Universidade do Futebol
10/03/2006

Zico

Dentro de campo, o ex-jogador Arthur Antunes Coimbra, o Zico, se tornou uma legenda no futebol. No Brasil, só atuou pelo Flamengo, clube do qual virou um símbolo, entre os anos 1970, 80 e 90. Fora das quatro linhas, pela seriedade com que encarou a profissão, ele ganhou ares de uma espécie de guru da opinião pública.

 

Hoje, como técnico da seleção japonesa, transita pela “ponte-aérea” Rio de Janeiro-Tóquio distribuindo autógrafos e declarações para a imprensa.A última, de maior impacto, foi a de que o termo “burro”, dirigido aos técnicos de futebol, deve ser considerado tão ofensivo quanto um ato racista e, por isso, deveria haver alguma punição para quem o utiliza.

 

Além dessa declaração, feita em coletiva, ele opinou sobre os mil gols de Romário, o número 111 utilizado por Luizão no Flamengo, e vários outros assuntos. Zico também disse que não esteve no Seminário dos Treinadores feito pela Fifa, no início da semana, por não ter sido avisado pela federação japonesa.

 

Alguns dias antes de voltar ao Japão, para dar continuidade à preparação da equipe nipônica para o mundial, o Galinho, como também é conhecido, deu uma entrevista exclusiva para a Cidade do Futebol. A conversa com o ex-craque girou em torno de temas políticos, como a Timemania e a chamada Lei Zico, além de analisar o contexto atual do futebol brasileiro.

 

Cidade do Futebol – O que mudou no Flamengo de agora para o de sua época, no anos 80, quando Zico, Andrade, Júnior e Adílio, entre outros, se destacavam?
Zico – Internamente, não acompanhei o que aconteceu no clube. Só acho triste ultimamente ter de voltar ao Brasil e sempre falar sobre a má fase do Flamengo. Observando de fora o que ocorre, vejo que na época em que eu atuava o Flamengo entrava em campo para disputar os títulos, fossem eles estaduais, regionais, nacionais, interestaduais, intercontinentais, internacionais, o que aparecesse. Agora vemos o clube entrar para se manter na tabela; a diferença é grande. Por exemplo, não concordo com o planejamento feito para a Taça Guanabara. Não faz sentido o Flamengo entrar em uma competição com o time B. Trata-se de uma força nacional e isso coloca o nome do clube em jogo.

 

Cidade do Futebol –Como você vê essa série interminável de troca de treinadores no Flamengo?
Zico – Isso não acontece só no Flamengo, é preciso que se diga. Ocorre no futebol brasileiro e virou uma cultura. Todo mundo age dessa maneira, não é só o Flamengo. Na maior parte dos clubes que fazem boas campanhas ou que chegam aos títulos, os técnicos tiveram um tempo adequado para trabalhar, como no caso do Internacional e do Fluminense em 2005. Isso prova que ficar mudando o técnico não adianta, é uma maneira equivocada de ver o futebol.

 

Cidade do Futebol –Você tem vontade de algum dia ser o presidente do Flamengo?
Zico – Não tenho esse desejo. Mas nunca se pode dizer isso eu não farei. Vivo o momento, que é continuar trabalhando como profissional do futebol. Depois da Copa do Mundo quero começar a carreira de técnico na Europa. Para eu voltar ao Flamengo algum dia será com o objetivo de ajudar, sem nenhuma remuneração, sem ganhar um tostão do clube. No momento não posso fazer isso ainda, pois continuo como profissional de futebol, por isso não quero a presidência do clube.

 

Cidade do Futebol –Como técnico do Japão, na Copa você prefere enfrentar o Brasil com o chamado quarteto mágico, formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano, ou com um atacante a mais, no caso Robinho, formando um quinteto?
Zico – Não tenho preferência por como joga um adversário. Tenho de armar meu time para jogar independentemente de contra quem seja. Não prefiro nada, respeito todos eles, peço para meus jogadores encararem com a mesma seriedade e determinação a todos. O Brasil é difícil de qualquer jeito. É um nome fortíssimo dentro do futebol. É complicado enfrentar o Brasil em qualquer circunstância, com quarteto, quinteto, sexteto, o que quer que seja (risos).

 

Cidade do Futebol –Como será a preparação do Japão até a Copa?
Zico – Exceto o Brasil, a seleção do Japão chega à Copa em igualdade de condições com qualquer seleção. Ainda não tenho o grupo fechado, mas se a Copa fosse hoje eu já teria os 23 jogadores convocados. O problema é que não tenho como fazer a preparação até que o grupo se reúna, em meados de maio. Não posso contar com vários jogadores, por eles ainda estarem atuando na temporada européia. Minha preparação será depois de ter o grupo reunido, mas o trabalho segue um projeto de longo prazo. Faremos a preparação na cidade de Bonn, na Alemanha, e acredito que estamos no caminho certo.

 

Cidade do Futebol – Quais as diferenças da seleção do Brasil de hoje para a de sua época, nos anos 80?
Zico – Não faço comparações. Cada equipe é de uma época diferente, ambas com qualidade, mas em momentos diferentes. A safra atual é feita por jogadores maravilhosos, que representam muito bem o Brasil, obtiveram importantes conquistas. Em relação à amizade do atual grupo, não convivo, não posso dizer. Mas pelo que vejo dentro de campo, parece que a amizade existe. Na minha época, a amizade era grande, mantida até hoje. Falo sempre que posso não só com o Sócrates, o Falcão, mas com vários jogadores da época. Mas nos encontramos pouco, porque cada um tem um trabalho diferente, em um local diferente.

 

Cidade do Futebol – Qual a sua opinião sobre a Timemania, loteria que destina parte de seus recursos aos clubes de futebol?
Zico – É uma iniciativa válida, mas não acho que deveria ser vista como uma solução. Os clubes ficaram com os cofres vazios, cheios de rombos e não pode ser um dinheiro vindo de uma loteria que irá resolver tudo. Os clubes deveriam ter aprendido a não chegar a essa situação. Mas, pelo que representam dentro do país, é válido que recebam essa ajuda. Não é solução, pois resolver esse quadro passa por grandes administrações, seriedade no trabalho, discernimento ao lidar com o futebol.

 

Cidade do Futebol – Paravocê, o que foi deturpado na Lei Zico, anterior à Lei Pelé, promulgada no governo de Fernando Henrique Cardoso?
Zico – Não considero a lei como Lei Zico, em nenhum momento a chamei assim. Foi a equipe da então Secretaria dos
Esportesque a elaborou comigo. Senão fica parecendo o trabalho de uma pessoa só. Mas quando foi aprovada, através do substitutivo do Arthur da Távola eu não estava mais na secretaria. E não foi aprovada do jeito que a elaboramos, pois vários pontos foram modificados. Os bingos na lei, por exemplo, não fomos nós que colocamos. Era outra concepção. Havia grandes alterações na lei do passe que não foram cumpridas; a questão dos clubes votantes mudarem estatutos das federações; a possibilidade de os clubes se tornarem empresas, entre outros conceitos. O texto visava não só o futebol, como todo o esporte brasileiro.

 

Cidade do Futebol –Como o você se sente pelo fato de ter atuado dentro do governo do ex-presidente Fernando Collor, que acabou renunciando por causa de denúncias de corrupção?
Zico – Não tem nada a ver uma situação com a outra. Não tenho do que reclamar no tempo em que atuei na Secretaria, tive todo o apoio para realizar meu trabalho, que foi feito para o esporte e não para o governo. Tudo aquilo que ocorreu na época, fui contra. Como sou contra tudo o que está acontecendo no governo brasileiro agora.      

 

10/03/2006

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