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Alcides Scaglia
Colunista Especial

 

É bacharel em Ciência do Esporte, licenciado em Educação Física, Mestre em Pedagogia do Esporte e Doutor em Pedagogia do Movimento, todos títulos concedidos pela Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.

Desenvolve estudos na área da Pedagogia do Esporte e Educação Física escolar (é co-autor do livro "Educação como prática corporal" editado pela Scipione), a partir do referencial teórico da teoria do jogo e da complexidade.

Em 2003 finalizou uma trilogia de estudos sobre a pedagogia do futebol em que, ainda na graduação, sistematizou uma metodologia para o ensino do futebol, publicada no livro "Pedagogia dos Esportes", organizado pela professora Vilma Nista Picollo e publicado pela Editora Papirus.

Já no mestrado investigou através de entrevistas com ex-jogadores de futebol (atuais professores de escolinhas) o modo como esses jogadores aprenderam a jogar futebol, para depois comparar como esses profissionais ensinam as crianças atualmente em suas escolas de futebol.

No doutorado aprofundou os estudos na perspectiva da Teoria do Jogo, comparando as semelhanças entre o futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés, coadunando com a produção de uma teoria sobre o padrão organizacional sistêmico da Família dos jogos de bola com os pés.

Em 2003 fundou a Ong - Associação futebol Arte (AFA) em parceira com um grupo de pensadores e pesquisadores na área de pedagogia e treinamento de Futebol. Associação esta que construiu uma metodologia própria para a aprendizagem e desenvolvimento do futebol privilegiando o jogo e a formação de jogadores de futebol inteligentes, aplicando-a com sucesso na equipe do Paulínia FC.
 
É colaborador voluntário da Universidade do Futebol desde a sua fundação.

Em relação à dimensão profissional é docente do curso de Ciências do Esporte na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da UNICAMP, onde coordena o Laboratório de Pedagogia do esporte e estudos avançados sobre o Jogo.
Coluna
Quem diz a verdade no futebol?
As idéias contraditórias de boleiros e de cientistas clássicos do meio
28/10/2007

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Convivo com o futebol há um bom tempo. Como todo bom menino brasileiro, sonhei em ser jogador de futebol. E para isto dediquei mais de dez anos de minha vida, morando boa parte deste tempo em um alojamento até realizar o meu sonho.
 
Contudo, também como grande parte daqueles que ousaram transformar em realidade o desejo de jogar futebol, frustrei-me em determinada parte do processo, quando o real se impôs ao simbólico, o que acabou facilitando o meu ingresso, meio a contra gosto, à universidade.
 
Na universidade, aprendi a desejar o conhecimento e ter alegria ao adquiri-lo tanto quanto antes ansiava a bola rolando na relva.
 
Já faz mais de quinze anos que me dedico, entre outras coisas, a estudar o futebol, procurando desvendar os segredos, explicar as verdades e construir metodologias de trabalho que visem à formação do atleta inteligente, já que me tornei, após meu doutoramento, em um especialista em pedagogia do movimento e do esporte.
 
Entretanto, escrevo esta introdução autobiográfica, obviamente sem a intenção de me autopromoção, mas sim, para pontuar e contextualizar as reflexões advindas da temática desta crônica.
 
Como o título já adverte, quero falar sobre a verdade. Ou seja, o que é verdade no futebol? Seria verdade o que dizem os boleiros? Ou o que professam os cientistas clássicos?
 
Recentemente, lendo um livro sobre filosofia da ciência, deparei-me com uma instigante interpretação filosófica sobre a verdade por meio de suas raízes etimológicas.
 
Etimologia, segundo o Houaiss, é a ciência que estuda a origem e a evolução das palavras, e a filosofia, como bem conceituou o Professor Paulo Guiraldelli Junior, preocupa-se com a desbanilização do banal.
 
Assim, imbuído sempre da atenção com o banal, a verdade (que é sempre banalizada no meio futebolístico), é algo que sempre me incomodou. Logo, só poderia mesmo me inquietar ao deparar-me com os três caminhos etmológicos da verdade.
 
O que se conhece por verdade possui três origens distintas: a grega, a latina e a hebraica.
 
ALETHEIA é verdade em grego, e diz respeito ao que não é oculto. Logo, ela é conhecida à medida que é desvelada. A verdade está posta, "determinada" por um padrão organizacional dependente da interação de suas estruturas internas. Cabe ao homem descobri-la, e entendê-la como ela é no mundo.
 
Em latim, verdade é VERITAS e significa o rigor do relato sobre alguma coisa. Desse modo, a verdade pode vir a ser conhecida por meio da rigorosidade do relato verdadeiro de um fato, ou seja, a verdade será corroborada após o fato.
 
Já, em hebraico, verdade é EMUNAH e diz respeito à confiança que uma pessoa tem em relação a fala de outra. Então a verdade é dependente de quem fala, e assim acredita-se que o fato relatado será verdadeiro, pois quem a professa é inquestionável.
 
Cada uma dessas três palavras traz um significado diferente, o que acaba "distorcendo" a verdade, evidenciando que a verdade verdadeira não existe, e que ela é sempre parcial.
 
Mas como fica isto no futebol? Qual é a verdade que cabe para explicar (ou tentar explicar) a verdade no futebol e em seu meio?
 
Para responder estas indagações, quero voltar ao boleiro e ao cientista.
Para o boleiro, evidentemente, a verdade segue os preceitos hebraicos. Só se tem valor no meio futebolístico a fala de uma celebridade mitificada. O futebol, como a sociedade capitalista, cria um mito atrás do outro para sua sobrevivência. E a palavra do mito é sempre verdade inquestionável.
 
Ouse discordar de um campeão mundial! E sofra as conseqüências.
 
Diga que um técnico várias vezes campeão está equivocado em relação a sua metodologia e suas intervenções. E padeça da ironia e descrédito corporativista.
 
Quem não jogou não tem voz, muito menos espaço para trabalhar. Quem não trocou passes com fulano, ou jogou em determinados clubes sabe o que de futebol?
 
Porém, quem conquistou respeito no meio pode vir a ser qualquer coisa. De técnico à dirigente; de comentarista esportivo à manager executivo; de jogador a político. Tudo isto sem precisar desenvolver competências e habilidades específicas para as diferentes funções, pois ele não precisa ser, ele já foi, é e será a verdade encarnada.
 
Já para o cientista clássico, obviamente, a verdade advém do latim. O cientista, por sua vez, descreve com rigorosidade o fato ocorrido. Descreve os porquês da vitória, das derrotas, do gol marcado e do gol sofrido...
 
Investiga o motivo que fez com que aquele treinador seja considerado um vencedor. Prova que houve gestão fraudulenta. Desvenda esquemas de dirigentes que lavaram de dinheiro. Denuncia as fraquezas e despreparos dos mitos após investigação sobre seus respectivos atos, explica a causa da queda no índice de gol no campeonato passado ...
 
Enfim, como disse no início da crônica, eu conheço os dois discursos, e por este motivo posso colocar em xeque as duas verdades. Cometendo um risco calculado, digo que nenhum nos dois está falando a verdade como deveria.
 
A verdade que explica o futebol à luz do século XXI não deve ser a hebraica (determinista e reacionária), muito menos a latina (analítica e pretérita). Precisamos formar pessoas que descubram a verdade no futebol seguindo a tendência grega.
 
Portanto, a verdade é contextual e emerge da organização de suas estruturas relacionais. Descobrir a verdade é compreender como se dão as interações sistêmicas. É desvelar a complexidade do humano que joga. É aprender como eu faço gol agora, no presente, contra esta equipe, ao mesmo tempo em que me defendo. É viver o presente intensamente. É se pautar em uma metodologia a qual não pode ser construída apenas pela passagem pelo mundo da bola e ou, muito menos, pelo mundo das letras.
 

Assim sendo, a verdade no e do futebol é pelo menos interdisciplinar, tendendo fortemente à transdisciplinaridade, principalmente quando se aumenta gradativamente a massa crítica e intervencionista, que conhece os dois lados da história (as duas outras verdades), operacionalizando pedagogicamente as mudanças paradigmáticas tão prementes no futebol, ponderada pelo bom senso.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

Tags: pedagogia , sociologia

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