As idéias contraditórias de boleiros e de cientistas clássicos do meio
Convivo com o futebol há um bom tempo. Como todo bom menino brasileiro, sonhei em ser jogador de futebol. E para isto dediquei mais de dez anos de minha vida, morando boa parte deste tempo em um alojamento até realizar o meu sonho.
Contudo, também como grande parte daqueles que ousaram transformar em realidade o desejo de jogar futebol, frustrei-me em determinada parte do processo, quando o real se impôs ao simbólico, o que acabou facilitando o meu ingresso, meio a contra gosto, à universidade.
Na universidade, aprendi a desejar o conhecimento e ter alegria ao adquiri-lo tanto quanto antes ansiava a bola rolando na relva.
Já faz mais de quinze anos que me dedico, entre outras coisas, a estudar o futebol, procurando desvendar os segredos, explicar as verdades e construir metodologias de trabalho que visem à formação do atleta inteligente, já que me tornei, após meu doutoramento, em um especialista em pedagogia do movimento e do esporte.
Entretanto, escrevo esta introdução autobiográfica, obviamente sem a intenção de me autopromoção, mas sim, para pontuar e contextualizar as reflexões advindas da temática desta crônica.
Como o título já adverte, quero falar sobre a verdade. Ou seja, o que é verdade no futebol? Seria verdade o que dizem os boleiros? Ou o que professam os cientistas clássicos?
Recentemente, lendo um livro sobre filosofia da ciência, deparei-me com uma instigante interpretação filosófica sobre a verdade por meio de suas raízes etimológicas.
Etimologia, segundo o Houaiss, é a ciência que estuda a origem e a evolução das palavras, e a filosofia, como bem conceituou o Professor Paulo Guiraldelli Junior, preocupa-se com a desbanilização do banal.
Assim, imbuído sempre da atenção com o banal, a verdade (que é sempre banalizada no meio futebolístico), é algo que sempre me incomodou. Logo, só poderia mesmo me inquietar ao deparar-me com os três caminhos etmológicos da verdade.
O que se conhece por verdade possui três origens distintas: a grega, a latina e a hebraica.
ALETHEIA é verdade em grego, e diz respeito ao que não é oculto. Logo, ela é conhecida à medida que é desvelada. A verdade está posta, "determinada" por um padrão organizacional dependente da interação de suas estruturas internas. Cabe ao homem descobri-la, e entendê-la como ela é no mundo.
Em latim, verdade é VERITAS e significa o rigor do relato sobre alguma coisa. Desse modo, a verdade pode vir a ser conhecida por meio da rigorosidade do relato verdadeiro de um fato, ou seja, a verdade será corroborada após o fato.
Já, em hebraico, verdade é EMUNAH e diz respeito à confiança que uma pessoa tem em relação a fala de outra. Então a verdade é dependente de quem fala, e assim acredita-se que o fato relatado será verdadeiro, pois quem a professa é inquestionável.
Cada uma dessas três palavras traz um significado diferente, o que acaba "distorcendo" a verdade, evidenciando que a verdade verdadeira não existe, e que ela é sempre parcial.
Mas como fica isto no futebol? Qual é a verdade que cabe para explicar (ou tentar explicar) a verdade no futebol e em seu meio?
Para responder estas indagações, quero voltar ao boleiro e ao cientista.
Para o boleiro, evidentemente, a verdade segue os preceitos hebraicos. Só se tem valor no meio futebolístico a fala de uma celebridade mitificada. O futebol, como a sociedade capitalista, cria um mito atrás do outro para sua sobrevivência. E a palavra do mito é sempre verdade inquestionável.
Ouse discordar de um campeão mundial! E sofra as conseqüências.
Diga que um técnico várias vezes campeão está equivocado em relação a sua metodologia e suas intervenções. E padeça da ironia e descrédito corporativista.
Quem não jogou não tem voz, muito menos espaço para trabalhar. Quem não trocou passes com fulano, ou jogou em determinados clubes sabe o que de futebol?
Porém, quem conquistou respeito no meio pode vir a ser qualquer coisa. De técnico à dirigente; de comentarista esportivo à manager executivo; de jogador a político. Tudo isto sem precisar desenvolver competências e habilidades específicas para as diferentes funções, pois ele não precisa ser, ele já foi, é e será a verdade encarnada.
Já para o cientista clássico, obviamente, a verdade advém do latim. O cientista, por sua vez, descreve com rigorosidade o fato ocorrido. Descreve os porquês da vitória, das derrotas, do gol marcado e do gol sofrido...
Investiga o motivo que fez com que aquele treinador seja considerado um vencedor. Prova que houve gestão fraudulenta. Desvenda esquemas de dirigentes que lavaram de dinheiro. Denuncia as fraquezas e despreparos dos mitos após investigação sobre seus respectivos atos, explica a causa da queda no índice de gol no campeonato passado ...
Enfim, como disse no início da crônica, eu conheço os dois discursos, e por este motivo posso colocar em xeque as duas verdades. Cometendo um risco calculado, digo que nenhum nos dois está falando a verdade como deveria.
A verdade que explica o futebol à luz do século XXI não deve ser a hebraica (determinista e reacionária), muito menos a latina (analítica e pretérita). Precisamos formar pessoas que descubram a verdade no futebol seguindo a tendência grega.
Portanto, a verdade é contextual e emerge da organização de suas estruturas relacionais. Descobrir a verdade é compreender como se dão as interações sistêmicas. É desvelar a complexidade do humano que joga. É aprender como eu faço gol agora, no presente, contra esta equipe, ao mesmo tempo em que me defendo. É viver o presente intensamente. É se pautar em uma metodologia a qual não pode ser construída apenas pela passagem pelo mundo da bola e ou, muito menos, pelo mundo das letras.
Assim sendo, a verdade no e do futebol é pelo menos interdisciplinar, tendendo fortemente à transdisciplinaridade, principalmente quando se aumenta gradativamente a massa crítica e intervencionista, que conhece os dois lados da história (as duas outras verdades), operacionalizando pedagogicamente as mudanças paradigmáticas tão prementes no futebol, ponderada pelo bom senso.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br