Por: Denise Lemos Fernandes
O planejamento no futebol vai muito além da organização tática e física das equipes. Quando concebido com uma visão integral e humanizada, ele se torna um instrumento poderoso para a formação não apenas de atletas, mas de indivíduos preparados para os desafios dentro e fora de campo. A partir da experiência adquirida no desenvolvimento de metodologias para categorias de base e na elaboração de guias para treinadores, compartilho aqui uma abordagem que busca equilibrar o desenvolvimento técnico, tático, físico e emocional dos jogadores.
A BASE DO PLANEJAMENTO: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS
Para que o planejamento seja eficaz, é essencial que ele contemple o desenvolvimento técnico e físico dos atletas. A preparação deve priorizar o fortalecimento da potência, força e velocidade, garantindo que os jogadores estejam prontos para as exigências do futebol moderno. Exercícios que simulam situações reais de jogo, treinos de explosão muscular e atividades de resistência são fundamentais para o crescimento esportivo. Mais do que aprimorar a parte física, é necessário criar desafios que incentivem a rápida tomada de decisão e a adaptação a diferentes cenários dentro de campo.
Outro ponto essencial no planejamento é o comprometimento e a pontualidade. Criar uma cultura de responsabilidade dentro da equipe significa estabelecer padrões elevados de disciplina e organização. Isso se traduz em treinamentos bem estruturados, respeito aos horários e à programação, o entendimento de que cada detalhe influencia diretamente na performance coletiva. Pequenas ações, como reuniões pré-treino para alinhamento dos objetivos diários e reflexões pós-treino sobre o desempenho, ajudam a consolidar essa mentalidade.
Além disso, a construção da equipe e a identidade de jogo são aspectos determinantes. Para formar um grupo coeso e estratégico, é fundamental que cada atleta compreenda seu papel dentro do modelo adotado. Trabalhar a coletividade, promover interações constantes entre os atletas e estimular a comunicação são estratégias eficazes para potencializar a coesão tática. O uso de pequenos desafios em grupo, dinâmicas de confiança e jogos reduzidos com regras específicas são formas de integrar e reforçar os princípios que nortearão a equipe dentro das partidas.
ESTRUTURA DAS SESSÕES DE TREINO
A estrutura das sessões de treino deve ser adaptada às diferentes faixas etárias, respeitando o nível de maturação dos atletas. Para crianças de 4 a 7 anos, as atividades devem ser lúdicas e estimulantes, priorizando a coordenação motora e o contato inicial com a bola. Jogos como “rouba bandeira” e desafios simples ajudam a desenvolver habilidades motoras e a criar uma relação prazerosa com o futebol.
Dos 8 aos 11 anos, as sessões devem começar a introduzir conceitos básicos de tática e posicionamento, sem perder a essência divertida do jogo. Exercícios como triangulações, passes curtos e longos e finalizações começam a ser incorporados, garantindo que os atletas desenvolvam habilidades técnicas fundamentais. Na faixa etária dos 12 aos 15 anos, o treinamento se torna mais específico, com ênfase na tomada de decisão e na leitura de jogo. A transição entre setores, marcação e compactação são trabalhadas com mais intensidade. Jogos reduzidos 5×5 e 7×7 com objetivos específicos ajudam os atletas a pensar estrategicamente dentro do campo.
A partir dos 15 anos, o foco se amplia para a consolidação da identidade do jogo, com ajustes táticos refinados e treinos voltados para a alta performance. Sessões que simulam situações reais de jogo e desafios técnicos que exigem inteligência tática são essenciais para preparar os atletas para a competitividade do futebol profissional.

A DINÂMICA DO CUBO MÁGICO: UMA METÁFORA PARA O DESENVOLVIMENTO
A Dinâmica do Cubo Mágico é uma das estratégias aplicadas nos treinamentos para reforçar a importância da organização, do trabalho em equipe e da adaptação às mudanças. Durante os treinos, os atletas são divididos em pequenos grupos e recebem um desafio: organizar cones de maneira estratégica, simulando a lógica de um cubo mágico. Por exemplo, cada jogador pode mexer em uma peça do cubo e precisa encontrar a melhor forma de encaixar dentro da estrutura. O exercício estimula a leitura de jogo, a comunicação eficiente e a rápida tomada de decisão. Além disso, a relação entre a dinâmica e o jogo formal se dá na necessidade de ajustar constantemente a posição e a estratégia para alcançar um objetivo comum, reforçando conceitos de compactação, movimentação e transições rápidas, seja para atacar ou defender.
Essa abordagem permite que os atletas desenvolvam raciocínio lógico, resiliência e a capacidade de solucionar problemas sob pressão. Ao compreender que cada peça do cubo mágico tem uma função específica e que todas precisam trabalhar juntas para formar a estrutura ideal, assimilam a importância do coletivo no futebol.
Esse entendimento é transferido para o jogo formal, onde o sucesso da equipe depende da conexão entre os setores e da inteligência tática aplicada em tempo real.
A VISÃO HUMANIZADA NO PROCESSO DE FORMAÇÃO
O futebol deve ir além da preparação esportiva, incorporando elementos que fortaleçam a identidade e o crescimento pessoal dos atletas. O uso de textos e livros como A Boa Sorte, que trabalha a construção estratégica e a resiliência, e A Arte da Guerra, que reforça conceitos de planejamento e adaptação, permite ampliar a visão dos jogadores sobre o esporte e a vida. Além disso, textos de Rubem Alves incentivam a reflexão sobre aprendizado e criatividade, promovendo um ambiente de treino mais estimulante e significativo.
Para consolidar essa abordagem, os atletas são incentivados a realizar tarefas diárias/semanais/mensais, como reflexões sobre seus pontos fortes e áreas de melhoria, e a participar de discussões sobre leituras que estimulem a tomada de decisão e a resiliência. O uso de um formulário personalizado pode ajudar a entender melhor seus objetivos, motivações e desafios, garantindo um acompanhamento individualizado e promovendo um crescimento contínuo.

PLANEJAMENTO COMO DIFERENCIAL COMPETITIVO
Um planejamento bem estruturado impacta diretamente o desempenho da equipe. A organização em blocos de tempo dentro dos treinos permite otimizar a aprendizagem sem comprometer a intensidade. Além disso, a inclusão de espaços para feedback e a adaptação constante das atividades garantem que cada jogador possa evoluir dentro do seu ritmo.
CONCLUSÃO
A formação de um atleta deve ir além do aprimoramento técnico/tático e físico. O estudo contínuo sobre o jogo, aliado à busca por conhecimento em diferentes áreas, amplia a compreensão do esporte e potencializa a tomada de decisões dentro de campo. Compreender a teoria, refletir sobre o próprio desempenho e buscar novas referências são atitudes que diferenciam os grandes jogadores e treinadores.
Além do conhecimento tático e técnico, o fortalecimento dos laços de afetividade dentro da equipe é essencial. O ambiente de treino deve ser um espaço de trocas, aprendizado e cooperação, onde o respeito e a empatia são incentivados diariamente. Relações sólidas e saudáveis dentro do grupo favorecem a evolução coletiva e criam um ambiente propício ao desenvolvimento humano.
Dessa forma, ao promover uma abordagem integral e humanizada no planejamento esportivo, contribuímos para a construção de indivíduos mais preparados, conscientes e comprometidos. O verdadeiro legado do futebol não está apenas nos títulos e conquistas, mas no impacto que ele gera na vida daqueles que o vivenciam com dedicação e paixão.
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Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/