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Lilian de Oliveira
Colaborador

Arquiteta e urbanista autônoma, graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo), em 2007. A partir do trabalho final de graduação, sobre a necessidade de espaços públicos para grandes massas, somado a projeto para um estádio em Itaquera, emprenhou-se na produção de materiais sobre arquitetura esportiva devido à ausência de uma variedade de estudos e análises de caso.

Responsável pelos blogs Gol da Arquitetura e Arquibancada, auxilia universitários com projetos em desenvolvimento sobre estádios, arenas e temas relacionados à Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e eventos esportivos em geral.

Desde 2008, presta serviços de consultoria a interessados em se preparar para os eventos no Brasil.

Tem como bagagem a experiência em voluntariado durante os Jogos Panamericanos de 2007, no Rio de Janeiro e na Copa do Mundo Fifa 2010, na África do Sul.

Coluna
Cidade-sede: Natal
Entendas as razões pelas quais a Arena das Dunas tem potencial para virar principal “elefante branco” do país
17/05/2012

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Eis a cidade-sede com um dos estádios mais atrasados da Copa. Um estádio incoerente e sem quase nada a acrescentar – a não ser se, de repente, trouxer investimentos privados para a proximidade do “complexo” dos quais eles se gabam, mas não é o que o povo tem visto dos políticos devida tanta falta de gestão de verba e de capacidade.

Sempre valorizo que se alguém decide por construir um estádio, ele deva ser um marco, algo inusitado, referencial para a arquitetura, para que seja capaz de se tornar um ícone digno de turismo, ou seja, verba entrando para a sua manutenção. Mas pode, a Arena das Dunas, atual, ser parecida com o estádio do Arizona Cardinals, nos Estados Unidos desta forma?



É o mesmo estádio visualmente falando, mas o modelo para o Brasil parece desandar ao sair do forno, como um bolo.

Ambos os projetos de arquitetura são do Populous, escritório internacional, com vasta experiência em equipamentos esportivos e, digamos, com vários de extrema qualidade, como o Incheon Stadium, o Soccer City, o Aviva Stadium, entre tantos outros.

No entanto, isso não os isenta da extrema semelhança. A única diferença que vejo é que o brasileiro foi um pouco mais mal feito e salientarei alguns dos motivos até o fim desta coluna.



Como podemos ver acima, o projeto é um complexo: estádio, anfiteatro, arena de eventos (fora do estádio), hotel, centro comercial, centro administrativo municipal e federal – como se fosse uma “Brasília Potiguar”. Ou seja, nada fica dentro do estádio, praticamente se resumindo aos jogos. É bom para o gramado, mas não é nada bom financeiramente.

E digo isso não só por questão de lógica, mas porque, observando o projeto, vemos gastos imensos que, claro, vão para os cofres públicos; ainda mais que nenhum time tem grande interesse em jogar em um estádio que não é seu.

Pelo leque de projetos do Populous, vemos que eles foram contratados somente para o estádio – ao menos espero que seja – , pois o entorno parece bastante discrepante do padrão do escritório, que geralmente é muito bem elaborado.

Natal tem cerca de 320 dias de sol por ano e tem, no verão, uma média de 31°C e, no inverno, 28°C, ou seja, sempre quente. É, portanto, incompreensível o uso de tantos vidros espelhados.

O vidro espelhado barra o sol, mas exige um uso intenso de ar-condicionado e iluminação artificial, indo completamente contra a sustentabilidade que a “Copa Verde” focava. Então por qual motivo pode ter sido escolhido nos prédios do complexo? Provavelmente por ter dado certo em alguma experiência fora do Brasil. Mas nem tudo pode ser importado na arquitetura: o que pode funcionar muito bem em Londres, jamais funciona bem em Natal, que é o caso.

Nem me aprofundarei na influência dos reflexos de tantos espelhos para o entorno e nos malefícios para os pássaros; isso só complementa a justificativa.

Uma solução possível seria o uso de brises (aletas devidamente orientadas para barrar a insolação, mas também para permitir entrada de luz) ou de elementos vazados, como cobogós ou até mesmo muxarabis, que permitiriam a ventilação natural e luz natural entrando, reduzindo a necessidade de gastos energéticos desnecessários.

São elementos bem conhecidos na arquitetura e seriam muito úteis para a região de Natal, tanto para o estádio, quanto para os edifícios ao redor.



Sobre o estádio, como podemos ver pelas fotos noturnas, há aberturas em toda a fachada, que permite os raios de luz à noite. O que antes fora apresentado com um elemento leve pelo material escolhido, tornou-se, pelo desenho, um elemento pesado e com desenho questionável.



Acima, apresentação original do projeto.

Atualmente, o projeto já apresenta uma solução mais elegante e mais bem trabalhada, como podemos ver abaixo – embora não seja um material muito bem feito e muito bem definido, já mostra uma evolução do projeto.



O interessante do estádio é, felizmente, a circulação, um dos pontos mais importantes na elaboração de um projeto que abriga grandes multidões. Cada bloco de arquibancadas tem escadas logo abaixo às frestas da cobertura, permitindo melhor evacuação e sinalização para momentos de pânico e emergência. Isso pode ser visto tanto nas aberturas na perspectiva interna, quando na externa, onde as escadas podem ser visualizadas saindo do limite do revestimento.



Segundo o escritório, as aberturas transparentes (em ETFE, excelente material com potencial autolimpeza) também servem para captar a brisa e fazê-la circular pelas arquibancadas. A forma ondulada de sua cobertura seria devido à referência às dunas de Natal, por isso o nome do estádio.

Como o andamento das obras neste local é um dos piores, felizmente ainda temos tempo para definir melhor as coisas. Só espero que sejam alertados os governantes e, aí sim, modificado algo no projeto. Além disso, planejado melhor o uso do estádio. Ou será, este sim, o mais promissor elefante branco do país.


Para interagir com o autor: lilian@universidadedofutebol.com.br


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Tags: copa do mundo , brasil 2014 , arenas , estádios , negócios , arquitetura , Urbanismo , planejamento estratégico

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