos somos expostos as ideias dos pais, familiares, professores e amigos: qual tipo de brinquedo é apropriado, para qual time deveremos torcer, etc. Nossas próprias reflexões sobre as interações que sofremos com o meio ambiente irão moldando nossas ideias.

A autora da pesquisa sobre as mentalidades fixa e de crescimento conta sobre quando estava no ensino fundamental, que sua professora aplicou nos alunos o IQ teste, pois esta acreditava ser uma medida da inteligência de cada criança. Baseada nos resultados dos testes, os alunos foram organizados em ordem de “inteligência” e aqueles com melhores resultados estavam na frente na fila, carregavam a bandeira etc.

Seu exemplo mostra um caso extremo de como desde criança a mentalidade com a qual nascemos, com uma certa quantidade de inteligência, pode ser fortemente implantada. A autora relata como mais tarde descobriu que o IQ teste, na verdade, não foi feito para se medir a inteligência de uma pessoa (percepção até hoje muito comum), mas sim – desenvolvido por Binet, um francês trabalhando em Paris – para medir como as crianças estavam se beneficiando do sistema acadêmico da cidade. A intenção era colher dados para fazer um sistema de ensino mais efetivo.

Da mesma forma, atualmente, a forma como a informação chega muitas vezes passa a ideia de que pessoas atingiram seus objetivos, status ou fama, simplesmente por terem um talento fora do normal.

Quando olhamos as pessoas, atletas ou não, que atingiram muitas conquistas, é mais fácil acreditar que alcançaram o sucesso por uma questão de oportunidades ou genética, não como consequência do próprio esforço durante anos de dedicação. A Dra. Dweck cita em seu livro dezenas de pessoas que parecem que simplesmente “nasceram perfeitas ou geniais”, mas que se estudarmos suas vidas, veremos que o sucesso veio como consequência de anos de esforço, dedicação e, especialmente, persistência. A habilidade de lidar com o fracasso é uma constante nas histórias de sucesso (DWECK, 2006).

Basquete nunca foi o meu esporte. No entanto, como para muitos adolescentes da minha época, assistir o Chicago Bulls e os Los Angeles Lakers se enfrentarem era uma grande atração. E Michael Jordan era “o cara”. Perfeita combinação de talento e condição física. Simplesmente um “natural”, ou seja, o cara que nasceu com o talento e não podia ser superado. No entanto, estudando a história de sua carreira, as dificuldades que enfrentou como jogador no ensino médio, na faculdade e depois na NBA, me dei conta de que ele não nasceu perfeito, mas sim tinha uma mentalidade que o permitiu enfrentar uma série de desafios e superá-los, sempre se desenvolvendo.

Outro exemplo que não posso deixar de citar é o de Thomas Edson, inventor da lâmpada elétrica incandescente. A primeira impressão que se pode ter é do “cara genial”, no laboratório do fundo da casa que, como num passe de mágica, descobriu o que até então poderia parecer impossível. Na verdade, foram anos de pesquisa, mais de 50 pessoas trabalhando para ele e uma infinidade de testes, até que os resultados aparecessem e ele, o organizador desse processo, entrasse para a história como “o gênio” que inventou a lâmpada elétrica.

Voltando ao esporte, foi uma grande surpresa para mim, depois de ouvir tantas histórias sobre sua carreira, descobrir que Muhamad Ali não foi simplesmente aquele lutador doido que tinha um talento fora do comum e conseguia derrotar adversários mais fortes do que ele. Muhamed procurava analisar até mesmo a personalidade de seus oponentes fora dos ringues para prever as reações destes quando lutassem contra ele.

O livro cita outras dezenas de casos de pessoas que o grande público acredita que chegaram ao sucesso simplesmente como resultado de um talento fora do normal. A cada caso que eu lia, sentia que “uma parte” de mim começava a acreditar um pouco mais que o “talento” não era realmente tudo. Claro, cada um de nós nasce com uma genética diferente e única, mas grande parte do resultado final será consequência de nossas ações.

Assim, começando a abordar diretamente a questão levantada neste artigo de “como desenvolver a mentalidade de crescimento”, tratando-se de adultos, a primeira resposta óbvia seria através de conhecimento. Conhecimento das duas mentalidades, das consequências de cada uma, de dezenas e dezenas de exemplos de pessoas que acreditávamos terem nascido praticamente perfeitas, mas que na verdade tiveram que superar uma infinidade de problemas para atingirem o potencial que atingiram.

No caso de crianças, as informações precisam ser processadas de forma diferente. As sementes de que o esforço e a dedicação são tão ou mais importantes do que o talento precisam ser plantadas desde cedo.

Por exemplo, quando um garoto de nove anos consegue um “A” em matemática, muitos farão elogios como “você é tão inteligente!”. Apesar de, provavelmente, ser bem intencionado, o comentário estará implantando no garoto, a mentalidade fixa, e se na próxima prova o garoto não for tão bem, é possível que ele comece a duvidar da própria inteligência. Existe a possibilidade de consequências negativas nesse processo, como baixar sua autoestima.

A longo prazo, para defesa da autoestima, muitas pessoas desenvolvem estratégias como self-handicapping (BREHM et al., 2005). O self-handicapping pode variar de estratégias simples e com menos consequências, como somente ter desculpas prontas no caso de um desempenho ruim, até uma estratégia chamada de sandbagging, onde uma pessoa prediz às outras que não espera sucesso e não usa todas as próprias habilidades para atingir um certo desempenho.

Então, como reforçar a mentalidade de crescimento? Reforçando o conceito de que mais do que “inteligências” ou outras qualidades inatas, o sucesso foi consequência de esforço e dedicação. Voltando ao exemplo do garoto de nove anos, o mais adequado seria dizer a ele: “parabéns, um garoto dedicado como você irá longe”.

Claro, dar os parabéns por uma qualidade inata (“como você tem talento para desenhar”, “você tem o dom para cantar” ou “você é craque de bola”) soa mais fácil e prazeroso do que ressaltar o esforço e dedicação de alguém. Mas, como explicado no artigo anterior, as consequências no desenvolvimento, de acordo com a mentalidade adquirida, podem ser grandes.

Da mesma forma como um adulto pode mudar de mentalidade estudando e sendo exposto a fatos que indiquem que o sucesso vem como consequência de muito trabalho, expor crianças a trajetórias de ídolos, que se dedicaram e batalharam por anos para alcançar objetivos pode ser uma forma de ir plantando a mentalidade de crescimento. É muito mais comum crianças verem só o “produto final” de seus ídolos, quando já alcançaram o sucesso, fama e prestígio do que serem expostos à trajetória deles para chegar até uma posição de destaque.

Esse artigo procurou discutir alguns conceitos e mostrar exemplos simples para se trabalhar o desenvolvimento da mentalidade de crescimento em situações gerais. Cada leitor deve fazer uma análise da própria realidade e refletir como desenvolver a mentalidade de crescimento em seu próprio ambiente.

No próximo artigo, terceira parte de “A Mentalidade Vencedora”, iremos discutir como a mentalidade de crescimento afeta o dia a dia de um jogador de futebol.

 

Referências bibliográficas

BREHM, Sharon S.; KASSIN, Saul; FEIN, Steven. Social Psychology. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 2005.

DWECK, Carol S. (Ph.D). Mindset, The New Psychology of Success. New York, NY: Random House, 2006.

INCEPTION. Direção, roteiro e produção: Christopher Nolan. Intérpretes: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Elle Page e outros. 2010.
 

Tags: mentalidade , comportamentos , mente , desempenho , potencial
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