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15/02/2017

Olhando a manipulação das regras para construção de exercícios com outra visão

“Até mesmo o acaso não é impenetrável, tem as suas próprias regras”. (Novalis)

A construção de exercícios é um assunto de grande debate dentro do processo organizacional do treinamento. Além da manipulação de regras, tema da coluna, outras dimensões estão inertes na construção de exercícios, como: o espaço da área do exercício, o tempo total do exercício, a quantidade de jogadores, a quantidade de equipes, as quantidades de balizas fixas e móveis e o perfil da intervenção.

O treinador como modelador do processo, concomitante ao controle dessa conexão entre regras dos exercícios e outros elementos, deve perceber que cada realidade é única, e necessita de estímulos singulares para potencializar a equipe, pois além da cultura local, os jogadores são únicos e carregam uma memória neuro-motora passada precisando de nova configuração. Por isso, diagnosticar o contexto, entender os problemas diários transformando em exercícios peculiares, é a grande tarefa do treinador.

Da mesma forma, vários debates são levantados acerca da construção de exercícios, quanto a sua Especificidade, Representatividade e Fidedignidade. O entendimento desses três critérios facilita a operacionalização do nível informacional e a manipulação de regras, que sem sombra de dúvidas, tornam o exercício mais contextual; especialmente por que alguns exercícios utilizados em outras realidades, outros momentos, copiados ou até mesmo criados, podem não ser verdadeiramente contextuais a realidade futura desenvolvida.

E cada realidade oferece manifestações e potencialidades pedagógicas próprias, seja para abastecer ou limitar determinada aprendizagem com suas consequências estruturais e funcionais. Dessa forma, que tipo de regras pode-se manipular em cada atividade? Quais são mais significativas? Regras em excesso podem mecanizar os jogadores e a forma de jogar? Até que ponto a regra tira a direção e o sentido do jogo e do jogar? Há tipos de regras mais propícias para um determinado período do ano ou um perfil de jogar pretendido? Como atingir um equilíbrio dinâmico utilizando regras? E quais os estilos de regras mais utilizados?

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Nesse sentido, alguns estilos de regras são apresentados abaixo:

Regras Técnicas: limitações em quantidades de passes, passes com determinadas superfícies do pé e limitações com demais fundamentos gerais do jogo (condução, recepção, dribles, finalizações, desarmes ou interceptações).

Regras de Espaço tradicional: espaços demarcados como zonas e faixas que os jogadores ficam presos ou espaços marcados para que os jogadores realizem tarefas distintas.

Regras de Tempo tradicional: limitação na quantidade de tempo para execução de uma determinada interação, seja para concluir ao gol, para retirar a bola de um espaço, ganhar espaço com saídas setoriais do bloco, recuperar a bola ou reorganizar o bloco defensivo.

Regras de conceitos: na construção do exercício, é delimitado que toda interação aconteça com o objetivo de desenvolver um determinado conceito com liberdade decisional, ou um determinado conceito restrito, obrigando os jogadores a realizarem as mesmas interações e mesmo exercício indicando outras probabilidades.

Regras de relações forçadas: criação de relações grupais ou inter-setoriais que fazem os jogadores no exercício desenvolver apenas uma determinada situação. Também pode ser num contexto fechado ou liberto.

Regras de superioridade: exercícios que utilizam superioridade numérica internamente ou externamente ao exercício podendo ser muito variada.

Regras de pontos a serem atingidos: objetivos traçados no treinamento, por mecanismos criados, que ao serem cumpridos, são colocados pontos de recompensa para os jogadores irem somando individualmente ou por equipe.

Vendo algumas possibilidades das regras acima, alguns questionamentos são realizados: como achar o equilíbrio e não condicionar a equipe com a manipulação das regras? O excesso de regras pode mecanizar e fixar a construção dos exercícios, o que automaticamente mecaniza a forma de jogar?

É notório que dentro do jogo, as relações construídas, as oposições do adversário, vão além da manipulação das regras de um exercício. O jogo é muito maior que isso. O jogo geral já possui regras pela sua natureza, e o jogar pretendido também possui interações que já arrastam suas regras naturais. Dessa forma, não seria de maior relevância treinar pelo jogo que se pretende jogar criando regras interativas e não apenas pelas regras isoladas?

Com as regras bem contrabalançadas, direcionadas para interações construídas para o jogar pretendido, pode-se ter ganhos consideráveis e exercícios realmente contextuais. Em contrapartida, o excesso de regras, a rigidez, podem tirar as interações naturais dos jogadores, a independência, a capacidade de decidir e criar um jogo fantasioso/mecanizado.

É do entendimento de todos que o excesso de regras pode dificultar a realidade do jogo e o aprendizado dinâmico. Ainda mais, se o cenário de aprendizado criado indicar situações iguais. Isso limita a tomada de decisão, que ao final faz o jogador entender muito bem o discurso, mas quase nada do percurso. O ambiente de caos-organizado que é o jogo pede diversidade de decisão e probabilidades.

Uma perspectiva para encontrar esse equilíbrio, é criar exercícios pela interação do tempo-espaço, transformando essas dimensões em movimentos intencionais curtos, médios e grandes, com a manipulação correta dos exercícios. Essa ideia cria condições com regras interativas nos jogadores, na equipe, referenciando critérios bem delineados. Portanto, organizar condições manipulando regras, é distinto de usar regras condicionantes para manipular situações.

Resumindo, o equilíbrio na manipulação das regras, permite a modelação da forma de jogar, juntamente com alternativas naturais dos jogadores e das conjunturas criadas. Como falado anteriormente, a rigidez na construção de um exercício pode tirar graus de liberdade imperativos que o jogo solicita. Isso fortalece que a única regra é ter cuidado com as regras. Que as regras não sejam o inicio, o meio e o fim, mas apenas o inicio das probabilidades do exercício e do jogo que a equipe ambiciona.

Comentários

  1. FABRICIO LOPES MOROZETTI disse:

    Ao inserir regras, penso primeiro nos comportamentos que os jogadores devem adquirir para jogarem sob qualquer modelo de jogo. Penso que regras nos exercícios servem para estimular a variabilidade do repertório de ações e decisões do jogo. E para mim, isso independe da cultura ou idéia de jogo do treinador.

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